“A participação de mulheres trans no desporto competitivo e profissional é residual e nunca foi um problema. Mas, mais uma vez, isto não é sobre mulheres trans ou intersexo, que agora ficam também excluídas da participação nos Jogos Olímpicos. Isto é sobre um declarado passa bem ao fascismo teocrático e capitalista global, com Donald Trump como figura de ponta”, lê-se num comunicado enviado à Lusa.
Na missiva, o coletivo critica a imposição do teste genético de SRY — utilizado para detetar o gene responsável pelo desenvolvimento masculino — classificando-a como uma "simplificação da diversidade sexual", sublinhando que este tipo de exames, utilizados na década de 1990, tinha sido abandonado devido à sua "inexatidão".
A rede ativista argumenta que a participação de atletas transgénero no desporto de elite é "residual" — representando menos de 0,001% dos atletas olímpicos — e que a ciência não sustenta a existência de vantagens competitivas.
"O Comité Olímpico não quer saber sobre Ciência, negando vários estudos científicos, incluindo um estudo encomendado pelo próprio Comité em 2024 que concluiu que as atletas transgénero podem, na verdade, apresentar diversas desvantagens físicas", lê-se no documento.
A Transmutar detalha que, nesse estudo, as mulheres trans apresentaram um "desempenho inferior ao das mulheres cisgénero em testes que medem a força da parte inferior do corpo e função pulmonar", não tendo sido encontradas diferenças significativas nos perfis de hemoglobina, um fator determinante para a resistência atlética.
"Isto não é sobre pessoas trans, somos apenas o fantasma criado com que conservadores vão criar categorias mais curtas e retirar direitos a todas", afirma aquele coletivo.
Para os ativistas, a imposição destes testes é um sinal de submissão ao "conservadorismo global" e uma forma de controlo que afeta todas as mulheres, incluindo as cisgénero, ao sujeitá-las a "conceitos ficcionais" de feminilidade e a exames invasivos que não são aplicados aos homens.
“Mas isto faz parte da História do Comité Olímpico, que em 1936 foi veículo e propaganda para o regime nazi alemão, que durante anos manteve um país com regime de Apartheid, que é acusado vezes e vezes sem conta do seu racismo sistémico e sexismo”, defende a Transmutar, sublinhando que “os Jogos Olímpicos são apenas mais uma faceta de um regime capitalista fascista que emprega todos os meios para excluir qualquer minoria”.
O coletivo cita o caso da sul-africana Caster Semenya, campeã olímpica dos 800 metros em Londres-2012 e no Rio-2016, como exemplo de mulheres cisgénero com variações de diversidade sexual que são prejudicadas por estes critérios, acusando o COI e outras federações de considerarem as mulheres como "inferiores e incompetentes".
Em 25 de março, o COI anunciou que a participação de atletas em provas femininas vai ficar condicionada, a partir de Los Angeles-2028, à realização de um exame genético - que já vigorou entre 1968 e 1996 -, o que excluirá as mulheres transgénero e algumas atletas intersexo mesmo que tenham nascido com características genitais femininas.
O organismo justifica a decisão como uma forma de promover a "justiça, segurança e integridade", argumentando que a presença deste gene é uma "evidência altamente precisa" de desenvolvimento sexual masculino, o que conferiria vantagens em modalidades de força e resistência.
A nova política, embora sem efeitos retroativos, coloca sob pressão atletas intersexo que nasceram com características genitais femininas mas possuem o gene SRY. É o caso da argelina Imane Khelif, campeã olímpica da categoria de -66 kg no torneio de boxe de Paris-2024, que se viu envolvida numa polémica sobre o seu género biológico.
