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Exclusivo com Alain Giresse: Zidane na seleção francesa, o Mundial e a chegada ao Gabão

Alain Giresse durante um jogo de futebol
Alain Giresse durante um jogo de futebolGAIZKA IROZ / AFP

A lenda do futebol francês Alain Giresse conversou com o Flashscore para falar sobre o novo capítulo de Zinedine Zidane na seleção, a sua chegada ao futebol gabonês e o seu querido Bordéus.

No futebol francês, há poucas vozes tão legítimas para analisar profundamente a situação atual da sua seleção nacional. Alain Giresse, 73, é uma delas, enquanto antigo jogador lendário que desempenhou um papel fundamental na conquista do primeiro grande título internacional da França, no Euro-1984.

Após a nomeação de Zinedine Zidane como novo selecionador de França, Giresse fala sobre esta nova etapa na carreira de Zidane, assim como o seu regresso ao Gabão. Não regressa como treinador, mas sim como Diretor Técnico da Federação de Futebol do país.

- Quais são os primeiros desafios de Zidane na estreia como selecionador nacional?

- Acho que o Zidane é a pessoa certa e, acima de tudo, o treinador ideal para este cargo. Goza de um enorme prestígio, tanto pela carreira como jogador como pelos feitos enquanto treinador. Além disso, é uma figura muito popular em França. Não vejo quem mais poderia ter assumido este trabalho. Tem as qualidades e o perfil necessários para ser selecionador nacional.

O primeiro desafio de Zidane será qualificar a França: primeiro através da Liga das Nações, depois para o Europeu. Naturalmente, vão exigir-lhe resultados. O Didier Deschamps conseguiu fazê-lo. Mas os franceses querem mais: querem ver um futebol atrativo. O Deschamps foi muitas vezes criticado porque o estilo de jogo da seleção francesa não era particularmente apelativo.

Para já, a tarefa de Zidane não será fácil, pois terá primeiro de conhecer e tirar o máximo partido do plantel à sua disposição. Com este grupo, terá de construir o estilo de jogo que todos esperam.

- Qual é a sua avaliação da era Didier Deschamps em França? Acredita que é possível fazer melhor?

- O Deschamps, em 14 anos, conquistou um Mundial, uma Liga das Nações, chegou a outra final do Mundial e atingiu uma meia-final na mesma competição. O seu registo fala por si. Alguns podem dizer que não ganhou assim tanto, mas a verdade é que poucas seleções nacionais venceram duas grandes competições mundiais no mesmo período.

Por isso, o Deschamps levou a seleção francesa ao mais alto nível e conseguiu mantê-la lá. Só se pode respeitar o que alcançou.

- O que quis dizer Deschamps quando falou de um ambiente muito tóxico à sua volta?

- É provável que, a certa altura, o que o Deschamps quis dizer foi que estava cansado de ver as pessoas a questionar constantemente o estilo de jogo da equipa, apesar dos bons resultados. Talvez isso tenha influenciado algumas das suas decisões, embora também ache que já tinha decidido terminar o seu percurso após este Mundial.

Foi simplesmente difícil para ele aceitar todas as críticas e comentários sobre si. É assim que interpreto o que quis dizer ao mencionar este ambiente "um pouco tóxico".

- No Mundial da América do Norte, durante os dois últimos jogos da França (contra a Espanha e a Inglaterra), o que correu mal?

- De facto, a França terminou o torneio muito mal, e tudo começou com esse jogo frente à Espanha. A exibição foi muito fraca. Os jogadores nunca estiveram verdadeiramente no jogo: faltou-lhes ritmo, agressividade e, além disso, cometeram muitos erros técnicos. Contra uma equipa espanhola que raramente falha, torna-se muito difícil.

- É difícil saber qual foi a verdadeira causa. Para perceber, teria sido preciso estar dentro do grupo, mas o que vimos foi que a seleção francesa simplesmente não esteve à altura.

Quanto ao jogo do terceiro lugar, é sempre um encontro muito especial. O Deschamps optou por dar minutos a jogadores que mal tinham jogado nos jogos anteriores, e ficou claro que não corresponderam às expectativas. Felizmente, houve alterações ao intervalo, porque depois de estar a perder por 4-0 ao intervalo, podia ter acabado mesmo muito mal.

Estatísticas da partida
Estatísticas da partidaFlashscore

- Os Bleus tiraram o melhor partido de Olise nesta posição? No Bayern, jogava sempre na ala, embora também se tenha destacado em França com muitas assistências…

- Sim, o Olise... Descobrimos que podia realmente jogar como verdadeiro número 10. Os seus primeiros jogos nessa posição foram verdadeiramente impressionantes. Infelizmente, no final, não conseguiu manter esse nível de rendimento. Acho que pode jogar nessa posição, porque já vimos do que é capaz. Sabe ditar o ritmo, fazer o último passe e tem grande qualidade a servir os colegas.

