Das dificuldades históricas ao Super Bowl: A impossível reviravolta dos New England Patriots

O treinador principal dos New England Patriots, Mike Vrabel, segura o troféu após o jogo do Campeonato da AFC da NFL frente aos Denver Broncos
O treinador principal dos New England Patriots, Mike Vrabel, segura o troféu após o jogo do Campeonato da AFC da NFL frente aos Denver BroncosČTK / AP / Ashley Landis

Este fim de semana, os New England Patriots vão disputar o seu 12.º Super Bowl, mas ainda há pouco tempo pareciam estar tão longe desse objetivo quanto possível.

Era a noite do último domingo de 2025. Os New England Patriots tinham acabado de regressar a casa, vindos de Nova Iorque, depois de esmagarem o seu rival de divisão, os Jets, com uma vitória dominante por 10-42. No entanto, não houve celebração. Todos estavam colados ao telemóvel.

O título da AFC Este ainda não estava decidido. Philadelphia estava a defrontar Buffalo, e uma derrota dos Bills entregaria a coroa da divisão a New England. Enquanto os Patriots aguardavam, a antecipação transformou-se em tensão.

Já no final do quarto período, os Eagles seguravam uma vantagem de 13–6, e Buffalo lançou um último ataque: touchdown! 13-12. Com cinco segundos para jogar, os Bills alinharam-se para uma conversão de dois pontos. Josh Allen recuou e lançou um passe para a zona de golo: incompleto! Os Patriots explodiram de alegria e entusiasmo. Os minutos seguintes foram de abraços, cumprimentos e celebração. A equipa acabava de garantir o título da divisão.

O momento assinalou um marco incrível na histórica reviravolta de New England. Apenas uma época antes, tinham vencido apenas quatro jogos. No ano anterior? Outro registo de 4–13. Sem títulos de divisão. Sem sucesso nos play-offs. Uma franquia outrora sinónimo de domínio tinha caído na irrelevância.

Durante mais de 20 anos, os Patriots foram praticamente uma potência intocável que aterrorizava a liga. As outras equipas raramente conseguiam contrariar Bill Belichick & Tom Brady. Esta dupla e o resto da equipa funcionavam como uma máquina bem oleada. Seis vitórias no Super Bowl e nove presenças na final. Uma dinastia sem igual. Mas nada dura para sempre.

Após uma dececionante temporada em 2019, Brady saiu e assinou pelos Buccaneers. Começaram então as dificuldades. Os Patriots falharam os play-offs no ano seguinte, perderam na Divisional Round na época seguinte e voltaram a ficar fora da pós-temporada em 2022.

Uma campanha desastrosa em 2023 e um registo de 4-13 ditaram o fim da longa ligação de Belichick aos Patriots, com ambas as partes a separarem-se de forma amigável.

Assinalou-se assim o fim oficial da maior dinastia da NFL. Os tempos em que New England dominava os adversários já tinham ficado para trás, e era urgente uma mudança. Os Patriots precisavam de um novo impulso. O plantel estava desorganizado, a cultura interna estava fragmentada e a frustração era evidente. New England precisava desesperadamente de reconstruir a equipa para voltar a ser candidata ao título.

A organização olhou primeiro para dentro, promovendo o treinador dos linebackers, Jerod Mayo, a treinador principal. Mayo era um antigo jogador dos Patriots – passou oito anos na NFL e venceu um Super Bowl em 2008. Esperava-se que trouxesse de volta a mentalidade vencedora e a dureza física. O problema? Mayo não tinha experiência como treinador principal, e isso notou-se.

Sob a liderança do antigo jogador da franquia, os Patriots começaram a época com 1-6. A certa altura, perderam sete jogos consecutivos em casa – a pior sequência desde 1993.

As esperanças de reconstrução desapareceram rapidamente. Em vez disso, a franquia atingiu um novo fundo. O plantel dos Patriots estava ainda pior do que no ano anterior. A equipa estava a desiludir e a comunicação social não poupava críticas.

New England estava a jogar tão mal que as pessoas deixaram de ir ao Gillette Stadium – as bancadas estavam visivelmente mais vazias. A primeira tentativa de uma nova era foi um desastre. Mayo foi dispensado.

Tudo o que precisa de saber sobre o Super Bowl LX

Após duas épocas consecutivas com o pior registo da história da franquia, New England tentou novamente. A complacência não tinha lugar em Foxborough. A 12 de janeiro de 2025, anunciaram a contratação de Mike Vrabel como novo treinador principal. Não perdeu tempo. A sua mensagem era simples: uma offseason agressiva podia mudar tudo.

Já tinha uma base: o jovem quarterback Drake Maye, o cornerback de elite Christian Gonzalez e mais alguns jogadores de impacto. Mais importante ainda, os Patriots entraram no mercado de agentes livres com mais de 120 milhões de dólares de espaço salarial – quase 30 milhões a mais do que qualquer outra equipa. E estavam dispostos a investir.

Fizemos 4-13. Temos de ter resultados. Precisamos de continuar a melhorar o plantel”,  afirmou o vice-presidente executivo de operações de jogadores dos Patriots, Eliot Wolf. 

