Exclusivo com Nuno Pereira (Ferroviário): "Em três meses, conseguimos atingir os objetivos da época"

Nuno Pereira esteve mais de 10 anos como treinador-adjunto na Liga Portugal
Nuno Pereira esteve mais de 10 anos como treinador-adjunto na Liga PortugalFerroviário AC/Flashscore

Em Fortaleza não se fala de outra coisa. O grande trabalho do treinador português, Nuno Pereira, no Ferroviário não tem passado despercebido. No emblema onde Mario Jardel deu os primeiros passos, Nuno Pereira conseguiu os primeiros objetivos da temporada e, nesta entrevista ao jornalista João Paulo Ribeiro do Flashscore, não esconde que treinar na Primeira Liga portuguesa é uma meta de futuro.

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Nuno, muito obrigado por esta entrevista e parabéns, porque o primeiro objetivo da época está conseguido: o apuramento do Ferroviário para a Taça do Brasil. Como é que estão a correr as coisas?

Muito obrigado pelo convite. É sempre um gosto partilhar uma experiência desportiva e fico muito grato. Nesta primeira fase do estadual, correu tudo muito bem. Conseguimos os objetivos que o clube se tinha proposto para esta época e logo na primeira fase: no Estadual Cearense. O clube já garantiu a Série B e a Copa do Nordeste para o próximo ano. Para além da parte desportiva, também conseguiu um bom encaixe financeiro, porque a Taça do Brasil tem um grande encaixe financeiro quando os clubes conseguem o apuramento. Garantimos também a Série A do Estadual Cearense, que é onde estão as equipas mais competitivas. Ou seja, em três meses de competição, conseguimos já atingir as metas de uma época inteira. Isso é muito bom e positivo. Estamos muito satisfeitos com o rendimento desportivo e financeiro. Até porque conseguimos encaixes com os objetivos das diferentes Taças.

- Para quem não conhece o futebol do Ceará, o estado é dominado pelo Fortaleza e pelo Ceará. É difícil para o Ferroviário, que já foi um grande clube, tentar voltar ao nível destes dois gigantes? Por que é tão difícil combatê-los nesta altura?

Neste momento, o Ferroviário está um pouco abaixo do Fortaleza e Ceará. O investimento deles é de Série A do Brasileirão. Apesar de terem descido à Série B este ano, o investimento continua muito forte. Aliás, os reforços desses clubes são jogadores de nível de Série A, porque o objetivo deles é subir imediatamente. Nós não temos, neste momento, a preponderância financeira do Ceará ou do Fortaleza, mas somos um clube que se está a organizar muito bem. Temos objetivos a curto e médio prazo que passam por competir noutras divisões. O Ferroviário é muito respeitado em Fortaleza. Era o principal clube de Fortaleza há uns anos e quer recuperar essa imagem. Recordo que era o clube do Mário Jardel, ex-jogador de FC Porto e Sporting. É uma referência. O clube tem tudo para crescer e o nosso contributo serve para que o clube atinja outros patamares e ganhe uma dimensão diferente ao nível das infraestruturas.

Nuno Pereira dá indicações durante um treino
Nuno Pereira dá indicações durante um treinoFerroviário AC

- Para si, pessoalmente, como está a correr a experiência? Já tinha estado no Brasil, no Cuiabá.

A primeira experiência que tive no Brasil foi muito boa. É um país apaixonante, pelo futebol e pelo clima. Gostei muito e aceitei este convite por ser um desafio diferente. Agora, como treinador principal, tenho uma grande quota-parte na organização da estrutura e posso aplicar as minhas metodologias e ideias de jogo da forma que pretendo, sempre adaptado ao contexto. O desafio é muito interessante. As pessoas convidaram-me porque já conheciam o meu trabalho e estou muito satisfeito. Estou focado em conseguir algo mais porque é esse o meu objetivo. Passo a passo atingir os objetivos a que me propus com o clube. Mas também tenho os meus objetivos pessoais e quero, de forma tranquila e focada, preparar-me para outros patamares.

- Foi treinador adjunto durante quase toda a carreira, tendo acompanhado muito o Petit nos últimos anos. Ainda é relativamente jovem, tem 48 anos e falava há pouco dos seus objetivos pessoais. Quais são? O que nos pode revelar?

