Râguebi: O que Escócia, Inglaterra e Irlanda levam da primeira jornada da Quilter Nations Series

Steve Borthwick sugeriu recentemente algumas escolhas radicais para a equipa
Steve Borthwick sugeriu recentemente algumas escolhas radicais para a equipaDavid Rogers / GETTY IMAGES EUROPE / Getty Images via AFP

Após a 1.ª jornada da Quilter Nations Series, analisamos o desempenho de Inglaterra, Irlanda e Escócia, e o que isso pode significar para este outono e para o futuro.

Borthwick a romper com o habitual?

Uma das críticas mais frequentes a Steve Borthwick ao longo do seu mandato tem sido a alegada falta de inovação e de ousadia. Se o primeiro jogo de Inglaterra neste outono serve de exemplo, parece que está pronto para mudar essa perceção.

Segundo o Telegraph, Borthwick apresentou-se à porta do árbitro Nika Amashukeli para a tradicional reunião pré-jogo munido de um dossier com exemplos das entradas ilegais da Austrália nos rucks. A Austrália foi penalizada logo nos minutos iniciais em Twickenham, e a Inglaterra encaminhou-se para uma vitória por 25-7.

O relato não foi desmentido pelo grupo inglês e, a ser verdade, mostra que Borthwick não hesita em agitar as águas em nome do que o treinador australiano Joe Schmidt descreveu mais tarde como "um pouco de jogo psicológico".

Se isso não bastasse para evocar o cientista louco do râguebi mundial, Rassie Erasmus, Borthwick também tem dado a entender que poderá baralhar as posições de alguns jogadores no futuro.

Erasmus há muito que afirma que o poderoso centro Andre Esterhuizen é visto como opção suplente para a posição de flanqueador, enquanto o verdadeiro flanqueador Kwagga Smith pode ser utilizado na linha de três quartos caso a divisão 7-1 não resulte.

Na semana passada, Borthwick referiu que os poderosos avançados móveis Guy Pepper, Ben Earl e Henry Pollock poderão ser utilizados entre os três quartos durante o outono ou mais tarde. Se for para experimentar já, o próximo jogo frente às Fiji é claramente o momento ideal.

Se tudo isto não passar de encenação – como aconteceu quando o antecessor de Borthwick, Eddie Jones, elogiava o futuro de Jack Nowell como flanqueador – fica claro que o atual selecionador inglês está disposto a inovar para ajudar a equipa a pôr fim a quase 25 anos de espera por um título de Mundial de râguebi.

Farrell tem trabalho pela frente?

Foi muito comentada a falta de preparação da Irlanda antes da derrota por 26-13 frente aos All Blacks em Chicago. Foi o primeiro jogo de Andy Farrell após o regresso da sua pausa com os British and Irish Lions, e também a primeira vez que a Irlanda contou com (quase) todos os titulares disponíveis desde o final do Seis Nações em março.

É natural que a equipa tenha mostrado falta de ligação no ataque e nas fases estáticas, mas o facto de a espinha dorsal da equipa vir de uma só província ajuda a atenuar esse problema.

Apesar disso, a Irlanda parece longe da máquina que chegou ao Mundial de râguebi 2023 e passou invicta pela fase de grupos – incluindo uma vitória sobre os futuros campeões África do Sul – antes de ser eliminada por uma das melhores exibições da Nova Zelândia dos últimos tempos.

Antes desse Mundial, já se dizia há algum tempo que a Irlanda dependia demasiado de Johnny Sexton e não tinha dado tempo suficiente de jogo aos seus substitutos durante o ciclo de quatro anos que antecedeu o torneio.

Desde que Sexton se retirou após a derrota nos quartos de final há dois anos, Farrell continua sem resposta para quem irá comandar a equipa na Austrália daqui a dois anos. Embora a concorrência por lugares seja positiva, Farrell e a sua equipa técnica parecem ter dado a Sam Prendergast uma oportunidade prolongada para conquistar a camisola, enquanto o abertura de sábado, Jack Crowley, teve poucas hipóteses.

Crowley, tal como os colegas, não conseguiu uma exibição convincente frente aos All Blacks, mas poderá manter a titularidade nos próximos jogos contra o Japão, Austrália e África do Sul. Será suficiente?

Uma das marcas da Irlanda de Farrell há dois anos era a preparação minuciosa e o conhecimento exato de quem seria a melhor equipa em cada sábado. Embora o próximo Mundial ainda esteja longe, Farrell quererá, pelo menos, clarificar a situação da camisola dez até ao final do Seis Nações do próximo ano.

Escócia mostra força mas Nova Zelândia é o próximo adversário

A Escócia merece elogios pela forma como arrasou os EUA em Murrayfield no sábado, mas está bem consciente de que o verdadeiro teste chega esta semana. Os All Blacks, que perderam por pouco o título do Rugby Championship para os Springboks este ano, vão querer prolongar o registo impressionante de nunca terem sido derrotados pela Escócia ao longo da história.

A Irlanda vacilou frente à Nova Zelândia no fim de semana, mas o contrário também aconteceu: passes falhados, desentendimentos nas linhas de corrida e erros pouco habituais na defesa por parte dos homens que durante tanto tempo ditaram o padrão.

Mas tal como a Irlanda vai melhorar esta semana, também os All Blacks o farão, e a Escócia está à espera disso.

"É um jogo enorme. Os bilhetes estão esgotados há algum tempo. Todos adoram ver os All Blacks em ação," afirmou o entusiasmado Gregor Townsend à BBC Scotland.

Não há dúvida de que a Escócia evoluiu sob o comando de Townsend nos últimos tempos, mas essas melhorias ainda não se traduziram em títulos. Apesar do registo impressionante frente à Inglaterra nos últimos Seis Nações, a Escócia só conseguiu terminar acima do 4.º lugar uma vez desde o Mundial de râguebi de 2019. É um registo fraco para qualquer seleção.

Com Finn Russell, Duhan van der Merwe e Blair Kinghorn, a equipa conta com jogadores de grande impacto, todos experientes nos Lions, e Townsend beneficia ainda da estabilidade, já que a Escócia é uma das seleções mais consistentes do hemisfério norte. Mas agora é preciso dar o salto e atingir o potencial.

Durante o Rugby Championship 2024, a Nova Zelândia alcançou a 50.ª vitória consecutiva em Eden Park. O canal anfitrião exibiu um gráfico com as maiores sequências de vitórias de países num só estádio, e além de liderar com a invencibilidade em Eden Park, a Nova Zelândia surge também no 4.º lugar da lista, com 19 triunfos seguidos em Murrayfield.

Em França, em 2023, a Escócia teve a tarefa quase impossível de se qualificar para os quartos de final do Mundial, ao ficar num grupo com a favorita Irlanda e a África do Sul. Os sul-africanos venceram a Escócia, os irlandeses demoliram-na. Embora a maioria das equipas tivesse dificuldades nestas circunstâncias, a Escócia tem lutado ainda mais para se livrar da fama de equipa inconsistente.

Nunca venceu o Seis Nações no formato atual, nem conseguiu derrotar os All Blacks. Sabem que pelo menos um destes registos tem de cair antes do próximo Mundial se quiserem ser vistos como candidatos sérios, e no sábado têm uma enorme oportunidade para riscar um deles da lista.