Em entrevista exclusiva ao Flashscore, o guardião revela que é preciso ser “um pouco maluco” para jogar na baliza, que perde cerca de dois quilos após cada partida, das ambições dos leões tendo em vista a próxima temporada, coloca Portugal como um dos candidatos a vencer o campeonato do Mundo da modalidade e confessa que não é fácil ser o filho do treinador.
A seleção portuguesa entra em quadra esta noite, diante da Suíça, às 00:00, na primeira jornada do Grupo A do Mundial, disputado no Paraguai.

"Talvez não tenhamos sido tão consistentes como o Benfica"
- O Sporting esteve na final do campeonato na última temporada, conquistou a Taça de Portugal, o Mundial de Clubes e a Supertaça, mas faltou a "cereja no topo do bolo", que seria vencer o campeonato e, eventualmente, a Liga dos Campeões. O que é que falhou nestas duas competições?
Mesmo tendo falhado esses dois títulos, que acabam por ser os mais importantes, não deixou de ser uma grande época. É verdade que fica um sabor amargo pela forma como terminou.
Olhando para trás e comparando as duas equipas, talvez não tenhamos sido tão consistentes como o Benfica. Uma equipa que não perde qualquer jogo ao longo de toda a época e acaba por ser campeã merece esse reconhecimento. Nesse sentido, talvez tenha sido o desfecho mais justo.
Isso não retira mérito ao nosso trabalho, mas, na fase decisiva, não conseguimos fazer tão bem aquilo que tínhamos feito em vários momentos da temporada. Foi um ano diferente, com muitas mudanças, quase um ano zero. Entraram quatro ou cinco jogadores novos e isso obriga sempre a alterar algumas dinâmicas e a criar novas rotinas. Construir essas ligações entre todos requer tempo.
Curiosamente, começámos logo por conquistar dois títulos, o que nos deu uma motivação e uma confiança enormes. Para além da qualidade individual, acredito que a nossa principal força ao longo da época foi o coletivo. Essa costuma ser uma das coisas mais difíceis de construir numa equipa e nós conseguimos criá-la praticamente desde o primeiro dia.
- É correto afirmar que houve uma espécie de revolução no plantel?
Mesmo num ano zero, conquistámos três títulos. Quando chegámos à fase final, que era provavelmente a mais importante, faltou-nos alguma coisa, mas considero que também fez parte do processo natural de crescimento de uma equipa praticamente nova.
Na Liga dos Campeões existia ainda uma regra que nos impedia de utilizar todos os jogadores e isso acabou por nos afetar bastante. Penso que essa limitação já não existirá na próxima temporada. No campeonato, vínhamos de uma meia-final em que vencemos o FC Porto por 3-0 e jogámos muito bem. Depois, perder a final por 3-0 foi uma facada. Não deveria ter acontecido daquela forma e sentimos que, de certa maneira, acabámos por entregar o campeonato. Daí ter ficado esse sabor mais amargo.
- O Sporting teve poucas alterações no plantel, olhando para as principais referências. Henrique Magalhães saiu e chegou Nil Cervera, um dos destaques da seleção espanhola, e também o António Marante. O que poderão acrescentar à equipa?
Acho que o mais importante é precisamente não existir uma mudança tão profunda como aconteceu anteriormente. Saíram poucos jogadores e aqueles que chegam têm características semelhantes às dos que partiram, que também eram muito importantes para a equipa.
Os reforços vão acrescentar qualidade e eficácia. No caso do Nil, tem um excelente remate exterior e, defensivamente, é um jogador com uma presença física muito forte, pelo que poderá ajudar-nos bastante. Acima de tudo, já trazemos as dinâmicas da época passada. Os jogadores que chegam vêm acrescentar qualidade e ajudar-nos a melhorar pequenos detalhes que nos faltaram.
Não acredito que aquilo que nos faltou tenha sido propriamente qualidade individual. Teve mais a ver com o facto de termos uma equipa nova e precisarmos de aprender a jogar uns com os outros.