Tive uma experiência há cerca de quinze anos no Sport Clube de Vila Real como treinador principal, mas depois passei muito tempo como adjunto do mister Petit, do mister Pepa e do mister Nacho González. Foram todas boas experiências. Mas, neste momento, os meus objetivos são outros. Aceitei o desafio de ser treinador principal porque, quando surgiu a oportunidade, senti que era o momento. Os meus objetivos passam por cimentar as minhas ideias e aplicá-las em contextos desafiantes, com um grau de exigência elevado, pois é assim que vou crescer e ser um grande treinador. Gosto de desafios e de exigência. Quero chegar ao mais alto nível, mas bem preparado. Trabalho diariamente para ser melhor e espero, a curto ou médio prazo, estar noutros patamares. É o sonho de qualquer treinador com ambição e preparo-me para disputar outras ligas e outros níveis competitivos. É o que me desafia e é a minha grande paixão.

- Treinar na Liga Portugal é um objetivo?

Sim, claro. Conheço bem a liga portuguesa; estive lá dez anos como adjunto. Conheço as equipas, os jogadores e os campos. 10 anos não 10 dias. Estar tanto tempo nesse nível é sinónimo de competência e qualidade. Sem essas valências não estamos tanto tempo na Liga Portugal. Consegui estar, fruto do meu trabalho. Sinto-me preparado. É uma questão de oportunidade; quando surgir, acredito que não vou defraudar as expectativas.

- Como tem acompanhado a carreira dos treinadores com quem trabalhou, como o Petit, o Nacho ou o Pepa?

Acompanho sempre, porque são pessoas com quem gostei de trabalhar, com quem aprendi, com quem partilhei ideias e com quem criei uma relação de amizade. Acompanho porque são pessoas que me dizem algo. Desejo-lhes sempre o maior sucesso, não fico indiferente. São pessoas que gosto que tenham sucesso, a nível profissional como pessoal. Só lhes desejo que tenham trabalho e sucesso.

- Jorge Jesus abriu uma porta para os treinadores portugueses no Brasil. Temos o Leonardo Jardim acabado de chegar ao Flamengo e o Abel Ferreira a fazer um trabalho histórico no Palmeiras. Sente que o treinador português goza de preferência no futebol brasileiro?

O mister Jorge Jesus abriu o caminho e esse caminho foi bem aproveitado por treinadores portugueses que lá passaram e continuam, como é o caso do Abel. Todos, em função do nível competitivo e contexto, tiveram sucesso e deixaram a sua marca, sinal de trabalho, competência, liderança e capacidade tática. O treinador português é muito respeitado, a língua também favorece imenso. O treinador português é muito bem preparado e taticamente evoluído, que é algo que às vezes falta no Brasil: a organização e a disciplina de jogo. 

Nuno Pereira dá palestra durante um treino
Nuno Pereira dá palestra durante um treinoFerroviária AC

O jogador brasileiro tem muito talento e muita disponibilidade para treinar. Raramente se queixa se a relva está alta ou não está regada, ao contrário da Europa em que os jogadores reclamam. No Brasil não, querem treinar e estão sempre disponíveis, um pequeno toque nunca é problema. Têm técnica e talento que todos sabemos, falta essa questão da organização e o treinador português tem essas valências e complementa o desenvolvimento do jogador, individualmente, e a nível da equipa, coletivamente. Por isso é que os treinadores portugueses têm sucesso: têm um conhecimento de jogo acima da média e os jogadores gostam de trabalhar dessa forma. Quando os jogadores acreditam na ideia do treinador, compram-na e vão atrás dos objetivos.

- Para terminar, pedia-lhe uma opinião sobre o campeonato português. O FC Porto está na frente, mas com pouca vantagem. Como é que acha que vai acabar?

Acompanho logicamente o campeonato. Creio que vai ser muito competitivo, tanto na parte de cima como na parte de baixo da tabela. Os próximos quatro ou cinco jogos serão decisivos para os três grandes. Na cauda da tabela, tirando talvez o AFS que está um pouco mais distante do penúltimo lugar, haverá muita competitividade para fugir aos lugares de descida. No futebol, tudo é possível.