Reinaldo Miguel Silva Ventura, ou, simplesmente Rei, terminou a carreira de hoquista há dois anos para abraçar o difícil desafio de salvar a Juventude de Viana da despromoção. Conseguiu-o em 2021/22 como treinador-jogador, mas, na época passada, o histórico emblema nortenho acabou por cair com estrondo ao segundo escalão português.
Ainda assim, o campeão mundial e europeu por Portugal, com uma carreira de sucesso a nível clubístico - 13 títulos de campeão nacional, 8 Taças de Portugal, 3 Taças CERS (agora WSE Cup), etc - não baixou os braços e comprometeu-se com um projeto de reestruturação numa cidade que respira hóquei em patins.
Em São João da Madeira, Reinaldo pegou numa equipa de talentos locais com passagens nos grandes palcos (Hugo Santos, João Ramalho, Alex Mount) e acrescentou a experiência de Nuno Araújo ou Rúben Pereira para, não só garantir a promoção, mas estabilizar o clube na primeira divisão.
A envolvência dos adeptos e, principalmente, poder entrar num projeto de base construído ao seu gosto, foi o que seduziu o Rei na Cidade do Trabalho. Apesar da entrada em falso com dois desaires no campeonato, a equipa rapidamente encarreirou e só voltou a perder com o Sporting, nos oitavos de final da Taça de Portugal. Em 29 jogos até agora, foram 25 vitórias, três derrotas e um empate, transformado em triunfo nas grandes penalidades sobre o primodivisionário Valongo.
Antes do jogo deste sábado na ilha do Pico, às 21:00 (a segunda mão está agendada para dia 08 de junho, em São João da Madeira), o antigo internacional abriu o livro ao Flashscore, ao passar em revista a temporada, fazendo uma análise ao próximo adversário e abordando também o futuro, não só pessoal e do clube, mas também de uma modalidade cujo "futuro passa, inevitavelmente, pela formação".
- Parabéns pela subida de divisão e pelo trabalho que está a realizar na Sanjoanense, um clube que defrontou várias vezes como jogador e que podia ser entendido como um passo atrás tendo em conta a sua carreira. O que o fez aceitar este projeto?
Estamos a falar de dois trajetos diferentes, agora sou treinador e, depois da época passada (no Juventude de Viana), acabou por ser uma oportunidade vir para um clube que tem uma massa adepta incrível e que necessitava de uma ajuda para mudar um pouco aquilo que estavam a ser os últimos anos, trazer pouco de profissionalismo e encontrar o caminho certo. Sabemos que que vai ser duro, vai ser difícil. O próximo ano é fundamental para o clube, fundamental para mim enquanto treinador, fundamental para a maioria dos jogadores que ambicionam chegar a patamares elevados e sabem que podem ter uma grande oportunidade de o fazer. Foi com esse intuito que eu vim para a Sanjoanense e aceitei este desafio. E felizmente está a correr tudo muito bem: o primeiro objetivo da época está conseguido, que era subir a primeira divisão. Agora temos três semanas para preparar o segundo, que é ser campeão da segunda divisão. É um objetivo que temos internamente e esperamos que se concretize.

- O facto de conhecer o clube e o pavilhão pesou na decisão?
Logicamente que sim, ajuda sempre, não é? Vir para um clube com esta envolvência é algo que qualquer um gosta e pretende na sua carreira, mas o que me fez mais aceitar este desafio foi mesmo o objetivo de crescimento do clube e entrar num projeto de base, dando permissão para eu construir a equipa ao meu gosto - dentro de determinados limites a nível financeiro, como é lógico. Mas foi principalmente o projeto que me seduziu mais.
- Como foi feito o planeamento da temporada? Sendo que é muito raro num clube da 2.ª divisão ver nomes como Hugo Santos (ex-FC Porto), Nuno Araújo (ex-Oliveirense), Rúben Pereira (ex-Valongo) ou João Ramalho (ex-Valongo), com muita experiência no campeonato nacional.