É diferente estarmos habituados durante vários anos aos mesmos colegas e, de repente, praticamente ninguém se conhecer dentro de campo. É necessário começar todo esse processo novamente. Agora já temos essa base muito mais consolidada e chegam apenas dois ou três jogadores para nos ajudar. Considero isso um ponto muito positivo para a nova época.

- O campeonato português é sempre difícil de prever. Existem os três candidatos habituais, mas depois há equipas muito fortes, como Barcelos ou Oliveirense. O que torna o campeonato português tão atrativo e diferente dos restantes?
O exemplo da última época é muito claro: podíamos jogar em qualquer pavilhão e acontecer praticamente qualquer resultado. Até uma equipa que estivesse mais abaixo na classificação podia surpreender e vencer um dos primeiros classificados. Para além da qualidade do campeonato, o próprio hóquei em patins proporciona muito essa imprevisibilidade, e isso é algo que atrai as pessoas.
Temos muitas equipas com enorme qualidade e isso torna o campeonato extremamente complicado. Talvez quem acompanha de fora nem sempre tenha essa perceção. Ninguém gosta de perder, naturalmente, mas em Portugal é normal existirem mais derrotas do que noutros campeonatos precisamente porque há muitas equipas capazes de vencer qualquer adversário.
Na época passada também sofremos com isso. Não conseguimos ser tão consistentes, algo que também esteve relacionado com o facto de termos uma equipa praticamente nova. Acredito que nesta temporada conseguiremos melhorar nesse aspeto e obter melhores resultados.
Mas pode acontecer qualquer coisa. Aquilo que o Benfica conseguiu na última época, terminando o campeonato sem qualquer derrota, foi extraordinário tendo em conta a competitividade da prova. Essa imprevisibilidade é também uma das melhores características do hóquei em patins.
Trabalhar com o pai Edo: "É muito mais fácil do que nos primeiros anos"
- Como é trabalhar com o seu pai?
Hoje é muito mais fácil do que nos primeiros anos. Quando começámos a trabalhar juntos noutros clubes, tivemos de passar por um período de adaptação, tanto eu a ele como ele a mim.
No início era difícil separar a relação entre treinador e jogador da relação entre pai e filho. Muitas vezes levávamos o hóquei para casa e continuávamos a falar sobre o que tinha acontecido nos treinos ou nos jogos. Isso também pode ser positivo, mas talvez o fizéssemos em demasia.
Com o passar do tempo, fomos aprendendo a separar as coisas. Olhando para a minha carreira, apesar de ainda ser curta, sinto que comecei a dar o maior salto a nível individual precisamente quando comecei a trabalhar com o meu pai.
É uma pessoa muito exigente e sempre foi particularmente exigente comigo, mas de uma forma saudável. Essa exigência acabou por me trazer muitos frutos. Neste momento, já sabemos perfeitamente como trabalhar um com o outro. Pessoalmente, adoro. Penso que ele também gosta (risos).
- Tendo em conta a sua ligação a Espanha, hesitou quando teve de optar por representar a seleção portuguesa?
Não, penso que nunca tive dúvidas. Desde o início que a escolha foi muito clara para mim. Portugal foi também o primeiro país a abordar-me relativamente à possibilidade de representar a seleção, mas, apesar de ter dupla nacionalidade, sempre me senti mais português. Fiz praticamente toda a minha vida em Portugal.
É verdade que passei quatro ou cinco anos em Espanha, mas isso aconteceu já numa fase diferente da minha vida. Sempre me senti português. Naturalmente, também tenho esse lado espanhol, mas nunca tive dúvidas quanto à escolha da seleção.
- E a família? Quando há um Portugal-Espanha, por quem torcem?
Por mim, claro (risos). A minha família sempre apoiou a minha decisão. Para eles também fez todo o sentido que escolhesse representar Portugal e, a partir desse momento, foi muito fácil estarem do meu lado e apoiarem-me.
