Não havia telemóveis. Não existiam os resumos rápidos de hoje. Havia o 90.º Minuto, a Domenica Sportiva e aqueles poucos minutos que bastavam para nos apaixonarmos por um futebolista.
À segunda-feira à tarde apanhava-se o autocarro, ia-se para o campo e, no balneário, a primeira coisa que se fazia era deixar a camisola fora dos calções. Ninguém nos dizia para o fazer. Era assim e pronto. Tal como ele. Porque assim, em campo, sentíamo-nos todos Franco Baresi. Um pequeno detalhe que dizia tudo.

Baresi foi um dos maiores futebolistas que este desporto já viu. E não apenas entre os defesas. Era um líder, um exemplo, um ícone. Um jogador sem mácula. Não me recordo de um cartão vermelho, embora provavelmente tenha recebido alguns. Na minha memória ficou como símbolo de um futebol limpo, verdadeiro, transparente. Um futebol em que se comandava uma defesa com inteligência antes ainda da força.
Elegância e dureza
Franco Baresi era uma referência. Não só para os seus companheiros, mas também para todos os que sonhavam ser futebolistas. Para quem passava as tardes nos oratórios, nos campos de bairro e nas camadas jovens. Para uma geração, foi um modelo. Ensinou que um defesa podia ser elegante sem abdicar da dureza, autoritário sem precisar de gritar, decisivo sem procurar os holofotes.

O legado de Franco Baresi não se mede apenas pelos troféus. Mede-se por todos os defesas que vieram depois dele. A começar por Paolo Maldini, que cresceu ao seu lado e se tornou um dos maiores de sempre. É isto que distingue um campeão de um símbolo.
O seu desaparecimento acontece numa altura em que o futebol é muito diferente daquele que conhecíamos. Não porque a mudança seja negativa: o futebol sempre soube evoluir. Mas porque se tornou cada vez mais difícil reconhecermo-nos em figuras como a dele.
Ponto de referência
Era um futebol em que o capitão era um ponto de referência antes de ser um campeão. Um futebol em que o exemplo valia mais do que a imagem e o respeito conquistava-se dentro de campo, não fora dele.
Com ele parte um dos últimos símbolos dessa época. E talvez seja isso que hoje nos faz sentir todos um pouco mais pobres. Porque não estamos a despedir-nos apenas de um dos maiores defesas da história. Estamos a despedir-nos de uma parte de nós.
De quando bastava deixar uma camisola fora dos calções para, pelo menos por uma tarde, sentirmo-nos Franco Baresi.