Quando cheguei foi feita uma reestruturação, falada internamente com os diretores e foi projetada a minha ideia, conseguindo ter esses jogadores. No caso do Hugo (Santos) e do (João) Ramalho mantiveram-se. Os outros dois (Nuno Araújo e Rúben Pereira) vieram. O facto de terem aceitado virem para um clube da segunda divisão foi mesmo o acreditarem no projeto da mesma forma que eu acreditei. Muita gente não percebeu o porquê desses jogadores darem um passo atrás, mas se calhar agora que nós conseguimos o nosso objetivo entendem qual era o conceito do que estava a ser criado. Por isso é que nós, desde muito cedo, assumimos que o principal objetivo era subir de divisão, porque foi esse projeto que foi passado aos jogadores e por isso é que aceitaram ir para um clube desta dimensão e também estavam imbuídos neste espírito de ajudar este clube a crescer.
- Trouxe alguém consigo para a equipa e, também, houve alguém que veio pela oportunidade de trabalhar consigo?
Sim, o único jogador que eu trouxe do Juventude de Viana foi o Andrés Castaño. Todos os outros foram jogadores com quem eu nunca trabalhei em balneário, seja como treinador, seja como jogador. O João Ramalho jogou comigo quando fez a transição de junior para sénior no FC Porto, de resto não joguei com mais nenhum. Mas sim, acho que todos eles estão na situação que falei anteriormente, de acreditar no projeto. A equipa mudou muito, mudei seis jogadores da época passada para esta, portanto, foi uma mudança muito radical, mas com um objetivo único e comum.

- Estes jogadores, aliados a uma referência do hóquei como é o Reinaldo, poderia dar a ideia de que este trajeto seria quase uma via verde até à promoção, o que nem sempre é o caso. Quais foram os maiores desafios desta temporada?
Para quem está de fora, criticar e desvalorizar é mais fácil do que realmente assumir algo. Nós, desde o primeiro dia, assumimos que o nosso objetivo era a subida de divisão, mesmo apesar de termos perdido os dois primeiros jogos, o objetivo ia continuar a ser o mesmo. Agora, a medição desta equipa e do clube é muitas vezes objeto de controlo da minha parte. Porque, tirando os dois primeiros jogos, até fizemos uma época muito agradável e engraçada, com vitórias consecutivas, muitos golos marcados (201), poucos sofridos (79). Foi algo positivo, mas só nós que estamos cá dentro sabemos a dificuldade que foi criar isto. Para quem está de fora é muito fácil dizer que toda a gente pensava que ia subir a Sanjoanense, ou criticar porque o clube faz isto ou faz aquilo, ou porque o treinador é este ou aquele. É muito fácil criticar ou desvalorizar e isso foi uma coisa com que eu sempre me preocupei. Porque desvalorizar o trabalho diário da minha equipa é algo que eu não permito a ninguém, porque sei o quanto eles trabalham e se dedicam para atingir os objetivos.
- Foi muito difícil gerir essas expectativas e controlar os ânimos depois dessas duas derrotas a abrir a época?
Repara, foi difícil gerir no início quando começaram a surgir os nomes (do plantel). Foi difícil quando começamos a treinar, porque percebemos de imediato a qualidade da equipa que tínhamos e foi difícil gerir tudo o que era a envolvência deste clube, a vontade que este clube tem de estar em patamares superiores. Muitas vezes internamente tivemos que resfriar esse entusiasmo, mas prefiro isto dez mil vezes do que estar num clube onde não há adeptos, onde não há estrutura, onde há falta de material, ordenados... Prefiro 10 mil vezes um clube com esta dimensão, exigência e pouco dinheiro, mas com muita seriedade.
- Fez um trajeto muito interessante na Taça de Portugal, que acaba com uma derrota vendida cara ao Sporting. Acredita que esse é um bom presságio para o próximo ano? São credenciais de primeira divisão?
O próximo ano é o próximo ano, este ano temos que entender que fizemos bom trajeto na Taça, eliminamos o Valongo nos penáltis, afastamos o Tigres e perdemos com o Sporting por 1-3. Temos que perceber que estamos numa sequência de vitórias muito grande (24), que isso traz confiança, traz um espírito incrível. Para o ano vai ser diferente, nós temos essa noção, não vamos ganhar tantas vezes como ganhamos este ano. Vamos jogar contra equipas que são superiores a nós, portanto vai ser completamente diferente e vai ser uma luta, em que temos de nos preparar muito bem para aquilo que nos espera.