- Chegou ao Sporting com uma enorme responsabilidade: substituir Ângelo Girão. Acabou também por suceder-lhe na seleção. Como geriu esse peso? Esse "fantasma" de substituir uma figura como Girão já desapareceu?
Visto de fora, talvez nem tivesse essa perceção, mas já me disseram várias vezes isso e, pensando bem, é realmente uma responsabilidade enorme. O Girão, para além de ter sido uma figura muito importante na seleção, é uma lenda do Sporting. Sabia desde o início que chegar ao clube precisamente no ano seguinte à sua retirada seria complicado.
Mas há uma coisa muito importante: o próprio Girão ajudou-me bastante nesse processo. Tivemos várias conversas ainda na seleção, antes de eu ir para o Sporting. Aconselhou-me, partilhou comigo a experiência que tinha no clube, explicou-me aquilo que podia esperar e até aquilo a que deveria ou não dar importância. Acima de tudo, tornou esse processo muito mais fácil para mim.
No início da última época senti algum nervosismo, o que considero perfeitamente normal. Estava a chegar ao Sporting, um grande clube, e a ocupar a posição de alguém como o Ângelo Girão. Para mim, era um passo gigantesco na carreira. Felizmente, acabou por correr bem e a ajuda que ele me deu ao longo de todo esse processo também foi muito importante.
"Há muitas equipas de enorme qualidade no campeonato português"
- Qual foi o pavilhão mais difícil em que já jogou, sobretudo pelo ambiente criado pelos adeptos?
Talvez Barcelos. Normalmente levam muita gente ao pavilhão e têm uma claque impressionante, que não para durante um segundo. Não digo difícil apenas num sentido negativo. É também daqueles ambientes que nos proporcionam as melhores sensações de um grande jogo.
Naturalmente, esse apoio ajuda os jogadores do Barcelos, mas também nos transmite algo diferente enquanto adversários. É um ambiente que não encontramos todos os dias, impressiona-nos e faz-nos perceber porque gostamos tanto deste desporto. Por isso, diria que Barcelos é provavelmente o pavilhão mais difícil.

- E quais foram os adversários mais difíceis que já enfrentou, tanto a nível de clubes como de seleções?
Na última época diria o Benfica, porque não conseguimos vencê-lo. Fez-nos a vida muito difícil, tanto em nossa casa como fora. O Barcelos também foi um adversário muito complicado e o FC Porto, em determinados momentos, igualmente. É precisamente aquilo de que falávamos: há muitas equipas de enorme qualidade no campeonato português.
Ao nível das seleções, destacaria a Argentina. É uma equipa extremamente ofensiva, com muita qualidade individual e que consegue chegar muitas vezes à nossa baliza. É sempre muito difícil enfrentá-la.
- Portugal conquistou recentemente o Europeu, mas o título mundial tem escapado nos últimos anos. O que tem faltado? E como olha para esta mudança de geração na seleção?
Como o hóquei ainda é uma modalidade relativamente pequena, praticada em poucos países, e existe um núcleo de quatro ou cinco seleções com capacidade para conquistar as grandes competições, é normal que os adeptos sejam muito exigentes e esperem que Portugal ganhe sempre o Europeu ou o Mundial. Mas estamos a falar precisamente de Europeus e Mundiais. São competições extremamente difíceis, que todos os jogadores sonham disputar desde pequenos e onde estão seleções de enorme qualidade.
Não acredito que exista propriamente um segredo para ganhar. Muitas vezes tudo acaba por ser decidido em um ou dois jogos e, nesses momentos, o resultado pode cair para qualquer lado.
Ainda hoje falava sobre isso. O formato do último Europeu permitiu-nos perder todos os jogos da fase de grupos e, depois, ganhar dois ou três encontros decisivos e sermos campeões. Podemos discutir se é ou não o melhor formato, mas, neste momento, é aquele que existe e permite que um Europeu ou um Mundial possa acabar nas mãos de qualquer uma das principais seleções.