Assinaram com o defensive end Milton Williams por quatro anos, acrescentaram o defensive tackle Khyiris Tonga e trouxeram os linebackers Harold Landry e K’Lavon Chaisson. Tonga e Chaisson chegaram com contratos modestos, mas rapidamente conquistaram papéis de destaque. No ataque, os Patriots garantiram a estrela Stefon Diggs, o experiente tackle Morgan Moses e o center Garrett Bradbury, todos titulares imediatos.

A franquia contratou 19 agentes livres e investiu 364,4 milhões de dólares nesses reforços. Foi um investimento avultado, mas absolutamente necessário para voltar a lutar pelo título.

Estamos muito entusiasmados com alguns dos nomes que acrescentámos. Sabemos que ainda há muito trabalho pela frente”, disse Wolf.

Reforçaram ainda mais a profundidade do plantel através das escolhas do draft, e foi uma classe excecional. A direção selecionou 11 jogadores, todos participaram em jogos durante a época e continuam no plantel ativo. Will Campbell, left tackle vindo da LSU, teve um impacto tremendo e foi titular desde o início do ano.

A entrada do Will na nossa equipa representa uma peça fundamental, um jovem de 21 anos com uma maturidade acima da média. É um líder. É resistente. É físico, fiável e responsável. Esta foi uma escolha muito, muito fácil para nós”, afirmou Vrabel.

Mas não se tratou apenas de acrescentar talento. New England trouxe jogadores que encaixavam no sistema e mentalidade de Vrabel. A defesa tornou-se agressiva, física e dura; o ataque era destemido, sereno e preciso.

Quando Vrabel assumiu o cargo, deixou claro que confiava incondicionalmente em Drake Maye. Viu nele algo que talvez nem o próprio Maye reconhecesse. Vrabel trabalhou com ele, simplificou as jogadas, começou os jogos com passes fáceis para lhe dar confiança. E deu-lhe total liberdade.

Com Vrabel, não havia lugar para jogar com medo. Nada de gestão conservadora. Era audaz. Agressivo. Construiu a equipa em torno das qualidades de Maye. E confiou nos seus jogadores para tomarem boas decisões.

A confiança de Vrabel e o seu brilhante playbook deram frutos de imediato. Os Patriots terminaram a fase regular com o terceiro melhor ataque da NFL, apenas atrás dos Rams em pontos por jogo. Lideraram a liga em jardas de corrida.

Maye destacou-se sob pressão, protagonizando exibições de veterano e jogadas de encher o olho ao longo do ano. Foi finalista ao prémio de MVP, perdendo por pouco para o quarterback dos Rams, Matthew Stafford, numa das corridas mais renhidas da história da liga.

Naturalmente, a defesa também melhorou imenso. Era dura, física, incansável. Os Patriots foram uma das nove equipas que conseguiram limitar os adversários a menos de 20 pontos por jogo, em média.

E assim, os Patriots estavam de volta à luta, a disputar novamente o título da AFC Este. Depois de começarem a época com 1–2, somaram dez vitórias consecutivas até Buffalo lhes impor uma derrota na 15.ª jornada. Foi apenas a terceira – e última – derrota da época.

Como 2.º cabeça de série, os Patriots ultrapassaram os Chargers na Wild Card Round, eliminaram Houston na Divisional Round e depois defrontaram os Denver Broncos, primeiros classificados, na final da AFC. Em condições de autêntica tempestade de neve, resistiram a Denver e carimbaram o passaporte para o Super Bowl. Agora, vão defrontar os Seattle Seahawks num duelo que se prevê taco a taco.

Acredito que este ano vamos ser muito mais competitivos. Não gosto de criar expectativas, mas penso que fizemos muitas coisas nesta offseason que nos vão beneficiar no futuro", disse Wolf antes do arranque da época.

Foi um enorme eufemismo. Vrabel conseguiu uma reviravolta notável logo na sua primeira época. Foi eleito Treinador do Ano, com todo o mérito.

Antes da época de 2025, os Patriots nem sequer podiam sonhar com o Super Bowl. Em vez disso, tornaram-se a primeira equipa na história da liga a chegar à final depois de terem perdido 13 jogos no ano anterior. O ressurgimento de Vrabel provou que a combinação certa de sistema, jogadores e confiança pode mudar tudo. Acrescentou coragem, ousadia e crença. New England jogou um futebol americano rápido, entusiasmante, sem nada a perder – e colheu os frutos.

Agora, a equipa vai ter a oportunidade de levantar o Troféu Lombardi. Seria a cereja no topo da mais rápida e maior reviravolta da história da NFL. Do fundo do poço ao topo da montanha.

Mas os Patriots vão fazer história de qualquer forma. Se vencerem, passam a ser a franquia com mais vitórias no Super Bowl; atualmente partilham o recorde de seis com os Steelers. Se perderem, tornam-se a equipa com mais derrotas no Super Bowl. Seja como for, esta época vai ficar para a história.

Acompanhe o Super Bowl com o Flashscore