Além da performance dentro das quatro linhas, resta saber qual será o apoio vindo das bancadas no jogo entre São Paulo e Chapecoense.
Um intervalo de 41 anos, 8 meses e 24 dias. Depois de mais de quatro décadas, o São Paulo volta a ter um treinador negro — nesse período, Carlos Gruezo, adjunto de Luis Zubeldía e também negro, atuou apenas como interino na função.
O caso de Roger Machado no futebol brasileiro é significativo porque expõe o descompasso entre o tamanho da população negra do país e o número de treinadores dessa origem que chegam à elite do futebol nacional. A própria seleção brasileira, por exemplo, nunca teve um treinador negro num Mundial.

Uma pesquisa concluída em 2024 na Escola de Educação Física e Desporto da Universidade de São Paulo (USP) por Donald Verônico Alves da Silva reforça esse desequilíbrio racial no comando técnico do futebol brasileiro.
O estudo, baseado num processo de heteroidentificação que avaliou mais de mil profissionais — entre treinadores, jogadores e adjuntos da Série A do Campeonato Brasileiro — indica que pessoas negras aparecem muito menos do que seria esperado à luz da composição da população do país.
Segundo dados do IBGE de 2022, 45,3% dos brasileiros declaram-se mestiços e 10,2% pretos, enquanto 43,5% se identificam como brancos. Ainda assim, a análise mostra que em 2023 nenhum técnico negro comandava equipas da elite nacional, e apenas cerca de 17% dos adjuntos foram identificados como pretos ou mestiços.
Antes de Roger no São Paulo — que enfrenta forte rejeição de parte dos adeptos nas redes sociais principalmente pelo seu histórico de poucos títulos e pelas suas posições políticas assumidamente de esquerda — o último treinador negro do clube havia sido Otacílio Pires de Camargo (1939-2019), o Cilinho.
Chegou ao São Paulo em 1984 sem ser unânime. Apesar de bons trabalhos no interior paulista, especialmente em Guarani e Ponte Preta, parte dos adeptos e da imprensa esperava um técnico mais consagrado para comandar o clube naquele momento.
Cilinho nos anos 80
O São Paulo vinha de anos irregulares, e a aposta em Cilinho foi recebida com desconfiança. O apelido “Cilinho Michels”, numa comparação irónica com o técnico neerlandês Rinus Michels, chegou a circular entre adeptos e cronistas.
O próprio treinador tratou o episódio com humor. Na época, os adeptos sonhavam com nomes como Telê Santana, que estava na Arábia Saudita, ou até com César Luis Menotti. “Vim para dar um jeito nesta equipa. Prefiro que falem comigo depois do Campeonato Paulista”, avisou o novo técnico são-paulino.
Logo nos primeiros meses, porém, o treinador mudou o perfil da equipa. Cilinho apostou fortemente nos jovens formados no clube e passou a dar espaço a jogadores como Müller e Silas. O clube ganhou um estilo ofensivo e técnico e o treinador ficou conhecido pelo seu método didático nos treinos, o que lhe rendeu o apelido de “professor”.
Ténis ou futebol?
Entre os métodos que chamavam mais a atenção estava um exercício curioso: em alguns treinos, Cilinho fazia os jogadores trocarem passes, dominarem e conduzirem uma bola de ténis. A lógica era simples: se o atleta conseguisse controlar uma bola pequena e rápida, teria muito mais facilidade com a bola oficial. O recurso era usado principalmente com os mais jovens, para desenvolver controlo, agilidade e precisão.
Com o tempo, os resultados transformaram a desconfiança inicial em reconhecimento. O São Paulo conquistou o Campeonato Paulista em 1985 e 1987, consolidando o trabalho do treinador.
Para muitos adeptos e historiadores do clube, o período de Cilinho ajudou a formar a base técnica e mental que prepararia o terreno para a fase vitoriosa do início dos anos 1990, quando o clube seria comandado, enfim, por Telê Santana. A primeira passagem dele terminou em 1986. Voltaria em 1987 e ficaria até 1989.

Antes de Cilinho, os técnicos negros do São Paulo estão ainda mais no passado. O pioneiro, Arthur Friedenreich, que comandou o clube em 1936, é muito mais conhecido como jogador — o primeiro grande nome do São Paulo e do futebol brasileiro antes da era do Mundial.
Registos não oficiais indicam que teria marcado 1.329 golos somando jogos oficiais e particulares. Filho de pai com ascendência alemã e mãe negra brasileira, destacou-se numa época em que o futebol ainda era fortemente marcado pelo elitismo racial. Friedenreich morreu em 1969, aos 77 anos.
Diamante Negro
Outro grande nome foi Leônidas da Silva (1913-2004). Depois de brilhar nos Mundiais de 1934 e 1938 com a seleção brasileira e se tornar ídolo do São Paulo nos anos 1940 — a sua estreia no clube, no Pacaembu, foi assistida por cerca de 70 mil pessoas — treinou o clube entre 1951 e 1955. Como jogador tricolor, o Diamante Negro conquistou os Campeonatos Paulistas de 1943, 1945, 1946, 1948 e 1949 e atuou até os 37 anos.
Já nos anos 1960, Sylvio Pirillo comandou o São Paulo entre 1967 e 1968, num período de vacas magras para o clube por causa dos altos custos da construção do Estádio do Morumbi.
Pirillo, que como jogador teve passagens marcantes por clubes como Internacional, Flamengo e Botafogo, também teve um capítulo importante na história da seleção do Brasil: em 1957, foi o primeiro técnico a convocar Pelé, para a disputa de uma edição da Taça Roca, torneio entre Brasil e Argentina.
Além de Gruezo, outros técnicos negros passaram pelo comando do São Paulo de forma interina ao longo da história: Ariston de Oliveira (1951), Caxambu (1957, 1961 e 1962), Bebeto de Oliveira (1984) e Zé Carlos Serrão (1986 e 1987).
Qualquer comparação entre Roger e os outros técnicos negros que passaram pelo São Paulo, em tempos onde o futebol era outro e não havia redes sociais, será injusta. Apenas os próximos dias e meses, além dos resultados, vão dizer como será este capítulo da história do clube.