- O hóquei em patins continua muito concentrado em países como Portugal, Espanha, Argentina e Itália, apesar do crescimento recente de França. O que falta à modalidade para crescer e, eventualmente, tornar-se olímpica?
É um tema muito complexo. Acho que falta dar um salto, mas o segredo está precisamente em descobrir onde e como podemos dá-lo. As constantes alterações às regras refletem um pouco essa procura. Parece que ninguém encontrou ainda a fórmula certa para tornar o hóquei numa modalidade mais praticada e acompanhada.
Também temos de reconhecer que não é um desporto barato. Não é como colocar um filho no futebol, em que umas chuteiras podem ser suficientes para começar. No hóquei são necessários patins, stick, joelheiras e outros equipamentos. Podemos estar a falar de um investimento de 300 euros num miúdo sem sequer sabermos se vai continuar a praticar a modalidade. Logo aí encontramos uma barreira.
Depois existem muitos outros fatores. As regras mudam frequentemente, os formatos das competições também, passando de fases de grupos para play-offs e novamente para outros modelos. Na minha opinião, essa instabilidade não ajuda a trazer pessoas para o hóquei.
Deveríamos encontrar um modelo para os campeonatos e para as competições e mantê-lo durante vários anos. Depois, naturalmente, poderiam ser feitos pequenos ajustes, mas sem mudar constantemente a modalidade. Percebo que essas alterações sejam feitas com a intenção de tornar o hóquei mais atrativo e mais visto, mas não acredito que a instabilidade seja positiva.

- E os jogadores são ouvidos antes dessas alterações?
Pelo que sei, foi criada há algum tempo uma associação de jogadores precisamente com esse objetivo. Não sei em que ponto está atualmente ou se continua ativa. Mas acredito que deveria existir um contacto muito maior com jogadores, treinadores e todas as pessoas que vivem diariamente a modalidade.
Somos nós que estamos no hóquei 24 horas por dia, sete dias por semana, e podemos ter uma perceção importante sobre aquilo que poderá trazer mais público, as regras que fazem sentido ou aquelas que funcionam menos bem.
Na última época, por exemplo, foram implementadas algumas regras que, na nossa perspetiva, talvez não fizessem tanto sentido. E somos nós que depois temos de lidar com elas dentro da pista. Por isso, considero que deveria existir uma maior proximidade entre quem toma essas decisões e os jogadores e treinadores.
"É completamente diferente assistir a um jogo pela televisão ou ao vivo"
- Quem são as suas principais referências no desporto e, particularmente, no hóquei em patins?
Essa é fácil. A minha primeira grande referência foi claramente o meu pai. Lembro-me de ser muito pequeno e ir assistir praticamente a todos os jogos dele, sobretudo em casa. Recordo-me do ambiente que existia na altura e de ficar fascinado com aquilo.
Quando somos pequenos, normalmente começamos como jogadores de campo, mas a minha transição para guarda-redes aconteceu relativamente cedo. Sabia que era aquilo que queria e o facto de o meu pai também ser guarda-redes facilitou muito. Foi sempre a minha principal referência.
Mais tarde, depois de ele terminar a carreira, tive a oportunidade de treinar com Egurrola e Sergi Fernández quando estive no Barcelona. Eram excelentes guarda-redes, com um estilo mais posicional, e consegui retirar muita coisa do trabalho com ambos.
Também gostei muito de trabalhar com o Girão. Tinha um estilo completamente diferente daquele que encontrei em Barcelona, mas acredito que um guarda-redes deve absorver o máximo possível de todos os estilos. Quanto mais formas tivermos de abordar uma bola e quanto mais referências e movimentos conhecermos, mais criativos podemos ser. Isso permite-nos encontrar diferentes soluções para chegar à bola e responder às várias situações que surgem durante um jogo.
