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Taça Sul-Americana: Cienciano e o maior desafio da sua campanha, o Botafogo

Cienciano e o maior desafio da sua campanha
Cienciano e o maior desafio da sua campanhaJosé Angulo / AFP

O único clube peruano ainda em competição internacional enfrenta uma eliminatória que pode confirmar se a sua histórica reviravolta frente ao Lanús foi uma exceção ou o início de uma nova ilusão continental.

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Existem histórias que só o Cienciano parece capaz de escrever. Quando perdeu por 2-0 na Argentina, diante do Lanús, atual campeão da Taça Sul-Americana, parecia que o sonho internacional da equipa cusquenha tinha chegado ao fim. No entanto, na altitude do Inca Garcilaso de la Vega viveu-se mais uma dessas noites que alimentam a lenda do clube: um expressivo 4-0 devolveu-lhe o protagonismo continental e garantiu-lhe um lugar nos oitavos de final.

Agora o desafio é diferente. Muito mais exigente. Botafogo, orientado pelo português Franclim Carvalho, um dos clubes mais poderosos do Brasil, será o próximo obstáculo numa eliminatória que irá testar até onde pode chegar a equipa orientada por Horacio Melgarejo: a primeira mão será a 14 de agosto, no Cusco, e a segunda a 21, no Rio de Janeiro. Não só porque irá defrontar um adversário com maior qualidade individual, mas também porque a margem de erro será mínima.

O Cienciano já demonstrou que sabe competir na Taça Sul-Americana. Terminou em segundo lugar no Grupo B com oito pontos, apenas dois a menos do que o Atlético Mineiro, deixando para trás o Juventud, do Uruguai, e a Academia Puerto Cabello, da Venezuela. Essa qualificação já tinha evidenciado uma virtude que depois confirmou frente ao Lanús: esta equipa raramente desiste.

Precisamente essa capacidade de reação tem sido uma das suas principais forças. Num torneio em que a experiência costuma fazer a diferença, a equipa imperial encontrou na convicção coletiva um argumento para compensar a diferença de orçamento em relação a clubes com plantéis muito mais valiosos.

No entanto, o Botafogo representa um patamar superior. O conjunto carioca chega apoiado por um projeto desportivo consolidado e um plantel com jogadores habituados a disputar competições internacionais. Para além dos nomes, a principal força da equipa brasileira reside na sua intensidade na recuperação da bola e na velocidade com que transforma a defesa em ataque, uma característica que vai exigir máxima concentração à defesa cusquenha.

Aí surgirá um dos primeiros desafios para o Cienciano. Na eliminatória frente ao Lanús conseguiu impor o seu jogo quando tomou a iniciativa e aproveitou cada espaço deixado pelo adversário. Contra o Botafogo, provavelmente terá de passar vários períodos com menos posse de bola e apostar numa estratégia mais paciente.

A altitude do Cusco voltará a ser um fator determinante. Durante anos tem sido uma aliada dos clubes peruanos em competições internacionais, embora por si só nunca garanta resultados. A goleada sobre o Lanús foi consequência de uma pressão alta, intensidade física e eficácia ofensiva, virtudes que a equipa terá de repetir se quiser tirar vantagem antes do jogo da segunda mão no Brasil.

O grande desafio será gerir essa vantagem, caso a consiga. Historicamente, muitas equipas peruanas construíram boas exibições em casa para depois sofrerem fora do país. O Cienciano tentará quebrar esse padrão, apoiando-se numa identidade que reforçou ao longo desta campanha: competir sem complexos.

Existe também um componente emocional que distingue esta participação. Atualmente, o Cienciano carrega a responsabilidade de representar sozinho o futebol peruano em competições internacionais. Após as eliminações de Universitario, Alianza Lima, Sporting Cristal e Cusco FC, a equipa imperial ficou como a última sobrevivente do país.

Essa condição aumenta a expectativa em torno de uma campanha que já pode ser considerada um sucesso. Ter eliminado o atual campeão da prova não só elevou a confiança do plantel, como também voltou a colocar o Cienciano no mapa continental, um palco que conhece desde aquela inesquecível conquista da Copa Sul-Americana em 2003.

O desafio agora passa por provar que essa reviravolta não foi um episódio isolado. O Botafogo vai exigir concentração, disciplina tática e uma eficácia que provavelmente terá de roçar a perfeição. Não haverá espaço para distrações nem para erros defensivos.

Mas se há algo que este Cienciano ensinou é que gosta quando o cenário parece adverso. Fê-lo na fase de grupos, onde resistiu ao Atlético Mineiro. Voltou a fazê-lo frente ao Lanús, quando poucos acreditavam na reviravolta. Agora terá pela frente outro gigante brasileiro e uma nova oportunidade para escrever uma página que vá além do resultado.

Porque, independentemente de se apurar ou não para os quartos de final, esta eliminatória servirá para medir o verdadeiro crescimento do único representante peruano ainda em prova no continente. E também para responder a uma pergunta que acompanha o futebol nacional há vários anos: se ainda é possível competir de igual para igual com as potências sul-americanas.