O jogo vertical e objetivo, que rendeu elogios ao treinador português na sua passagem pelo Cruzeiro, faz parte de sua marca registada e passa agora a ser base da nova identidade rubro-negra.
"Acredito que a posse de bola tem um objetivo: de criar espaço ou superioridade sobre o adversário. Quando o adversário pressiona menos, temos mais posse. Quando pressionam mais, deixam espaços que vamos aproveitar", avaliou Leonardo Jardim.
Choque estatístico contra o Cruzeiro
Logo na estreia de Leonardo Jardim à frente do Flamengo no Brasileirão, o adepto que acompanhou os números no Flashscore notou uma estatística incomum: o Rubro-Negro registou apenas 44% de posse de bola, contra 56% do Cruzeiro. Esta é a menor marca da equipa atuando em casa na competição desde 2024, quando a equipa ainda era comandada por Tite.
Mesmo trocando quase 100 passes certos a menos que o adversário mineiro (339 contra 431), a equipa de Leonardo Jardim foi mais objetiva: superou o Cruzeiro em finalizações (15 a 13), sendo sete delas no alvo.
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O "caso" Cruzeiro: menos bola, mais rede
O Flamengo de Filipe Luís encerrou a última edição do Brasileirão no topo do ranking de construção, liderando a posse de bola com uma média impressionante de 62,1%. No entanto, o sucesso de Leonardo Jardim no comando do Cruzeiro, na mesma temporada, provou que existem outros caminhos para a eficiência.
Mesmo terminando em 14.º lugar no ranking de posse de bola (com apenas 47,7%), o clube mineiro mostrou-se letal. Ao entregar a bola ao adversário e apostar na verticalidade, Leonardo Jardim construiu o quinto melhor ataque da competição, balançando as redes 55 vezes (média de 1,4 golos por jogo) e aplicando cinco vitórias por três ou mais golos de diferença.

Apesar da evidente limitação técnica do plantel celeste em comparação com os favoritos, o treinador português manteve o Cruzeiro na luta pelo título até as jornadas finais. Inclusive, Leonardo Jardim não perdeu com o Flamengo de Filipe Luís em 2025. Na vitória celeste sobre o Rubro-Negro por 2-1, no Mineirão, a Raposa teve apenas 41% da posse de bola contra 59% da equipa carioca, mas finalizou 17 vezes contra apenas seis do Rubro-Negro, sendo 11 no alvo. Foi um verdadeiro triunfo tático.
Identidade camaleão e o fator Jorge Jesus
No clássico contra o Botafogo, o Flamengo voltou a ter o controlo da posse de bola: 58% contra 42% do rival. No entanto, o domínio pode ser explicado pela superioridade numérica em campo, após a expulsão de Alexander Barboza ainda nos descontos do primeiro tempo.
Embora seja cedo para dizer que o caminho de Leonardo Jardim no Rubro-Negro será sempre pautado por ceder a posse e apostar na letalidade, os primeiros sinais são claros. É possível afirmar que este novo Flamengo caminha para assumir uma "identidade camaleão", adaptando-se estrategicamente ao que cada duelo propõe.

O adepto rubro-negro, inclusive, já viu algo parecido num passado vitorioso não tão distante. Sob o comando de Jorge Jesus, numa trajetória de 57 partidas, houve nove ocasiões em que o adversário teve mais posse — incluindo a estreia do técnico português, no empate 1-1 com o Athletico-PR, nos quartos de final da Taça do Brasil de 2019 (51% a 49%).
Fica a lição: posse de bola não é sinónimo de vitória. Pode ser uma questão de imposição de estilo, mas reter a bola não significa, necessariamente, estar mais próximo do resultado positivo. Com Leonardo Jardim, o Flamengo sinaliza que prefere a letalidade dos espaços ao conforto das estatísticas estéreis. Os jogadores endossam a nova mentalidade.

"Estamos procurando o que ele pede, a profundidade, o jogo por dentro. Quando um jogador sai da posição, o outro tem que entrar. Nesse jogo, deu resultado", disse Samuel Lino, autor do primeiro golo sobre o Botafogo.
Se a "identidade camaleão" de Leonardo Jardim provar ser tão letal quanto a verticalidade de Jorge Jesus, o adepto rubro-negro terá motivos de sobra para acreditar que o pragmatismo pode ser o caminho mais curto para o topo do pódio.