Mas também precisa de perceber que, mesmo quando faz grandes jogos, tem sempre de se questionar e trabalhar para manter esse nível.

- Fala-se que Olise pode juntar-se ao Real Madrid. Como vê a sua integração numa equipa orientada por José Mourinho?

- Sim, talvez, mas para já nada está decidido. Por isso, é difícil imaginar qual seria o seu papel no Real Madrid.

- A França tem atualmente a melhor geração de jogadores do mundo?

- Sim, há jogadores muito talentosos, sobretudo no ataque. Mas o mais importante não é apenas ter jogadores talentosos; é preciso construir uma grande equipa. Veja-se os campeões do mundo. Se tirarmos Lamine Yamal, que é realmente um talento excecional, os outros também são excelentes jogadores, mas o que faz a diferença é o coletivo.

No fim, percebe-se que o trabalho de equipa é essencial para o sucesso de uma equipa. Posso fazer um paralelo com o Paris Saint-Germain, que conquistou a Liga dos Campeões graças a um coletivo muito sólido. Esta época, tal como na anterior, o clube apostou nesta força do grupo, enquanto antes dependia muito mais do talento individual. E num desporto coletivo como o futebol, é o coletivo que acaba por prevalecer e levar a equipa à vitória.

- Quais são as suas conclusões sobre este Mundial?

- Uma das lições deste Mundial é que, mais uma vez, o campeão pertence ao grupo muito restrito das únicas oito seleções que já venceram um Mundial. E também a outra nação finalista. Nenhuma equipa conseguiu chegar às meias-finais ou à final sem já ter atingido esse patamar de elite anteriormente.

No geral, assistimos a alguns jogos interessantes. Talvez não tanto no início, mas à medida que o torneio avançou, houve partidas de nível muito elevado. Na final, em particular, vimos a intensidade e a qualidade que se espera de um jogo pelo título mundial.

- Zidane com França, Klopp com a Alemanha e Itália com Roberto Mancini. Será 2030 um Mundial dos treinadores?

- Obviamente, depois de um torneio destes, há sempre muitas mudanças, sobretudo entre treinadores. Começa um novo ciclo. A França continua na luta e agora cada seleção tem de fazer um balanço, tirar lições e preparar-se novamente para as próximas competições, na Europa e no resto do mundo.

Klopp foi nomeado selecionador da Alemanha
Klopp foi nomeado selecionador da AlemanhaBeautiful Sports International, BEAUTIFUL SPORTS Pressphoto Agency / Alamy / Profimedia

- Regressou ao futebol gabonês. O que podemos esperar deste segundo capítulo?

- Regresso como diretor técnico do futebol gabonês. A minha experiência e percurso fazem com que volte para apoiar e contribuir para o desenvolvimento do futebol no Gabão. O plano é o seguinte: o Gabão está numa fase de transição, por isso, primeiro, será preciso reconstruir a seleção nacional e formar uma equipa técnica. O treinador já foi escolhido; é um treinador francês que conheço (Sebastien Migne, antigo selecionador do Haiti).

Depois, será necessário criar todo um sistema de formação através das várias seleções jovens que possam ser criadas. E, claro, definir objetivos para 2030.

Antes disso, há a Taça das Nações Africanas (CAN) em 2027, mas como sempre, todos querem resultados imediatos. Apressar as coisas não resulta. É preciso planear a longo prazo para construir e consolidar uma equipa competitiva.

- Alguma vez pensou regressar ao Bordéus como treinador?

- Não, nunca pensei ser treinador do Bordéus nem voltar ao clube. Nunca. Mas, por outro lado, dói-me muito ver a situação do clube. Quando se vê o que está a acontecer, é catastrófico. É um clube que até pode desaparecer. Sim, a esse ponto, porque hoje há dirigentes e proprietários que, infelizmente, não souberam gerir a instituição.

Há dívidas enormes, um défice desportivo... Enfim, infelizmente, tem sido um verdadeiro desastre. Hoje, não se sabe o que vai acontecer. E em Bordéus, as pessoas sofrem muito. Todos os adeptos do clube estão muito tristes.

- Os seus sucessos e marcas continuam muito presentes em França e especialmente em Bordéus. Na sua opinião, que jogador mais se assemelha ao Alain Giresse no auge?

- Comparar um jogador com outro, sobretudo quando se trata de si próprio, é sempre muito complicado. Além disso, é muito difícil – implica analisar-se para comparar com outro futebolista. Não sei, tinha o meu próprio estilo de jogo, as minhas características. Era um médio ofensivo, com boa técnica e visão de jogo. É o que posso dizer. E sim, também marquei golos de vez em quando, especialmente no Bordéus.

Foi neste clube que disputei mais jogos – na verdade, sou o jogador de campo com mais presenças na história do futebol francês. E no Bordéus, também sou o melhor marcador de sempre do clube. Obviamente, isso deixa-me muito orgulhoso. Quanto a comparações, deixo isso para vocês em vez de o fazer eu próprio (risos).

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