Vela: Diplomados olímpicos querem ajudar a evitar novo gap de gerações

Velejadora portuguesa Carolina João
Velejadora portuguesa Carolina JoãoCLIVE MASON / GETTY IMAGES EUROPE / GETTY IMAGES VIA AFP

Carolina João e Diogo Costa refletem na necessidade de “puxar os mais novos” para a vela, de modo a evitar que exista novamente um ‘gap’ entre gerações, num país ainda pouco atento a outras modalidades que não o futebol.

Pouca coisa” mudou, além do treinador, na vida dos velejadores do Clube Naval de Cascais desde que foram quintos classificados na classe 470 dos Jogos Olímpicos Paris-2024, muito menos as “muitas horas de treino, sempre com a filosofia de querer melhorar”.

“Tentámos fazer alguns projetos que, na altura, não saíram como queríamos. Queríamos desenvolver umas velas diretamente para nós e o patilhão. Não foi tempo perdido, mas foi tempo que, se calhar, não nos focámos na técnica”, revelou Diogo Costa, explicando que, no primeiro caso, não se sentiram “cómodos” e, no segundo, não tiveram “dinheiro suficiente”.

A atenção mediática gerada pelo diploma olímpico em Paris2024 deu-lhes, contudo, mais notoriedade, sendo já reconhecidos na rua pelos portugueses.

“É lógico que não é como outros atletas, como o Iúri (Leitão) ou o Fernando Pimenta. (…) É importante ver que as pessoas ligam a outros desportos, que não seja o futebol, e que reconhecem os atletas fora do futebol. Se calhar, não temos a vida de um futebolista ou de um jogador da NBA, mas somos profissionais do desporto. Então, no final de contas, é importante para nós que as pessoas reconheçam isso”, admite o velejador.

Ainda assim, em Portugal, a vela está longe de ter a projeção que tem noutros países, como Espanha, onde, como recorda Carolina João, “é o desporto literalmente do Rei”, França, país com “uma tradição gigante em tudo o que são travessias oceânicas”, Itália ou Reino Unido, onde a federação da modalidade tem mais funcionários do que a própria World Sailing.

“Portugal é um país pequeno, apesar de termos muitas marinas, muitos clubes - talvez clubes a mais. Se calhar, na vela especificamente, falta um bocadinho de sensibilização para haver mais a cultura desportiva em vez de ser só competitiva”, acredita Costa.

O facto de ser “um desporto mais difícil para treinar durante a semana”, que exige “luz solar”, ao contrário das modalidades de pavilhão, também não ajuda a atrair os mais novos, como nota a duas vezes olímpica, que está a fazer a sua parte para ajudar a vela nacional.

“Eu e o Diogo, por exemplo, temos uma relação bastante próxima com os mais jovens, é uma coisa de que nós gostamos. O Diogo também é treinador. Eu, dentro do meu clube, também costumo acompanhar bastantes equipas. É algo com que nos identificamos e que também achamos que é importante ter esta proximidade entre os pequeninos e nós”, defende.

Ao seu lado, na unidade hoteleira de Palma de Maiorca onde a comitiva portuguesa esteve alojada durante o Troféu Princesa Sofia, o portuense vai mais longe, alertando para erros cometidos no passado.

“É muito fácil nós fecharmos este mundo olímpico aos 15 atletas que estão aqui. É fácil, se nós quisermos, fecharmos a bolha, e já ninguém entra, nem sai e acabou. Mas não é isso que se quer. E houve uma grande quebra entre o que se diz que era a geração de ouro, da altura de 1996, 2000, 2004, que foi até 2012. (…) Depois, houve um ‘gap’ gigante para a geração seguinte, que é a geração que está cá”, notou.

Apesar de terem ambos nascido em 1997, são “os segundos mais velhos” entre os velejadores que estiveram em Palma, apenas superado por Eduardo Marques, o veterano de 32 anos.

“Se nós não puxarmos os mais novos para virem, vai voltar a acontecer a mesma coisa. É preciso nós, os velejadores, estarmos abertos a isso, a federação estar aberta a isso. Foi um erro que se fez antes, mas que não se pode voltar a fazer agora. E acho que os velejadores têm de ser os primeiros a abrir as portas, porque também são os mais interessados”, argumentou.

Para Costa, quanto mais gente a vela portuguesa tiver, “mais alto rendimento” haverá na modalidade e mais “o IPDJ (Instituto Português do Desporto e Juventude) vai ter em consideração a federação de vela”.

“Vai ser bom para todos. A questão é, às vezes, nós percebemos isso e sermos os primeiros a atuar, mas acho que agora temos um bom conjunto de pessoas para fazer isso”, concluiu, em entrevista à agência Lusa.


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