“Não dava mais na parte física, basicamente. Acho que na parte mental ainda estava bastante bem, disponível, com vontade. Gosto do que faço, desfrutava. Quer dizer, de certa forma, já não desfrutava exatamente pela parte física, pelas lesões todas que eu tenho tido”, ressalvou.
Quarto melhor tenista português de sempre no ranking mundial – foi destronado esta segunda-feira por Jaime Faria do último lugar do pódio -, Gastão Elias, de 35 anos, esteve “praticamente” sempre lesionado desde a pandemia.
“Basicamente, desde o covid até hoje, foi sempre em recuperação de alguma coisa, a tentar estar o mais perto do 100% possível para poder competir. E, infelizmente, não tenho conseguido fazer isso e ando estes últimos anos da carreira basicamente a correr atrás do prejuízo”, descreveu.

Em entrevista à agência Lusa, o agora ex-jogador da Lourinhã admitiu que se não existissem tantos torneios como existem atualmente em Portugal até já teria acabado a carreira “há dois ou três anos”.
“Mas, por sorte, não precisamos viajar tanto e também em termos de custos ajuda bastante. Há muitos torneios que eu consigo jogar em casa e eu acho que isso me deu umas ‘vidas’ extra”, acrescentou.
Depois de “seis ou sete lesões musculares”, Elias confessa que não tem confiança no seu corpo para jogar mais um ano no circuito profissional.
“Vejo-me longe de conseguir fazer isso. Eu disse que, a partir do momento em que não considerasse ter o nível ou talvez poder voltar ali perto dos 100 primeiros, não valeria a pena continuar a jogar”, reforçou o antigo número 57 mundial – despediu-se no 1.138 lugar.
Foi em março deste ano, num torneio em Vila Real de Santo António, que percebeu que tinha de colocar um ponto final na sua carreira.
“Estava a jogar os quartos de final, não estava nem sequer cansado. Se não me engano estava até a ganhar 4-1, o jogo hipertranquilo e, num sprint, que nem foi a 100%, senti mais uma lesão muscular e disse ‘é impossível continuar’”, revelou.
Elias ainda tentou recuperar dessa lesão, pensou em jogar os challengers portugueses e talvez o Estoril Open, para acabar em ‘casa’, no Club Internacional de Foot-Ball, mas no “primeiro ou segundo torneio de volta” lesionou-se novamente, decidindo regressar apenas uma última vez ao circuito profissional para se despedir.
“Aqui no CIF não deixa de ser uma despedida que eu, com certeza, teria idealizado, mas gostava de ter sido noutros moldes, gostava de ter sido uma despedida em que eu tomasse a decisão por vontade própria e não forçada. Mas, infelizmente, o desporto de alta competição não é quando a gente quer. As coisas não acontecem quando nós queremos e, de certa maneira, acho que fui um sortudo no que fiz”, realçou.
Após uma despedida feita mais por vontade de quem o rodeia, vai continuar ligado ao ténis “de alguma maneira”.
“Este ano, apesar de não ter jogado o circuito, tenho jogado nos Interclubes, uns jogos aqui e ali. Tenho-me tentado manter mais ou menos ativo. Tenho também ajudado agora um miúdo suíço, como treinador. Acho que tenho um bom olho, que consigo analisar muito bem tudo o que é desbloquear problemas de jogadores”, concedeu.
No entanto, a carreira como treinador pode não ser “uma coisa ‘full time’, dependendo da vida familiar – a filha Camila tem nove meses.

“Eu gosto da parte de viajar, de andar no circuito, de andar nos torneios, da competição. Mas tem que encaixar na vida pessoal. E, entretanto, vou aprendendo, vou estudando, vou fazendo uns cursos que vão aparecendo aí. A ATP também ajuda muito os jogadores, tem muitos programas que nos ajudam a entrar no mundo, seja de investimento, seja de marketing”, contou.
Depois de este ano já ter organizado um torneio ITF na Lourinhã, desempenhando um papel completamente diferente do que estava habituado, e de ter gostado da experiência, Elias perspetiva que vai “andar entretido”.
“Sinto-me bem no momento em que estou da vida. E, portanto, se durmo tranquilo à noite, quer dizer que a vida corre bem”, resumiu.
Ficou a faltar um título ATP
A Gastão Elias ficou a faltar um título ATP para se sentir “um pouco mais realizado como tenista profissional”, mas o Mágico despediu-se sem arrependimentos de uma carreira marcada por decisões “muito difíceis” e um recorde nacional.
