Moez Echargui, da Tunísia, encaixa-se nesse perfil. Há um ano, estava classificado pouco acima do 500.º lugar e arrecadou 2.160 dólares ao vencer um torneio ITF em Monastir.
Agora, Echargui está à beira de um momento decisivo na carreira – numa altura em que muitos outros batalhadores já pensam no que fazer depois de arrumarem a raquete.
Uma impressionante sequência no ATP Challenger Tour no ano passado levou-o ao 134.º lugar do ranking mundial e garantiu-lhe entrada na qualificação do Open da Austrália, na próxima semana, onde vai experimentar pela primeira vez o ambiente de um Grand Slam.
Falta ainda vencer três encontros em Melbourne para chegar ao quadro principal, mas para Echargui, só o facto de estar na qualificação já é uma recompensa por nunca ter desistido quando outros poderiam ter abandonado o sonho.
"Quando cheguei ao Melbourne Park para levantar a minha acreditação, pensei: 'Caramba, consegui chegar aqui'", contou Echargui, o jogador africano mais bem classificado do mundo, à Reuters por telefone.
"Ver todos os sinais com AO por todo o lado foi um momento emocionante. Senti-me como uma criança", acrescentou.
A diferença em relação aos palcos onde normalmente compete era notória, afirmou o jogador, que reside em Milão e é licenciado em engenharia mecânica pela Universidade do Nevada.
"Tudo é facilitado para os jogadores. A comida é gratuita, a lavandaria, o transporte. Há funcionários sempre disponíveis para ajudar. Na verdade, é fácil estar aqui", afirmou.
Mas o percurso até lá esteve longe de ser fácil.
Lesões travaram a ascensão
Echargui esteve perto de entrar no top 100 de juniores, mas uma combinação de lesões e falta de apoios financeiros levou-o a focar-se nos estudos antes de decidir apostar no profissionalismo em 2017.
Mudou-se para Milão em 2019 para treinar na MXP Academy com o treinador Paolo Moretti, mas uma grave lesão no pulso, juntamente com problemas no joelho e na coxa, colocaram a sua carreira em risco.
O ponto alto da sua carreira parecia ter chegado em 2024, quando garantiu a qualificação para os Jogos Olímpicos de Paris através de uma vaga da Federação Internacional de Ténis (ITF), depois de vencer os Jogos Africanos, o que lhe valeu uma presença na 1.ª ronda em Roland Garros, onde perdeu frente ao britânico Dan Evans.
O que parecia ser uma história de despedida acabou por ser um ponto de viragem. Tal como um bom vinho, Echargui foi melhorando com a idade e, agora, já na casa dos 30, tem a oportunidade de se afirmar no ATP Tour.
"Aos 29 anos, tomei a decisão de ir para Milão. Acho que muita gente, nessa idade, diria: 'Se calhar estou no fim da carreira'", afirmou.
"Porquê ir para outro país, deixar os meus pais e a família? Mas penso que tomei uma boa decisão. Momentos difíceis, mas também bons momentos", acrescentou.
Durante uma série de 17 vitórias consecutivas no verão passado, Echargui conquistou títulos ATP Challenger em Porto e Hersonissos, antes de mais um triunfo em St Tropez.
Estreou-se no quadro principal do ATP Tour em Metz, em novembro, onde perdeu para o norte-americano Learner Tien, que viria a sagrar-se campeão.
Independentemente de conseguir ou não a qualificação na Austrália, Echargui parece pronto para experimentar os grandes palcos do ténis este ano no ATP Tour e vai apontar ao top 100.
"Tem sido um percurso atribulado e o sonho podia ter-se desvanecido, mas, olhando para trás, sinto que atravessei a tempestade", afirmou. "Mereço estar aqui. Ninguém me deu nada", concluiu.