- Costuma dizer-se que o hóquei é completamente diferente quando visto no pavilhão e pela televisão. O que poderia ser feito para vender melhor a modalidade e atrair mais público?
A transmissão televisiva é, para mim, um dos fatores mais importantes para conseguirmos trazer mais pessoas para o hóquei. Hoje, as pessoas vivem muito através dos ecrãs e das redes sociais, e temos vários exemplos de modalidades que souberam aproveitar isso.
Naturalmente, melhorar as transmissões poderá ser caro, mas acredito que acabaria por compensar. Basta olhar para o hóquei no gelo. Também é uma modalidade jogada com um disco pequeno, mas a qualidade da transmissão permite acompanhar perfeitamente o jogo. Se conseguíssemos implementar algo semelhante no hóquei em patins, acredito que mudaria completamente a forma como as pessoas vivem a modalidade. E isso acabaria também por levar mais gente aos pavilhões.
Tens toda a razão quando dizes que é completamente diferente assistir a um jogo pela televisão ou ao vivo. Muitas vezes, sobretudo nas transmissões dos próprios clubes, nem conseguimos ver bem a bola. Pessoalmente, também não gosto muito de ver hóquei pela televisão porque não transmite a mesma magia.
No pavilhão sentimos o ambiente, percebemos tudo o que está a acontecer e conseguimos acompanhar a bola. Na televisão, alguém que não conheça bem a modalidade pode passar dez segundos à procura dela. Isso torna mais difícil criar uma ligação com o hóquei.
Sei que melhorar significativamente as transmissões poderá representar um investimento elevado, mas acredito que poderia provocar um verdadeiro crescimento da modalidade.

- E é preciso ser um pouco "maluco" para ser guarda-redes de hóquei? Com a velocidade do jogo e dos remates, está constantemente no centro de tudo...
No início, talvez seja preciso ser um pouco maluco (risos). Quando somos mais novos também não temos tanta noção e depois vamos habituando-nos. Mas acho que é uma posição excelente e com uma responsabilidade enorme. Costuma dizer-se que um guarda-redes de hóquei é quase meia equipa e, na verdade, existe alguma razão para isso. Um erro nosso pode significar imediatamente um golo e podemos enfrentar 30 ou 40 remates num único jogo.
Não é uma posição para qualquer pessoa. Também é preciso habituarmo-nos à bola. São muitos anos a ter algum medo até chegarmos àquele momento em que pensamos: "Se bater, vai doer. Depois continuamos." É também uma posição que nos dá muito para a vida, sobretudo do ponto de vista mental. Passamos muito tempo sozinhos e temos muitas conversas connosco próprios.
A componente mental é provavelmente uma das que mais influencia um guarda-redes. Trabalhá-la ao longo dos anos também nos ajuda muito fora da modalidade.
- Como é feita essa preparação, tanto física como mental? Por exemplo, quantos quilos chega a perder durante um jogo com todo aquele equipamento?
Normalmente, perco cerca de dois quilos por jogo, apenas em líquidos. Depois é preciso repor tudo. É uma posição muito exigente fisicamente. Também considero que sou um guarda-redes que se movimenta talvez mais do que o habitual e, por isso, acabo por transpirar bastante. Normalmente termino um jogo com menos um quilo e meio ou dois quilos. Dá para comer tudo o que quiser (risos). Não, não é bem assim, mas ajuda.
Em relação à preparação mental, o Sporting também nos dá muito apoio, nomeadamente através de profissionais especializados. Ter essa ajuda exterior é muito importante. No meu caso, para além desse acompanhamento, também sei que posso falar com a minha namorada. Ajuda-me muito nesse sentido e transmite-me tranquilidade. É um apoio muito importante para mim.
"Diria que sou um catalão portuense em Lisboa"
- Já se habituou a Lisboa?
