Recorde as incidências da partida
Noite de consagração para o XV de França no Torneio das Seis Nações. Os detentores do título estavam na linha da frente para um segundo triunfo consecutivo, algo que não conseguiam há 19 anos. Para isso, depois da vitória da Irlanda durante a tarde, havia uma solução simples: derrotar a Inglaterra no Stade de France, evitando um cenário demasiado complicado ou, pior ainda, uma derrota fatal.
Desde cedo, via-se vontade de jogar, sobretudo por parte dos ingleses, que abusavam do jogo ao pé nas costas da defesa. Os Bleus demoravam a sair do seu meio-campo, mas quando conseguiam, Thomas Ramos oferecia um passe ao pé brilhante para Louis Bielle-Biarrey, que marcava o ensaio e completava o seu Grand Slam: pelo menos um ensaio em cada jogo do Torneio, pela segunda época consecutiva (8').
Mas dois minutos depois, um adiantado de Ramos num jogo ao pé por cima, e os ingleses deslocavam a bola para a ala de Tom Roebuck, que finalizava junto à linha. Troca de ataques, os Bleus voltavam ao meio-campo inglês e, novamente ao pé, desta vez servido por Matthieu Jalibert, Louis Bielle-Biarrey bisava (13'). No entanto, era a Inglaterra que dominava, pressionando várias vezes, e num jogo ao pé nas costas, Théo Attissogbe não conseguia finalizar no en-but, e Cadan Murley aproveitava a oportunidade (19').
Após uma jogada fantástica de Jalibert que quase resultava em mais um ensaio, Ramos somava três pontos, mas os Bleus continuavam a sofrer, eram dominados num agrupamento, concediam uma penaltouche e Ollie Chessum encontrava espaço, igualando o marcador ao fim de 27 minutos.
A vantagem era inglesa, sobretudo na frente: a mêlée francesa era destruída, originando nova penaltouche, e após um lado curto bem aproveitado, Alex Coles voltava a encontrar espaço (34'). Quando Fin Smith somava três pontos, o perigo era real. Mas o destino mudava ao soar da sirene: numa última penaltouche, Ellis Genge cometia uma falta "cínica" que valia um cartão amarelo e um ensaio de penalidade. Ao intervalo, os Bleus estavam em desvantagem, mas ainda na luta (24-27).
Que história! Que milagre!
Com vantagem numérica durante 10 minutos, os Bleus tinham de aproveitar para assumir o comando. Bastaram menos de dois minutos, numa jogada bem pensada por Antoine Dupont, uma arrancada de Charles Ollivon e uma finalização de... Louis Bielle-Biarrey, claro. Depois, o seu colega Théo Attissogbe também marcava, após uma penalidade jogada rapidamente por Antoine Dupont.
Quando se pensava que o mais difícil estava feito e os Bleus jogavam a avançar, Ollie Chessum intercetava ao centro do relvado e corria 50 metros para relançar a Inglaterra. O momento mudava novamente, e os ingleses pressionavam onde mais dói: na frente. Uma intensa sequência de pick'n'go antes de abrir para Marcus Smith, recém-entrado, que marcava o ensaio e colocava a sua equipa à frente por um ponto (56').
A partir daí, o jogo entrava numa nova fase. Os Bleus tinham cada vez menos energia, cometiam pequenas faltas e pareciam à beira de ceder. Mas bastava um erro, um jogo ao pé nas costas, para ver... Louis Bielle-Biarrey ultrapassar toda a defesa em velocidade e recolocar a França na frente, contra a corrente do jogo (65'). Um quarto ensaio para o extremo francês, sem dúvida o melhor do mundo na sua posição.
Mas os ingleses não desistiam. Depois de abusarem do jogo ao pé, voltavam ao essencial: o jogo na frente. Encostavam os Bleus, provocavam o amarelo de Demba Bamba: a França ia terminar com 14 jogadores. Felizmente, a primeira tentativa terminava no en-but, mas sem ensaio. A segunda, porém, dava frutos: os Bleus recuavam e acabavam por ceder, Tommy Freeman encontrava espaço e, a três minutos do fim, a Inglaterra liderava por um ponto.
Quando, de repente: uma última falta inglesa ao soar da sirene, uma última penalidade a mais de 40 metros. Tal como em 2024, Thomas Ramos tinha a vitória nos pés. E tal como em 2024, não vacilava. Só que desta vez, este triunfo 48-46 vinha acompanhado do título no Torneio. Um desfecho magnífico, mas é impossível não pensar que foi um pequeno milagre.
