Recorde as incidências da partida
"O Luka pode jogar se fizermos um certo tipo de jogo, se controlarmos o encontro. Se começa a ser um jogo de pura corrida, não é adequado para ele. No seu lugar entrou Musah, que tem outro andamento."
Ruben Amorim não usa meias palavras. E na frase dedicada a Luka Modrić está, nem sequer muito escondido, o manifesto de Yunus Musah. Porque no novo AC Milan o médio norte-americano já não é aquele que espera pela sua vez, o possível excedentário que regressou quase por inércia. Tornou-se aquele que entra quando o jogo se torna mais físico, ganha velocidade, muda de direção e, acima de tudo, muda a cara da equipa.
É o futebol, por vezes, que escreve histórias melhores do que qualquer previsão de mercado. Há apenas alguns meses, Musah parecia já ter um pé fora de Milanello. Tinha sido emprestado à Atalanta, com a ideia de que os nerazzurri pudessem exercer a opção de compra por cerca de 20 milhões. Não aconteceu. E no regresso aos rossoneri, o seu nome continuava entre os que estavam de saída. Depois chegou Ruben Amorim. E, de repente, aquilo que parecia um peso morto tornou-se um trunfo.
45 minutos para emoldurar
O Lazio-Milan ilustra na perfeição a reviravolta. Uma primeira parte para esquecer, um 2-0 para os biancocelesti e a sensação de que o AC Milan tinha entrado no jogo errado. Ao intervalo, Amorim mudou três jogadores: Diego Moreira, depois protagonista absoluto e MVP com dois golos, Pulisic e Musah. Os holofotes acabam inevitavelmente nos outros dois. É normal. Um golo vê-se, uma assistência conta-se, uma arrancada fica na retina.
Musah, por sua vez, trabalha nos bastidores do jogo. E quando se dá por isso, o AC Milan já mudou de pele.
A equipa começa a avançar e, sobretudo, a avançar em bloco. A pressão torna-se sufocante, a Lazio é empurrada para o seu meio-campo, a posse ganha continuidade e cada bola perdida parece já ter um rossonero pronto a recuperá-la. Musah está no centro de tudo isto. Não precisa de ser protagonista: basta-lhe ocupar o lugar certo no momento certo.
Os seus números ilustram bem o impacto: 91% de passes completos, quatro duelos ganhos em cinco, dois recuperações altas e uma interceção na zona ofensiva, além de dois cortes defensivos de alto nível. Mas o dado mais importante não cabe numa tabela. É a velocidade com que o AC Milan recupera terreno quando perde a bola. É a sensação de que, atrás de cada ação ofensiva, há sempre alguém pronto a corrigir o risco. E é aqui que Musah se torna central no futebol de Ruben Amorim.

Musah mais do que Modrić? Eis porquê
O treinador português pede domínio, mas o domínio tem um preço: é preciso jogar subido, movimentar muitos jogadores, atacar os espaços e aceitar deixar espaço nas costas. Quando chega a transição defensiva, alguém tem de ter pernas para transformar um potencial contra-ataque numa simples bola recuperada.
Musah tem essas pernas. Modrić não. E não há nada de escandaloso em dizê-lo.
A exibição do croata frente à Lazio foi negativa, mas a questão é mais ampla do que um só jogo. Aos 41 anos, Luka já não pode ser avaliado pelo que já não é. Não pode tornar-se um velocista, nem pode passar noventa minutos a correr atrás de um jogo jogado a toda a velocidade. A Bola de Ouro continua lá, como certificação eterna da sua grandeza. Mas o tempo muda o jogador e, sobretudo, muda os jogos em que esse jogador pode exprimir melhor a sua arte.
O antigo jogador do Real Madrid precisa de ordem. De posse. De uma equipa que lhe permita respirar e escolher. Se o AC Milan encontra um bloco baixo, se consegue manter o adversário encostado e circular a bola com continuidade, então o croata torna-se uma peça fundamental: vê antes dos outros, abranda quando é preciso, acelera quando encontra o espaço. É o maestro ideal para abrir uma defesa fechada.
A Lazio era exatamente o oposto. Intensidade, transições, campo aberto, movimentos constantes sem bola. Um jogo para disputar mais do que para controlar. E então Ruben Amorim mudou de plano sem mudar de ideia: se o jogo se transforma numa corrida, é preciso quem saiba correr. Musah.
É por isso que a sua entrada no Olímpico vale mais do que uma boa exibição. Diz algo sobre o AC Milan que está a nascer. Diz que, numa equipa que quer jogar de forma agressiva, vertical e intensa, o norte-americano pode ser muito mais do que um simples figurante. Pode ser o equilibrador de um sistema que, por natureza, corre o risco de se desequilibrar.
A confiança faz bem
Musah perde algo em relação a Modrić na construção desde trás, na gestão dos ritmos, na capacidade de ler uma defesa posicionada. Mas quando o Milan empurra o adversário para o seu meio-campo, quando começa a dança das segundas bolas e é preciso ser o primeiro a chegar à bola solta, as suas características tornam-se quase perfeitas. Pressiona, recupera, corre. E quando a equipa perde a posse, recua antes que o perigo se transforme em ocasião.
Não é o jogador que Ruben Amorim encontrou na lista dos possíveis dispensados. É o jogador que Amorim está a construir para o seu AC Milan.
E talvez a frase mais significativa tenha sido dita pelo próprio Musah: "Ter a confiança do treinador torna um jogador mais tranquilo. É bom ver que há treinadores que se lembram do que posso fazer. O sistema tático para mim é muito claro e ajuda-me a jogar bem". Nota-se.
Nota-se porque hoje Musah joga com a leveza de quem sabe exatamente onde deve estar. E quando um jogador com o seu físico deixa de se questionar sobre o que fazer e começa simplesmente a fazê-lo, o salto é enorme.
Por isso, pelo menos dentro do futebol de Amorim, já existe uma hierarquia que está a mudar. Não aquela entre uma Bola de Ouro e um jovem que ainda tem tudo por provar. Essa seria uma loucura. É uma hierarquia muito mais simples e interessante: quem serve para controlar o jogo e quem serve para dominar o ritmo.
Contra a Lazio, Ruben Amorim precisava do segundo. E Musah deu-lhe exatamente aquilo que procurava.