- Porque este apoio depois também acaba por ser uma faca de dois gumes...
Sem dúvida, como se viu nos dois primeiros jogos.
- Tem algum receio dessa entrada no campeonato? É fundamental?
Não. Quer dizer, como treinador tenho receio sempre, até nos jogos teoricamente mais fáceis. Temos que estar sempre espertos e prevenidos. Agora, sei que o próximo ano pode ser muito bom ou muito mau, tenho noção disso. É esperar para ver, preparar o melhor possível para o que aí vem. A primeira divisão é um patamar completamente diferente do que nós estivemos este ano. Por isso é preparar e reforçar para fazermos uma equipa mais competitiva possível para alcançar o que queremos: a estabilidade da Sanjoanense na primeira divisão. Queremos acabar com o subir e descer, é algo que vem acompanhando o clube nos últimos anos. Queremos quebrar esse ciclo e tentar e tentar fazer uma época positiva para o ano...

- Apesar desta época ainda não ter acabado, acredito que começa a planear a próxima. Têm surgido alguns nomes apontados como reforços para a próxima temporada, alguma coisa que nos possa adiantar? (Juan Manuel Carrión, Luís Filipe e Vítor Hugo são nomes veiculados na imprensa)
Sim, é lógico que a época está a ser preparada há muito tempo. O plantel está quase fechado para a próxima época, logicamente vão haver saídas e entradas, mas não posso confirmar ninguém porque todos esses jogadores têm contrato até o fim de junho ou julho e só a partir daí podem ser confirmados por nossa parte.
- São João da Madeira é uma cidade de hóquei, não só em termos do apoio dos adeptos, mas também de formação de jogadores. Como vê o futuro do clube e, já agora, da modalidade?
São duas situações completamente diferentes, mas que vão bater sempre no mesmo. Na minha opinião, o futuro da modalidade passa inevitavelmente pela formação. Esse é o objetivo que o clube tem: formar para depois aproveitar. É algo que, quando cheguei não existia essa possibilidade e continua a não existir. Isso é trabalho a médio-longo prazo e não pode ser no imediato. A não ser que a gente vá buscar os melhores jogadores em todo o lado e faço três equipas, a principal, uma sub-23 e uma equipa B e aí seria mais fácil aproveitar. Falta também um pouco - mas isso é também intrínseco no país - de cultura desportiva, não só no hóquei, mas em todas as modalidades. É necessário dar alguns passos atrás e criarmos condições a todos os miúdos para poderem crescer num ambiente saudável, com os valores corretos, que não seja só a vitória ou a derrota, porque isso é muito básico para a formação enquanto atleta e enquanto homem no desporto. Portanto, basicamente é isso, tanto a nível do hóquei (no geral), como a nível da Sanjoanense. Criar uma base de bons treinadores, que consigam passar esses valores e conseguirem acrescentar algo a nível do hóquei propriamente dito e a partir daí continuar a fazê-los crescer. Creio que se melhorarmos tudo o que é a organização, os miúdos começam a aparecer cada vez em maior número. Sem dúvidas.
- Esse trajeto de formação pode passar por aquilo que a Sanjoanense tem feito, que é colocar os jogadores da equipa principal como treinadores das camadas jovens?
Claro que sim. O grande objetivo da Sanjoanense é esse. É lógico que, a nível sénior, é ir crescendo de uma forma sustentável, apesar de todas as dificuldades financeiras que um clube desta dimensão tem, mas principalmente sabendo que existe essa dificuldade financeira, criar as bases para depois esse esforço a nível financeiro ser cada vez menor, podendo aproveitar os miúdos da formação. Agora, para o fazer é necessário aumentar a qualidade de treino, a qualidade das infraestruturas, as qualidades de tudo. Porque, de resto, temos tudo, temos ambiente, temos adeptos, temos pessoas que trabalham diariamente no clube a ganhar zero. Portanto, paixão tremenda pelo clube, paixão tremenda pela cidade. Nesse aspeto, não nos pode faltar nada, não nos falta nada... agora falta esta organização que nós procuramos.
