O Grand Slam de Carreira é como ter quatro ases no póquer – para o alcançar, é preciso vencer o Open da Austrália, Roland Garros, Wimbledon e o US Open. Naturalmente, o torneio em França destaca-se pela terra batida, enquanto o de Londres é jogado em relva. Os torneios na Austrália e nos Estados Unidos são relativamente semelhantes, pois disputam-se em piso duro, mas um marca o início da época e o outro o seu encerramento, o que obriga a preparar a forma para diferentes fases da temporada.
Até agora, a história do ténis na era Open (desde 1968) registou poucos casos de jogadores a completarem o Grand Slam de Carreira. No quadro masculino, apenas Rod Laver, Andre Agassi e a “Grande Tríade” das últimas décadas – Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic – conseguiram esse feito. No feminino, houve sete casos: Margaret Court, Billie Jean King, Chris Evert, Martina Navratilova, Steffi Graf, Serena Williams e Maria Sharapova.
Curiosamente, na maioria das vezes, o Australian Open não foi o torneio que completou o Grand Slam de Carreira. Normalmente, o mais difícil de conquistar era Roland Garros, devido à sua superfície específica, onde os melhores em piso duro nem sempre conseguiam impor-se. Foi precisamente por este troféu que Federer e Djokovic tiveram de esperar mais tempo, aguardando por um momento de menor fulgor de Nadal, que parecia nunca chegar.
Este ano, porém, temos circunstâncias especiais, pois, após o torneio de Melbourne, tanto Alcaraz como Świątek podem acrescentar este feito ao seu currículo. Para já, ambos chegaram aos quartos de final.
Para Alcaraz, esta é já mais uma tentativa de completar o Grand Slam de Carreira no sul da Austrália. O tenista de Múrcia começou a vencer torneios do Grand Slam no US Open em 2022, no ano seguinte conquistou Wimbledon e, um ano depois, Roland Garros. Tem dois títulos em cada um destes torneios, mas continua à espera de triunfar em Melbourne. Curiosamente, nunca chegou às meias-finais deste torneio, tendo apenas alcançado os quartos de final por duas vezes.
Antes do início da época, afirmou claramente que vencer o Australian Open era o seu principal objetivo para este ano. É precisamente este torneio que lhe falta e é aquele que mais deseja conquistar. Se o conseguir este ano, tornar-se-á o mais jovem de sempre a completar o Grand Slam de Carreira. Para já, está a ter um percurso excelente, pois nas primeiras rondas venceu Adam Walton, Yannick Hanfmann, Corentin Moutet e Tommy Paul sem perder um único set.
O espanhol vai defrontar Alex De Minaur no próximo encontro e, caso vença, terá pela frente nas meias-finais Alexander Zverev ou Learner Tien. Na final, poderá encontrar-se com Lorenzo Musetti, Novak Djokovic, Jannik Sinner ou Ben Shelton.
Świątek, por sua vez, é sobretudo reconhecida como a rainha dos courts de terra batida. A atual número dois do ranking WTA já venceu Roland Garros por quatro vezes e costuma dominar também outros torneios nesta superfície. No entanto, rapidamente provou que não se limita a jogar bem apenas em terra batida. Apenas duas épocas após o seu primeiro triunfo em Paris, juntou o US Open à sua coleção e, no ano passado, surpreendeu ao vencer Wimbledon, torneio que até então era o seu calcanhar de Aquiles.
Świątek evita fazer declarações claras sobre os seus objetivos para os próximos torneios ou sobre a manutenção de um lugar cimeiro no ranking. Normalmente, sublinha que o mais importante para si é evoluir de torneio para torneio e focar-se nos treinos. Ainda assim, é difícil acreditar que não esteja tentada a triunfar na Austrália. Já esteve por duas vezes nas meias-finais deste torneio e, no ano passado, chegou mesmo a ter ponto de encontro, mas nunca disputou o jogo decisivo na Rod Laver Arena. Nos últimos dias, venceu Yue Yuan, Marie Bouzkova, Anna Kalinska e Maddison Inglis.
Pelo caminho, terá de ultrapassar Jelena Rybakina e, se vencer, jogará o acesso à final contra Jessica Pegula ou Amanda Anisimova. As suas potenciais adversárias na final são Aryna Sabalenka, Iva Jovic, Coco Gauff ou Elina Svitolina.
Uma vitória de Alcaraz ou Świątek seria um feito notável, pois mesmo o triunfo de apenas um deles já seria um grande acontecimento no ténis. Basta referir que o último tenista a completar o Grand Slam de Carreira foi Djokovic, há já 10 anos, quando finalmente venceu pela primeira vez em Paris. No quadro feminino, aguardamos por tal feito há ainda mais tempo, já que a última foi Sharapova em 2012 – também na capital francesa.
Muitos grandes jogadores e jogadoras, apesar de múltiplos títulos, nunca conseguiram completar o Grand Slam de Carreira. Pete Sampras conquistou 14 títulos do Grand Slam, mas nunca venceu Roland Garros; Bjorn Borg dividiu os seus 11 triunfos apenas entre Roland Garros e Wimbledon; Jimmy Connors e Ivan Lendl têm oito títulos cada, enquanto John McEnroe e Mats Wilander têm menos um, mas nenhum deles alcançou o Grand Slam de Carreira. Monica Seles, Venus Williams, Justine Henin – todas elas múltiplas vencedoras dos principais torneios, mas também sem este feito.
O mesmo se aplica a algumas das grandes figuras da atualidade. Jannik Sinner é visto como dominador em piso duro, mas falta-lhe vencer Roland Garros para completar o quarteto. No ano passado, esteve muito perto, mas acabou por perder para Alcaraz num encontro épico. Aryna Sabalenka lidera o ranking há muito tempo e já venceu por duas vezes em Melbourne e Nova Iorque, mas está longe do Grand Slam de Carreira, pois nunca triunfou em França nem em Londres.
Será que Alcaraz e Świątek vão escrever este ano uma página dourada na história do ténis?
