O regresso "surrealista" da fundista Bruna Moura após um grave acidente

Bruna Moura em fevereiro de 2023.
Bruna Moura em fevereiro de 2023.MAJA HITIJ/GETTY IMAGES VIA AFP

No seu leito de hospital, depois de um acidente rodoviário que a deixou gravemente ferida e afastada dos Jogos Olímpicos de Pequim, a fundista brasileira Bruna Moura fez a si própria uma promessa "surrealista": recuperar e voltar à competição. Promessa cumprida quatro anos depois, para os Jogos em Itália.

No final de janeiro de 2022, Moura viajava como passageira numa carrinha entre a Áustria e a Alemanha, onde deveria apanhar um avião para a China. Nunca chegou ao aeroporto.

O veículo despistou-se, provocando a morte do condutor. Ela foi transportada de helicóptero para um hospital, com fraturas em três costelas, num braço e no pé esquerdo, além de lesões pulmonares.

"Desde os primeiros dias após o acidente, dizia a mim própria que ia qualificar-me para 2026. Não era arrogância, era um sonho e ia lutar por ele", conta a esquiadora de 31 anos numa entrevista à AFP.

Com os seus familiares, "não podíamos garantir o que iria acontecer em quatro anos, mas podíamos garantir o quanto íamos lutar", confidencia durante uma chamada de vídeo a partir de Nunspeet, nos Países Baixos, onde reside.

Moura vai disputar três provas de esqui de fundo nestes Jogos: o sprint, o sprint por equipas e os 10 km, que terão lugar em fevereiro em Tesero, no Trentino-Alto Ádige.

"Continua a ser incrível", sorri Bruna Moura. "Sinto uma sensação de vitória, que não tive quando me qualifiquei para Pequim. É totalmente diferente", afirma. "É surrealista."

Durante a longa reabilitação, tarefas tão simples como tomar banho eram um desafio. Regressou à competição em 2023, participou nos Mundiais em Planica (Eslovénia), adaptando os seus treinos às sequelas do acidente e, desde então, "a dor passou a fazer parte da rotina", segundo as suas palavras.

O destino não dá tréguas

O destino, contudo, parecia não dar tréguas. Em 2024, foi-lhe diagnosticada toxoplasmose, perdeu 25 % da visão no olho direito e teve de parar novamente.

Com a sua treinadora, a esquiadora letã Baiba Bendika, concentrou-se no seu ponto forte, o sprint, devido às dificuldades físicas nas distâncias mais longas. Ainda sente desconforto no pé esquerdo quando está a esquiar.

"A minha treinadora teve em conta todos os fatores", explica. "Houve momentos em que queria fazer um pouco mais e ela travou-me".

"Sempre tive melhores resultados nas provas mais curtas, sempre fui mais explosiva, mas depois do acidente, ainda tive uma evolução muito maior (...), tive de me readaptar", refere Moura.

Enquanto cada obstáculo reavivava o trauma do acidente, a sua psicóloga recordava-lhe sempre "a promessa que tinha feito àquela jovem no leito do hospital", conta Moura.

No final de 2025, regressou, com uma determinação que, finalmente, a leva aos Jogos Olímpicos. "Durante mais de metade da minha vida, lutei para ser atleta olímpica, mas não quero apenas chegar e dizer: 'sou atleta olímpica, cruzei a meta'", afirma.

"Quero chegar dando o melhor pelo meu país, pelas pessoas que me ajudaram, por este sonho", conclui Bruna Moura, que integra a delegação de 14 atletas brasileiros para os Jogos de Milão Cortina.