Por vezes, um desportista é tão acarinhado em todo o mundo que consegue, por si só, atrair milhões de novos adeptos para a sua modalidade. Tiger Woods, no golfe; Muhammad Ali, no boxe; Michael Jordan, no basquetebol, e, no ténis, Roger Federer.
Pessoas de todo o mundo apaixonaram-se pela beleza do seu jogo no court, bem como pelo seu estilo e elegância fora dele. Levou este desporto a cidades, países e — talvez o mais importante — às salas de casas onde nunca antes tinha chegado.
A sua influência foi tal que conseguiu oferecer ao ténis um evento completamente novo, um evento que esperava transformar-se na Ryder Cup do ténis. Com ele em court, a Laver Cup tornou-se um sucesso instantâneo.
No entanto, o tempo não espera por ninguém e, quando se despediu do ténis entre lágrimas na O2 Arena, em Londres, durante a edição de 2022 do torneio, muitos foram os que partiram com ele.
Deixou um vazio no coração de milhões de adeptos, um vazio que nem a grandeza contínua dos seus rivais Rafael Nadal e Novak Djokovic conseguiu preencher.
Quatro anos depois, contudo, no mesmo evento e no mesmo palco, ficou claro que Carlos Alcaraz conseguia fazê-lo.
Um espetáculo no court
Isso não significa que seja ou venha a ser um jogador melhor do que Nadal ou Djokovic. Aliás, muitos defendem que nem Federer o foi. Mas, tal como o ícone suíço, Alcaraz tem uma forma de jogar irresistível para qualquer pessoa que o veja. E, durante o fim de semana que passei na O2 Arena a acompanhar a Laver Cup 2026 para o Flashscore, pude comprová-lo em primeira mão.
A poucos quilómetros a oeste da O2, milhares de fervorosos adeptos de ténis atravessam o mundo e fazem fila durante horas, todos os verões, para chegar ao court central de Wimbledon. Mas, por não ter história nem prestígio, a Laver Cup não possui esse poder de atração. Em vez disso, reúne um público mais ocasional e precisa de alguma magia para ganhar vida.
Na verdade, o ambiente tinha estado algo frio antes da sessão de sábado à tarde. E então apareceu Carlos.
Com o norte-americano Taylor Fritz a proporcionar uma verdadeira batalha, a emocionante vitória por 6-3, 4-6 e 13-11 do espanhol diante do norte-americano acabou por parecer um encontro das rondas finais de um Grand Slam, tal era a atmosfera. Por todo o pavilhão, as pessoas saltavam dos seus lugares, levavam as mãos à cabeça e apoiavam Alcaraz como se as suas vidas dependessem dos dois pontos que ele tentava conquistar para a Equipa Europa.
Tudo se deveu, em grande medida, aos golpes espetaculares que estava a produzir. Direitas imparáveis, balões milagrosos e amorties requintados, até nos pontos mais importantes. Mesmo aqueles que mal tinham visto ténis antes, nas bancadas, conseguiram apreciar o seu talento e a sua audácia.
Desde Federer, e talvez nunca antes dele, o ténis não tinha contado com alguém capaz de oferecer um jogo de elite transbordante de criatividade e talento.
Além disso, no seu desejo de oferecer um espetáculo, Alcaraz está disposto a ir mais longe e a utilizar algo mais do que o seu ténis.
Mais do que Federer, o espanhol adora envolver o público quando acredita que isso pode ajudá-lo: incentiva os seus apoiantes e cala aqueles que torcem contra ele.
Quando Fritz levou Alcaraz a um desempate decisivo no seu confronto, um setor norte-americano do público ganhou vida e entoou "USA, USA" depois de cada ponto ganho pelo jogador da Equipa Mundial. Em vez de o ignorar para se manter concentrado, Alcaraz respondeu levantando os braços para pedir mais barulho ao resto do pavilhão, depois de salvar de forma espetacular um match point.
É algo habitual nele: esforça-se por transformar os seus encontros num espetáculo ainda maior. Fá-lo até quando não está a jogar, apoiando os seus companheiros enquanto observa a partir do banco.