No dia em que disse adeus no Lisboa Belém Open, o agora ex-tenista de 35 anos refletiu, numa entrevista à agência Lusa, sobre o seu percurso na modalidade, iniciado aos quatro anos, nomeadamente sobre o que ficou a faltar na sua carreira.
“Essa pergunta é difícil de responder, mas eu diria que, talvez, um título ATP, acho que teria sido talvez a coisa que me ia deixar um pouco mais realizado como tenista profissional”, respondeu.
Elias congratula-se, no entanto, pelas duas meias-finais disputadas, em Bastad e Umag, em semanas consecutivas em 2016, pela presença em vários quartos de final de torneios ATP, mas, principalmente, pela “grande carreira no circuito challenger”, que é “muito intenso fisicamente” e “muito competitivo mentalmente”.
“São muitas semanas, jogas constantemente com jogadores que estão ali, se calhar, a lutar para ter dinheiro para fazer a próxima viagem. Portanto, é mesmo selvagem, eu diria, esse circuito. E, pelo menos, sair com um recorde nacional de challengers, acho que já é considerável e acho que é um feito significativo no circuito”, destacou.
Recordista nacional de títulos em challengers – conquistou 10 em 23 finais disputadas -, o jogador que entre os adeptos do ténis luso ficou conhecido como ‘O Mágico’, pela beleza do seu jogo, elege como melhores momentos os resultados que alcançou, nomeadamente as vitórias frente aos reputados Gaël Monfils e Juan Martin del Potro, campeão do Open dos Estados Unidos em 2009.
“Ganhei ao Monfils quando ele era sete do mundo, a poucas semanas de ele ir ao Masters de final do ano. Ganhei-lhe e passadas duas semanas estava a vê-lo no Masters, a jogar com o (Roger) Federer, (Rafael) Nadal", recorda.
Além dos triunfos, o primeiro tenista português a vencer um encontro em Jogos Olímpicos, no Rio-2016, elege as pessoas que conheceu e que “ficam para a vida” como o melhor da sua carreira.
Arrependimentos não tem, “por uma coisa muito simples”: todas as decisões que tomou, juntamente com a sua equipa técnica, eram “na época” as opções “mais acertadas”.
“Obviamente, no final da carreira, olhando para trás, tu pensas ‘se eu tivesse feito diferente aqui ou ali’, mas também não é justo pensar dessa maneira. E eu sou uma pessoa que leva um bocadinho a vida assim”, justificou.
Gastão Elias tomou decisões “muito, muito difíceis” na sua carreira, como emigrar para os Estados Unidos, para treinar na prestigiada Nick Bollettieri Tennis Academy (atualmente integrada na IMG Academy), na Florida, com apenas 16 anos.
“Não tomei a decisão mais confortável. E a mesma coisa quando fui para o Brasil. Eu estava nos Estados Unidos, na IMG, na época, mas estava sem treinador próprio, e, na altura, o meu agente da IMG, o Ben, disse-me ‘há este treinador agora que está disponível, que esteve muito tempo afastado do circuito, ele é muito bom, acho que seria uma oportunidade de tentar agarrar’”, detalhou.
Então, Elias ‘mandou-se’ para o Brasil com apenas 20 anos, para treinar com Jaime Oncins.
“Era um continente diferente para mim, e o Brasil, apesar de falar português, é um país totalmente diferente. Mandei-me para casa de uma pessoa que não conhecia, nunca tinha ouvido falar”, recordou, vincando que saiu novamente da sua zona de conforto.
Embora não tenha arrependimentos, Elias tem pena que a companheira Rute não tenha vivido “a vida de tenista profissional de sucesso”.
“Vendo o tanto que ela gosta de ténis, eu acho que tinha sido um período giro da minha vida também poder partilhar isso com ela e estar no circuito com ela. E talvez ainda com a Camila… infelizmente, elas só apanharam mesmo a parte pior da minha carreira, que foi lesões atrás lesões e voltar aos torneios pequenos”, lamenta.
O jogador da Lourinhã tem pena também que na sua época “um Grand Slam não pagasse cento e tal mil euros na primeira ronda”, como acontece agora, pois teria acabado a carreira “muito melhor” financeiramente.
“Faz parte da época em que nós vivemos e que jogámos. Faz parte aceitar o país que nós também nascemos, mas sabemos que de certa forma também em termos de apoios e ajudas financeiras ainda temos muito para melhorar. E, pronto, é o que é. Cada um tem que lutar com as armas que tem e acho que foi isso que fiz”, pontuou.
Em jeito de conclusão, congratulou-se por ter “visitado praticamente o mundo” a cumprir o seu sonho. “Fiz sempre o que quis desde muito pequeno e acho que é mesmo a parte pior do ténis é o acabar”, concluiu.
