“Acho que era o momento ideal, porque posso reformar-me. Portanto, isso será bom para mim, porque também tenho tido uma vida de muito desgaste, de andar com quase todas as seleções. Isso ocupa muito tempo, implica uma grande responsabilidade e desgaste também. Tenho alguma idade e também quero viver um bocado com a família”, resume à agência Lusa.
Aos 66 anos, e após três décadas a trabalhar para a Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC), Poeira sentiu que era altura de parar. “Nós temos de pensar que nada é eterno e há um momento para sair. E decisões destas nunca são fáceis”, admite.
Deixar o cargo que assumiu em 2001, confessa, “deixa alguma mágoa”, porque mais do que um “trabalho aliciante”, ser selecionador foi uma paixão.
“É um momento que não é fácil para ninguém. Isto não foi uma passagem de um ano ou dois por um cargo destes, foi uma vida, foram muitos anos. E em tantos anos, muita coisa boa aconteceu”, destacou, quase repetindo o mantra que acabou por batizar a sua biografia ('Alguma Coisa Boa Há-de Acontecer-me')".
Para trás, o odemirense deixa os maiores feitos alcançados por seleções nacionais em Mundiais, Jogos Olímpicos e Europeus, num palmarés que ocupa sete páginas no ‘Word’ – que só compilam lugares de portugueses entre os 10 primeiros.
Talvez por isso, não consiga responder à pergunta sobre qual foi o melhor momento que viveu como selecionador.
“Os momentos foram muitos, porque nem só quando se faz um primeiro lugar é um grande momento. Há outros momentos que foram marcantes, em muitas situações, em Jogos Olímpicos, campeonatos do mundo, campeonatos de Europa, descendo um bocado na categoria, a Taça das Nações”, enumerou.
A conquista inédita da Taça das Nações sub-23 em 2008 parece merecer um carinho especial por parte de Poeira, que enaltece o facto de um país pequeno como Portugal, com menos corredores do que as potências, ter conseguido fazer uma boa gestão durante o ano inteiro para garantir o triunfo na geral.
Inesquecível é também o título mundial de fundo conquistado por Rui Costa em 2013, “um grande momento” para o ciclista que anunciou há menos de um mês a sua retirada, mas também para o país.
“O lugar do Rui Costa marcou realmente a história do ciclismo português e é uma viragem grande na história”, considera.
Otimista por natureza, Poeira garante não ter vivido maus momentos na seleção.
“Há momentos em que a gente não consegue o objetivo que a gente gostava, também há algum azar, mas também, dentro da corrida, não houve assim uma coisa catastrófica que a gente dissesse que foi um momento mau”, completa.
Agora, “a vida continua” e o longevo selecionador quer apenas desejar “boa sorte ao país e à instituição” (Federação Portuguesa de Ciclismo), sem esconder a nostalgia por se despedir de um ambiente “quase familiar” e de corredores que acompanhou do início ao fim das suas carreiras.