Sim, completamente. É uma cidade diferente e com muita gente, mas estou a gostar muito. Também vivo numa zona tranquila, um pouco afastada de toda aquela agitação do centro. Estou perto do pavilhão, o que é muito bom, e a minha namorada também está perto do trabalho e está a gostar de viver em Lisboa. Estamos bem e, no fundo, isso é o mais importante.
- Sente-se portuense, catalão ou lisboeta?
Um pouco de tudo (risos). Diria que sou um bocadinho catalão, portuense e lisboeta. Acho que acaba por ser uma mistura das três coisas.
- A Liga dos Campeões vai ter um novo formato esta temporada, com uma primeira fase de oito jogos, num modelo semelhante ao adotado no futebol. O que acha desta alteração?
Pessoalmente, gosto do formato. É claramente inspirado no futebol e, se o futebol fez essa alteração, certamente existiram razões para isso. Acho que também pode ajudar as equipas com menos capacidade económica. No formato anterior, era necessário jogar sempre em casa e fora contra os mesmos adversários, o que implicava mais deslocações. Desta forma, algumas equipas poderão viajar menos. Além disso, permite-nos defrontar mais adversários diferentes, o que considero bastante mais atrativo para os adeptos. Agora será uma questão de experimentar e perceber quais serão as sensações no final da época, mas acredito que tem tudo para resultar.
- Teremos um Sporting candidato a todas as competições?
Esperamos que sim. Esse é o nosso principal objetivo. A última época já foi excelente. Chegámos praticamente a todas as finais, com exceção da Liga dos Campeões, onde tivemos mais dificuldades. O objetivo agora é fazer ainda melhor.
Sabemos que o Sporting é um clube extremamente exigente e isso é positivo. Temos uma enorme responsabilidade e queremos fazer tudo para proporcionar as maiores alegrias possíveis aos adeptos. Queremos conquistar a Liga dos Campeões e o campeonato, naturalmente, mas também não queremos conquistar menos de três títulos.
Sabemos que é um objetivo muito difícil, mas também sabemos que é possível. Se conseguimos três títulos na última época, temos condições para voltar a fazê-lo. Estamos confiantes.

- Olhando para o futuro, a intenção passa por continuar no Sporting e construir aí o seu legado ou ambiciona, eventualmente, regressar a Espanha e jogar no Barcelona?
Não penso muito nisso neste momento. Tenho um contrato longo, de três anos, e estou muito bem no Sporting. Como disse, estou a gostar de viver em Lisboa e a minha namorada também está muito feliz aqui. Prefiro olhar para a carreira época a época. Foi assim que tenho feito até agora e sinto que me tem ajudado bastante. Se estou bem, feliz e realizado, isso acaba por ser o mais importante.
- Se tivesse de escolher um cinco ideal, como se fosse treinador e tivesse orçamento para montar a sua equipa, quem escolheria?
É uma pergunta muito difícil (risos). Se calhar acabava por montar uma equipa muito ofensiva e ninguém defendia.
Pensando nos jogadores que cresci a admirar, escolheria o meu pai para a baliza. Depois, gostava muito do Hélder (Nunes) e do Gonçalo (Alves), que foram sempre grandes referências para mim desde miúdo. O Nolito (Romero) também seria uma escolha clara. Joguei com ele pela primeira vez na última época e adorei. É um jogador extraordinário.
Depois fica uma vaga em aberto, porque podia escolher muitos outros nomes e também não quero que ninguém fique ofendido (risos).
Reinaldo Ventura na seleção: "Acredito que poderá ser um bom Mundial para Portugal"
- Portugal tem um novo selecionador e está também a atravessar uma mudança geracional. O que espera desta nova era e do trabalho de Reinaldo Ventura?
Acho que esta transição é natural e está a ser feita aos poucos, como deve ser. Não faria sentido passar de uma geração para outra de forma demasiado brusca.