- Isso é algo que falta a nível global, não apenas em Portugal?
Ainda temos dois mundos diferentes. Temos o mundo dos clubes grandes, onde a organização existe, é mais fácil organizar a equipa sénior, mas depois também se vê muito esquecimento a nível de formação; e existem os clubes com menos capacidade financeira que têm que apostar mais na formação, porque não têm capacidade para ir buscar jogadores a receberem ordenados altos. Portanto, isto é quase uma desigualdade de trabalho, mas existe em todos os desportos e países. Aquilo que os clubes mais pequenos têm de fazer é apostar na formação, criar cada vez mais e cada vez melhor, para depois poderem ter mais qualidade a nível do hóquei em patins.
- Acredita que, nestes clubes mais pequenos como a Sanjoanense, ou o Barcelos (onde jogou), Valongo, Turquel, entre outros, é a massa adepta forte que os mantém ligados à corrente?
Sem dúvida, não tenho a mínima dúvida, porque, como eu disse há pouco não é a parte financeira que um jogador procura quando vem para um clube destes porque a realidade não é essa. Mas, disse isso há pouco, jogar num ambiente destes, com 1.500 pessoas a bater palmas e a apoiar o clube - como aconteceu contra o Sporting, em que perdemos 1-3 e bateram palmas no final porque sabem que demos tudo o que tínhamos -, qualquer jogador procura um palco destes para se poder evidenciar e ter oportunidades melhores a nível financeiro ou até a nível de clubes. Por isso sim, é isso que nos sustenta, essa vontade de querermos algo mais. A ambição que te falei há pouco é fundamental para um jogador que vem para estes clubes, sabendo que depois a medição tem que ser ajustada aos objetivos do clube. O clube tem que estar acima de qualquer vontade pessoal.
- Até onde crê que pode chegar e quais são os seus objetivos como treinador?
Neste momento estou onde quero estar. Estou num projeto que me agradou desde o primeiro dia, como sempre fiz na minha carreira de jogador: aquilo que me move não é o dinheiro, apesar de ser algo fundamental, mas eu vivo muito a paixão, pelo hóquei, a interação entre adeptos e jogadores. É algo que me move e me dá satisfação.
- Foi isso que o levou a renovar?
Sem dúvida. A minha situação da renovação foi anunciada depois de conseguirmos o objetivo, a equipa já estava a ser tratada há dois meses para a primeira divisão, portanto era apenas uma questão de tempo até ser oficializado. Sempre disse à direção que se não conseguisse o objetivo não ficava, a partir do momento em que conseguimos o objetivo principal, fez todo o sentido. Apesar disso, ficando ou não ficando, continuamos a construir equipa para a próxima época. Este projeto foi aquilo que me moveu. Quando ganhamos é tudo maravilhoso e incrível, só espero para o ano ter uma época tranquila, é esse o nosso grande objetivo. Sabendo que vamos partir como os maiores outsiders, mas temos esse objetivo.
- Fazendo uma espécie de antevisão àquilo que será a final do campeonato com o Candelária como adversário, como antecipa esse jogo?
O Candelária é uma equipa muito boa, com plantel curto, mas que os jogadores com mais tempo têm muita qualidade, trabalham muito bem. Conheço o Pedro Afonso, acompanhei o trajeto dele no ano passado, trabalha muito bem, já o fazia como jogador e agora como treinador também o faz, obriga a um nível de exigência alto. Jogar na ilha (do Pico) é sempre muito complicado. Portanto, diria que o primeiro jogo vai ser fundamental, sabendo que o segundo jogo será em nossa casa e vamos a tempo de corrigir se a diferença não for grande. Vai ser muito competitivo, como o é em quase todos os anos. São dois jogos em que as equipas vão dar tudo, não há descidas nem subidas, são duas equipas que só têm a ganhar e nada a perder. Vão ser dois jogos bonitos de se ver, sem muita agressividade, mas bem jogados.
