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De filho de camponeses a ídolo nacional: Quintana, o ciclista que fez a Colômbia sonhar

Nairo Quintana despede-se do ciclismo
Nairo Quintana despede-se do ciclismoMarco BERTORELLO / AFP

Fora das estradas era tímido, mas em cima da bicicleta Nairo Quintana transformava-se num destemido escaravelho que fez a Colômbia estremecer. Filho de uma família camponesa dos Andes, travou batalhas épicas que o transformaram numa lenda.

O ciclista de 36 anos disputou a sua última corrida este sábado no Tour de Emília, onde todo o pelotão prestou homenagem a este pequeno gigante que reuniu — talvez como ninguém — os ingredientes de um herói colombiano.

A origem humilde, enraizada numa região agrícola do departamento de Boyacá (centro), a capacidade para subir picos montanhosos e os triunfos por um país muito apaixonado pelo desporto das bicicletas...

Mas, como qualquer herói, Quintana tinha um calcanhar de Aquiles: a sombra da dopagem ensombrou a reta final da sua carreira, iniciada em 2009.

Em criança, corria numa velha bicicleta adaptada pelo pai. Mais tarde, na adolescência e durante anos, foi um dos grandes animadores das maiores competições europeias, sobretudo entre 2013 e 2019.

No Tour de França tornou-se o eterno candidato à camisola amarela do líder, em duelo com o britânico Chris Froome, dominador do ciclismo nessa época.

O "sonho amarelo"

Os colombianos vibraram com as suas corridas numa causa nacional batizada de sonho amarelo, um desejo de conquistar o título que nunca se concretizou, embora Quintana tenha subido três vezes ao pódio da Grande Boucle.

O seu país teve de se contentar com os triunfos no Giro de Itália (2014) e na Volta a Espanha (2016).

Fui um "menino que cresceu entre as montanhas de Boyacá, onde a vida não era fácil, mas estava repleta de sonhos. Um menino que não tinha tudo, mas tinha algo mais forte: vontade de seguir em frente", disse Nairoman ao anunciar, em março, que a presente seria a sua última temporada.

Quintana encarnou o conceito dos "escaravelhos" colombianos, que descreve os ciclistas cafeteros, geralmente de baixa estatura e pouco peso, capazes de subir estradas íngremes com menos sofrimento do que os seus rivais europeus.

A espanhola Movistar Team foi a sua primeira e última equipa na elite. Numa época em que Froome, quatro vezes vencedor do Tour, parecia não ter concorrência, os ataques de Nairo valeram-lhe mais do que um susto.

"Estratega da vida"

Na Colômbia, a sua ousadia paralisava as atividades do dia a dia. Muitos faziam uma pausa de manhã para ver na televisão o ídolo a desafiar os melhores do mundo.

Na memória nacional perduram os seus maiores feitos, como o segundo lugar no Tour de 2013 na sua primeira participação, com apenas 23 anos, quando chegava à meta à beira do desmaio, e as tentativas de destronar Froome debaixo de chuva.

"(Sou) um corredor com uma mentalidade forte, mais forte do que o seu físico; sou estratega da vida desde muito pequeno, e isso tem-me servido na minha carreira desportiva", disse em 2018 à revista Bocas.

Quintana deixa o ciclismo com 53 vitórias profissionais, mais do que qualquer outro colombiano. O seu triunfo no Giro foi o maior feito do país até à consagração de Egan Bernal no Tour de 2019.

"É um dos ciclistas mais importantes, se não o mais importante que tivemos na Colômbia", reconheceu Bernal na altura. "Dir-lhe-ia obrigado por esse exemplo que nos deu, por nos permitir sonhar".

Os escândalos ensombraram a fase final da carreira do também conhecido como Condor dos Andes.

Desqualificado

Uma série documental da Netflix revelou uma guerra interna pela liderança da Movistar entre ele e os espanhóis Mikel Landa e Alejandro Valverde, no meio de tensões e erros estratégicos que lhes custaram vitórias em 2019.

A produção retrata-o como uma pessoa introvertida e com dificuldades de comunicação dentro da equipa.

No ano seguinte, mudou-se para a equipa francesa Arkéa-Samsic. Durante o Tour de 2020, o Ministério Público francês revistou o hotel da equipa no âmbito de uma investigação por possível dopagem envolvendo o seu círculo.

Em 2022, a organização dessa competição desqualificou-o depois de ter terminado em sexto na classificação geral devido ao uso de tramadol, um analgésico proibido, embora nessa altura não fosse considerado uma substância dopante.

Na temporada seguinte ficou sem equipa. Regressou às estradas em 2024, mas nunca conseguiu recuperar o nível que o tornou célebre.

"Foi difícil conseguir manter-me de pé", confessou à AFP após o seu regresso à Movistar.

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