Matic recorda primeira conversa com Jorge Jesus: "Então porque é que me contrataste?"

Matic está atualmente no Sassuolo
Matic está atualmente no SassuoloInsidefoto, Insidefoto / Alamy / Profimedia

Nemanja Matic, médio internacional sérvio, atualmente com 37 anos, que representa o Sassuolo, concedeu uma entrevista à "Gazzetta dello Sport", onde recordou a primeira conversa com Jorge Jesus quando assinou pelo Benfica e a relação com José Mourinho, com quem trabalhou no Chelsea, no Manchester United e na Roma.

O que o leva a continuar a jogar aos 37 anos? "A paixão e o amor por este desporto. Divirto-me imenso e sempre tomei decisões colocando em primeiro lugar a possibilidade de me sentir bem e de me concentrar no futebol. Quando começas a ganhar 75 euros por mês e depois te encontras em grandes clubes, percebes que tens sorte e pensas da forma certa. Em relação a quando era mais jovem, agora tenho ainda mais vontade de treinar e jogar. Talvez porque sei que já não me resta muito tempo para o fazer."

Começou como médio-ofensivo. O que pensou quando Jorge Jesus, no Benfica, o recuou no campo? "Fiquei de boca aberta. No primeiro dia ele veio ter comigo com um intérprete, porque eu não falava português e ele não falava inglês. Disse-me: 'Como 8 ou como 10 não tens um nível alto e não podes jogar no Benfica'. E eu pensei: 'Então porque é que me contrataste?'. Depois ele continuou: 'Mas se jogares como 6, podes tornar-te um dos melhores do mundo'. Não tinha escolha, por isso recuei no campo. E passados quatro meses percebi que o Jorge Jesus tinha razão."

Saída da Roma: "Amo os adeptos da Roma. E merecem muito mais. O estádio está sempre cheio, sente-se a paixão deles. Deviam ter a possibilidade de lutar pelo título todos os anos, mas isso não acontece há demasiado tempo. É como se algo impedisse o crescimento da equipa. Eu saí apenas por falta de respeito dos dirigentes, que me tinham garantido certas coisas que depois não aconteceram. Demasiados adiamentos na altura de renovar. Foi uma questão de princípio, já não era um miúdo. Em Roma pensavam apenas em contratos de um ano e eu escolhi outros projetos."

Trabalhou com Mourinho no Chelsea, no Manchester United e na Roma. Era sempre o mesmo José? "Não, em Roma estava mais tranquilo. O Mourinho é uma personagem excecional e percebeu que as novas gerações são diferentes da nossa."

A longa crise do Manchester United: "Antes de tudo, a pressão. Para o ambiente do clube foi difícil perceber que o United já não era a equipa mais rica de Inglaterra nem a mais forte. Lembro-me de que quando jogava lá e fazia a bola circular para trás para mudar o flanco, as pessoas resmungavam. E se Old Trafford resmunga, os jovens podem sentir isso. Depois acho que os proprietários não estavam sintonizados com a mentalidade e as expectativas dos adeptos. Pensavam demasiado noutras coisas, como o marketing. Até nós, jogadores, fazíamos duas horas de marketing por semana. Agora, no entanto, algo mudou: Carrick foi uma ótima escolha e têm de lhe dar um par de anos para reconstruir a equipa."

Como é que o Sassuolo o convenceu? "Com uma boa reunião em Milão. Estavam comigo Giovanni Carnevali e Fabio Grosso. Explicaram-me como funciona o clube, a importância dos jovens. E depois vi o magnífico centro de treinos: para mim é importante treinar num lugar de que gosto. É bom ter muitos jovens à volta, posso ser útil, explicar algumas coisas e ajudá-los a crescer. Quando a época acabar voltaremos a falar. O Sassuolo sabe que, se eu estiver feliz, não tenho problema nenhum em continuar. Competições europeias? "Carnevali sabe e ele também gostaria de jogá-las. Em um mês percebi que a permanência não podia ser o nosso único objetivo, mas para crescer é preciso tempo. No fundo o Sassuolo acabou de voltar da Série B."

Os números de Nemanja Matic
Os números de Nemanja MaticFlashscore

Porque é que o futebol italiano está em dificuldades? "Ficou preso aos anos noventa. O primeiro problema são as academias. Vi isso com o meu filho: as formações em Inglaterra e França estão muito mais avançadas. Ensinam-te a driblar, desenvolvem a técnica, incentivam-te a divertir-te procurando as soluções certas. Outro tema é a tática, que é importante, mas condiciona demasiado. Em Itália muitas equipas jogam com defesa a três e atacam pouco. Diz-se que não há intensidade, mas como pode haver se pensas sobretudo em defender no teu meio-campo? É preciso um projeto inovador, caso contrário daqui a alguns anos a situação será ainda pior. E isso entristece-me, porque agora faço parte do futebol italiano e gostava de o ver a outro nível."

Tem 37 anos, Modric tem 40, Ibrahimovic jogou com mais de 41. A Série A é um campeonato para jogadores mais velhos? "Não vejo assim, porque entram também em jogo as qualidades individuais. Modric é o melhor do mundo e pode jogar em qualquer lado: na Premier, na Liga, em qualquer lugar. O Real Madrid sente a ausência de Modric. É justo sublinhar o que não funciona na Série A, mas nunca se deve subestimar que jogar em Itália continua a ser muito difícil."

O que fará quando terminar a carreira? "Treinador. Tentando ser eu próprio, com as minhas ideias e convicções. Depois veremos se serei capaz."