Os jogadores mais experientes que continuam na seleção têm muita qualidade, história e conhecimento deste tipo de competições. Num Mundial, que muitas vezes acaba por ser decidido em dois jogos, essa experiência pode fazer muita diferença. Ao mesmo tempo, começam a entrar jogadores mais jovens e isso também é importante para preparar o futuro.
Ainda não trabalhei muito com o Reinaldo, apenas num contexto em Montreux, mas conheço o percurso dele. Foi jogador, conhece muito bem a modalidade e também os atletas. Isso é uma vantagem clara para um selecionador. Acredito que poderá ser um bom Mundial para Portugal, mas sabemos perfeitamente que há várias seleções com qualidade para conquistar o título. Esperemos que sejamos nós.

- A temporada ainda vai demorar algum tempo a começar. Como vê uma paragem tão longa?
A minha namorada acorda todos os dias, olha para mim e pensa: "Ainda estás de férias?" (risos). É uma paragem bastante longa, de facto. Por isso, o Sporting já nos enviou um plano de off-season para irmos trabalhando durante este período. Também sabemos que esta será uma época muito comprida, sobretudo por causa do Mundial, e que poderá terminar apenas em meados de julho.
Por isso, é importante saber gerir este período. Não me queixo das férias, naturalmente, mas também não podemos parar completamente. Nós, Sporting e Benfica, fomos as últimas equipas a terminar a época por termos chegado à final do play-off. Quem ficou de fora dessa fase está parado há ainda mais tempo. É uma pausa talvez demasiado longa, mas faz parte da realidade atual do hóquei.
- E como faz essa gestão física e mental durante uma paragem tão prolongada?
Para mim, o mais importante foi desligar completamente durante duas semanas depois do fim do play-off. Não fiz praticamente nada nesse período e, sobretudo a nível mental, foi fantástico. Depois comecei progressivamente a regressar ao trabalho, primeiro com ginásio e depois através do plano de off-season que o Sporting nos enviou.
É importante fazer tudo de forma gradual. Ainda não conseguimos trabalhar muito com patins e isso também custa, porque passar dois meses sem patinar é muito tempo para nós. Por isso, quem está em Portugal vai, de vez em quando, fazer um treino de hóquei para recuperar sensações. Mas temos de ter cuidado. Se começarmos demasiado fortes agora, podemos chegar a junho ou julho completamente esgotados, sobretudo mentalmente. A gestão desta fase é muito importante.
"Demonstrámos na última época que merecemos a confiança dos adeptos"
- Para terminar, que mensagem deixa aos adeptos do Sporting para esta nova época?
Acima de tudo, que confiem em nós. Acredito que já demonstrámos na última época que merecemos essa confiança. É verdade que não fomos sempre consistentes no campeonato, mas isso também é normal numa equipa praticamente nova. Mesmo assim, conquistámos três títulos, algo que já não acontecia há bastante tempo no Sporting.
Foi uma grande época, apesar daquele sabor amargo no final. Por isso, peço aos adeptos que tenham confiança e paciência e, sobretudo, que nos apoiem no pavilhão. Precisamos muito dessa força. Quando jogamos em casa, o apoio deles dá-nos uma motivação extra e, muitas vezes, pode ser precisamente aquilo que falta para conseguirmos fechar um jogo. O meu pedido é simples: que estejam connosco e nos apoiem incansavelmente.
- E que mensagem deixa aos adeptos da seleção portuguesa?
Que confiem também em nós. Sabemos que o Mundial será muito difícil, mas também sabemos que os portugueses estarão connosco, independentemente dos resultados.
O último Europeu mostrou isso perfeitamente. Perdemos todos os jogos da fase de grupos e, mesmo assim, conseguimos reagir, vencer nos momentos decisivos e tornar-nos campeões europeus. Por isso, peço que continuem a acreditar.
Vamos fazer tudo para trazer o título mundial para Portugal. Não queremos outra coisa que não seja sermos campeões do mundo e acreditamos que podemos consegui-lo.
