Depois de ter ponderado ou tentado apresentar uma candidatura em 2015, 2019 e 2022, sem nunca ter chegado ao boletim de voto final, Ramon Vega conhece bem as falhas profundamente enraizadas na máquina política da FIFA.
Nesta conversa exclusiva com o Flashscore, a sua primeira grande entrevista desde o anúncio da candidatura, Ramon Vega apresenta uma visão que rejeita as tendências autocráticas dos últimos anos e exige transparência, responsabilização e um diálogo verdadeiramente democrático.
Embora a Associação Suíça de Futebol tenha retirado recentemente o seu apoio ao atual presidente, Gianni Infantino, ainda não anunciou publicamente o apoio a Ramon Vega.
Ainda assim, munido da determinação inabalável de um vencedor, Vega está decidido a reformar um ecossistema que há muito privilegia o lucro em detrimento do bem-estar dos jogadores. Esta é uma história que vai além do próprio desporto: é uma luta pela alma do jogo.
- Como tomou a decisão de se candidatar à presidência da FIFA, depois de já ter ponderado essa possibilidade no passado?
- Não é algo que tenha surgido recentemente. É uma ideia que começou há mais de 10 anos; nunca a abandonei e tenho tentado de quatro em quatro anos. Mas, como referi no anúncio da minha candidatura, na política do futebol há sempre alianças que mudam. Num dia temos apoio, no dia seguinte essas pessoas estão do outro lado. Estes últimos 10 anos foram um verdadeiro processo de aprendizagem para mim no que diz respeito à vertente política do desporto — compreender como as coisas funcionam nos bastidores. Percebi como o sistema é fechado. Querem impedir a entrada de qualquer pessoa que tente entrar, porque querem manter-se no poder para sempre. Para mim, é crucial abrir este ecossistema e colocá-lo ao nível dos padrões do século XXI. A FIFA não está estruturada para governar neste século. Precisa de reformas profundas.

- Acha que terá o apoio de outras federações? Em 2015, não conseguiu reunir apoio suficiente. Já falou com alguma federação disposta a apoiá-lo?
- Já falei com algumas e o apoio existe. Não posso revelar nomes neste momento, mas já manifestaram um forte interesse e apoio. Naturalmente, ainda há muito trabalho a fazer entre agora e 18 de novembro. Mas o mais importante é que o apoio existe.
- A Suíça decidiu não apoiar Gianni Infantino. É suíço. O que significa esta decisão para si?
- Quanto à Suíça, fui o capitão, vesti a camisola e joguei pela seleção. Um pouco de respeito seria bem-vindo. Mas, no futebol e na política, há sempre diferenças. Posso ser suíço, mas a FIFA é uma organização global com 211 associações-membro. Naturalmente, ficaria orgulhoso se a minha federação nacional me respeitasse e me oferecesse o seu apoio. No entanto, também tenho de me concentrar em todos os outros, porque, para conseguir uma verdadeira mudança e reforma, é preciso ter todos a bordo. É um processo democrático e é preciso que saibam que existe agora uma alternativa viável. Até a UEFA tem falado muito sobre reformas ultimamente, mas uma coisa são as palavras. Eu não trago apenas palavras; venho para agir agora. Não foi hoje que decidi avançar: trabalho nisto há 10 anos. Portanto, ou querem mudar o sistema, ou querem deixá-lo como está e limitar-se a observá-lo de fora.
"As questões fundamentais são a honestidade, a transparência e a integridade"
- Na sua perspetiva, qual foi a pior decisão tomada pela FIFA nos últimos 10 anos, sob a liderança de Gianni Infantino?
- Houve várias, mas o período recente é claramente o pior capítulo de todos. As questões fundamentais são a honestidade, a transparência e a integridade do futebol. São pilares essenciais que não podem simplesmente ser postos de lado. Mas o passado é passado; temos de olhar em frente. A realidade é que, hoje, tudo o que fazemos é falar de dinheiro, e não do próprio jogo de futebol, que precisa desesperadamente de ser reformado.
- Quais são os pilares fundamentais do seu projeto e do seu plano?
- O ponto principal é reestruturar e restabelecer o diálogo, a par de uma reforma profunda da governação da FIFA, com foco numa implementação adequada e na consulta. Nos primeiros 100 dias, temos de reunir todos os intervenientes à mesma mesa — jogadores, ligas, todos — porque tem de existir um diálogo democrático. Também precisamos de discutir o calendário internacional de jogos, para estabelecer uma base sólida para o formato do jogo.
- Qual considera ser a reforma mais necessária e urgente?
- A questão mais urgente é a forma como o órgão executivo da FIFA governa. Temos de afastar-nos de um modelo autocrático. Tem de haver responsabilização do presidente, mas também do secretário-geral. Temos de pôr fim à autocracia e substituí-la por um diálogo democrático. Isso é crucial, para que quaisquer novas iniciativas sejam discutidas e reformuladas democraticamente antes de serem introduzidas.

- Qual é a sua opinião sobre o Mundial alargado e os novos formatos dos torneios?
- O formato em si não é o verdadeiro problema; o problema é o calendário dos jogadores. Podemos criar 40.000 formatos diferentes, se quiserem; essa é a parte fácil. Mas o calendário internacional já está completamente saturado. Estamos constantemente a ditar o que os jogadores têm de fazer todos os dias. Como resultado, a qualidade dos jogadores diminui, o espetáculo perde qualidade e os jogadores têm de preocupar-se com a sua saúde física. Essa é a questão central. É absolutamente essencial haver um diálogo forte sobre este tema, encontrando um equilíbrio justo entre os interesses comerciais e a saúde dos jogadores.
"Se entrasse nisto a pensar que não tinha qualquer hipótese, não me candidataria"
- Uma última questão: falando com franqueza, quais considera serem as suas hipóteses de se tornar o próximo presidente da FIFA?
- Se entrasse nisto a pensar que não tinha qualquer hipótese, não me candidataria. Estou a avançar com um compromisso de 100%. É como ser um atleta profissional: joguei futebol, ganhei troféus. Se entrar em campo com a mentalidade de que já perdi, então nem sequer devo entrar em campo.
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