No entanto, quando estava no banco e não no court, o interesse do público era significativamente menor. No domingo, uma pessoa chegou a dizer-me que esperava que Alexander Zverev não conseguisse selar o título e encerrar o evento no segundo encontro do dia, porque só tinha ido na esperança de ver Alcaraz jogar no terceiro.
Tal como muitos eventos de ténis e do desporto em geral nos dias de hoje, a Laver Cup recorreu a música em alto volume, vídeos dramáticos e luzes estroboscópicas para criar um grande ambiente e uma sensação de ocasião especial. Mas basta dar uma raquete e o foco a Alcaraz: não é preciso mais nada.
À beira do desgaste
Parte do encanto de Alcaraz reside no facto de parecer estar a divertir-se imenso, a sorrir e a rir-se da sua própria genialidade e, por vezes, até daquilo que o seu adversário consegue fazer.
Se começar a divertir-se menos, vê-lo jogar também será menos entusiasmante. E, pelos seus comentários durante o fim de semana, existe um perigo real de que isso aconteça.

Na véspera do torneio, lamentou os encontros que terminavam de madrugada e que tinham prejudicado o US Open, incluindo a sua derrota frente a Ben Shelton.
"É demasiado. Terão de fazer alguma coisa. Não digo que seja às 03:30, mas terminar até à meia-noite já é demasiado tarde", afirmou.
"É uma pena que um encontro assim não tenha chegado a muitas pessoas porque têm de ir dormir e trabalhar de manhã".
Uns dias depois, após deslumbrar num encontro de pares durante a jornada inaugural do torneio, contou-me quanto desejava ter mais tempo no calendário para jogar nesse formato.
"A 100%. Quem me dera poder jogar mais pares durante todo o ano", declarou.
"É complicado. Devido à dimensão da competição de singulares e ao quão exigente um só encontro pode ser, tanto física como mentalmente, tento aproveitar ao máximo o dia que tenho entre encontros para descansar e sentir-me melhor. Se jogar pares, não posso utilizar esse dia para descansar e provavelmente vou submeter o meu corpo a uma situação de stress".
E depois, na conferência de imprensa após o torneio, falou da felicidade que sente por disputar eventos por equipas e lamentou que o exigente calendário o obrigue a escolher entre jogar a Laver Cup ou a Taça Davis.
"Estou a utilizar este torneio para recuperar a alegria", disse.
"Adoro jogar. Sempre que entro em court, adoro, porque faço-o com estes rapazes. Quando é um evento por equipas, tudo é completamente diferente. Não jogas por ti; também jogas pelos teus companheiros. Adoro fazer parte disto e ajuda-me a recuperar a alegria quando jogo. Ajuda-me muito a encontrar o meu melhor ténis".
É claro que não desfruta do circuito tanto quanto poderia e é inevitável recear que isso acabe por apagar o seu brilho no court.
É preciso protegê-lo
O calendário incessante ameaça muito mais do que a sua felicidade.
A Laver Cup foi apenas o segundo torneio que disputou desde abril, depois de uma lesão no pulso ter mantido o espanhol afastado dos courts desde então até ao final de agosto.
A sua enorme carga de trabalho contribuiu, sem dúvida, para isso. Além disso, na Laver Cup manifestou preocupação com as bolas mais pesadas utilizadas no circuito; é um dos muitos jogadores que acreditam que estão a provocar problemas físicos.
Não é preciso explicar até que ponto o desporto fica prejudicado se ele não puder jogar. E, neste momento, não está a ser feito o suficiente para garantir que as lesões não o impeçam de o fazer. Isso tem de mudar.
Com Alcaraz, o ténis recebeu um talento geracional. E não apenas alguém que pratica um ténis incrível, mas um jogador cujo estilo atrai as pessoas para este desporto simplesmente para o verem em ação.
Não deveriam ser introduzidas mudanças importantes apenas para lhe agradar. Mas, tendo em conta que essas mudanças — um calendário mais reduzido e o fim dos encontros de madrugada, por exemplo — são exigidas por muitos outros jogadores e adeptos, não há qualquer razão para não lhas conceder.
É impossível sublinhar suficientemente quanto melhor é o ténis, enquanto lugar e enquanto produto, quando Carlos Alcaraz está saudável e feliz.
