Daniel Ramos diz que futebol chinês tenta limpar imagem após esquema ilícito

Daniel Ramos, treinador do Henan
Daniel Ramos, treinador do HenanJURIJ KODRUN / GETTY IMAGES EUROPE / GETTY IMAGES VIA AFP

O futebol chinês procura recuperar credibilidade, afetado por um esquema de manipulação de resultados e apostas ilegais, que irradiou 73 pessoas da modalidade e deduziu pontos a 13 clubes, incluindo o Henan, treinado pelo português Daniel Ramos.

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“Foi uma intervenção em grande escala. Decidiram punir os clubes em pontos, multá-los e penalizar desportivamente muita gente. Houve grande rigor para limpar a imagem do futebol chinês”, referiu à agência Lusa o técnico, de 55 anos e desde abril de 2025 no conjunto de Zhengzhou.

Em janeiro, a um mês do arranque da época, as autoridades desportivas chinesas sancionaram nove emblemas do escalão principal e quatro do segundo, com três a 10 pontos de dedução e coimas dos 25.000 aos 126.000 euros.

As punições dependeram da gravidade das infrações, tendo em vista a salvaguarda da integridade das competições e uma reestruturação institucional da modalidade no segundo país mais populoso do mundo.

“Há recomendações bastante claras para não se falar sobre arbitragens e criar um ambiente mais positivo em redor do futebol. Existem tetos salariais e nos prémios por jornada, de forma que os clubes não incorram em orçamentos desmedidos nem falhem pagamentos e fechem portas. Há um esforço grande para que o controlo orçamental seja cumprido e o campeonato cresça em credibilidade e melhore ano após ano”, explicou Daniel Ramos, eleito melhor treinador do ano na China em 2025.

Os últimos resultados do Henan
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O Henan iniciou a 13.ª época seguida na elite com seis pontos negativos, mas inverteu-os nas três primeiras jornadas, fruto de duas vitórias - bateu fora o tricampeão Shanghai Port logo a abrir - e um empate, chegando à paragem para os compromissos das seleções nacionais na nona posição.

“Sentimos alguma injustiça, porque não temos culpa dos pontos negativos e há que gerir e lidar com isso. Essa pressão acrescida é visível em muitas equipas e não fugimos dela, mas, felizmente, demos uma boa resposta. É muito prematuro perceber o que vai acontecer, mas, atendendo às indicações do plantel e aos resultados promissores, estou com esperança de que consigamos novamente ter uma boa performance”, afiançou.

Guiado pela meta da manutenção, o Henan visa melhorar o 10.º lugar da época passada, que ficou marcada pela inédita chegada em 31 anos de existência do clube à final da Taça da China, perdida frente ao Beijing Guoan (3-0), num país em que Daniel Ramos encarou estádios repletos.

“Os adeptos são apaixonados por futebol, compram muito merchandising e estão sempre atrás da equipa para conseguir autógrafos e fotografias. Pedi aos atletas que dignificassem o clube ao máximo e saíssem dos jogos com o sentimento de que deram tudo. Além do lado técnico-tático, da qualidade, da coragem e da ambição, tracei esse objetivo para irmos à procura de ser felizes”, notou o treinador, a cumprir a segunda experiência no estrangeiro.

Sentindo uma maior conexão entre adeptos e clube desde a sua chegada, Daniel Ramos admite que as saudades da família e dos amigos têm sido contornadas “por uma estrutura em simbiose e um processo em ascensão”.

“Tinha conhecimento dos anos dourados da China (ao nível da contratação de jogadores), mas sabia que isso não acontece nesta altura. Falei com o Ricardo Soares, que esteve no Beijing Guoan e disse-me que eu ia gostar. Como somos treinadores disciplinados, com uma ideia de jogo definida e organizados no processo, havia muitas possibilidades de ter sucesso. Isso atraiu-me. O nível de vida é bom num país culturalmente rico”, descreveu.

Os próximos jogos do Henan
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O país tenta reerguer-se da campanha anticorrupção iniciada em novembro de 2022, que, numa primeira fase, originou sanções contra 61 pessoas e 41 clubes e, mais recentemente, baniu da modalidade o ex-presidente da Associação Chinesa de Futebol (CFA), Chen Xuyuan, e o antigo selecionador nacional Li Tie, ambos condenados judicialmente.

No plano desportivo, nenhum clube passou à fase a eliminar das provas asiáticas em 2025/26, enquanto a seleção, vice-campeã continental em 1984 e 2004, falhou todas as fases finais de Mundiais desde a única presença, em 2002, numa edição coorganizada pelos vizinhos Coreia de Sul e Japão.

“Os resultados não foram os melhores, houve uma mudança e o treinador que estava no Qingdao West Coast (Shao Jiayi) passou a ser selecionador. Acredito que, com o tempo, a qualidade da seleção chinesa vai melhorar, porque existe uma fornada de jogadores, sobretudo nascidos em 2005 e 2006, a aparecer. O Henan tem um ou outro miúdo de qualidade e todas as equipas estão a apostar neles e a colocá-los até como titulares”, concluiu.