Recorde o Portugal - Croácia
A primeira parte mostrou uma seleção mais ligada, agressiva, coordenada na reação à perda e finalmente capaz de pensar o momento defensivo como equipa. A segunda voltou a expor problemas que já tinham aparecido contra a Colômbia: espaços entre linhas, má gestão emocional após perda, dificuldades nas coberturas laterais e uma equipa demasiado partida para aquilo que o seu próprio modelo pede.
A pergunta que fica é simples: foi bipolaridade portuguesa ou leitura croata? Provavelmente, foi um pouco das duas coisas. Portugal fez uma primeira parte muito competente, mas também deixou sinais que não fizeram estragos imediatos. A Croácia percebeu esses sinais, ajustou, explorou-os e transformou a segunda parte num jogo muito mais desconfortável para a seleção portuguesa.
Na primeira parte, Portugal foi uma equipa muito diferente daquela que tinha sofrido para controlar a Colômbia. A reação à perda foi forte, coordenada e feita perto da bola. A equipa passou pouco tempo em bloco baixo porque conseguiu recuperar muitas vezes no meio-campo ofensivo. Esse foi talvez o maior sinal positivo: centrais e médios pareceram, finalmente, pensar o jogo em conjunto do ponto de vista defensivo.
Portugal encaixou muitas vezes homem a homem a campo inteiro. Essa opção tornou o jogo desconfortável para a Croácia, retirou-lhe tempo para pensar e facilitou a identificação das referências no momento da reação à perda. Quando a bola era perdida, os jogadores portugueses sabiam quem tinham de atacar, que zona tinham de fechar e que duelo tinham de disputar. Ao contrário de jogos anteriores, a pressão não parecia apenas uma corrida à bola. Parecia um comportamento coletivo.

Também no final da primeira parte começou a notar-se alguma dificuldade em perceber quando Portugal deveria passar de um bloco organizado para uma pressão individual. Enquanto a equipa estava por cima, isso quase não apareceu. Mas nos poucos momentos em que a Croácia conseguiu respirar, percebeu-se que havia uma zona cinzenta.
Com bola, Portugal também teve boas ideias. A mobilidade posicional entre Vitinha e Nuno Mendes foi um dos pontos mais interessantes da primeira parte. Muitas vezes, Nuno Mendes baixava para construir a três, com Renato Veiga a assumir a zona central da primeira linha. Quando Vitinha baixava entre centrais, Nuno percebia o movimento e subia pelo half-space esquerdo, mantendo Rafael Leão mais aberto e a dar largura. Esta leitura coordenada deu fluidez à saída e permitiu a Portugal alternar alturas, corredores e referências.

A relação entre Cristiano Ronaldo e Bruno Fernandes também trouxe dificuldades à Croácia. Houve várias trocas entre os dois, sobretudo em zonas de cruzamento iminente. Cristiano saía da referência mais fixa e aparecia a atacar a área vindo de trás, enquanto Bruno surgia muitas vezes no espaço do ponta. A ideia era interessante: retirar Cristiano do contacto inicial com os centrais, fazê-lo chegar embalado e dificultar a marcação no momento da bola lateral.

O primeiro golo croata nasce precisamente de uma sucessão de problemas que já tinham dado sinais antes. Numa distração num lançamento lateral do lado direito, houve tempo para o lateral do lado contrário aparecer no ataque, mas não houve tempo para Rafael Leão ajudar Nuno Mendes na tarefa defensiva. Depois, dentro da área, a falha nas marcações e no controlo das referências permitiu a Perisic aparecer e finalizar.

A partir desse momento, Portugal perdeu racionalidade. A reação à perda tornou-se muito mais emocional do que coletiva. A equipa deixou de se preocupar em chegar rapidamente às referências e passou apenas a saltar à bola. Isso libertou espaço entre linhas e devolveu ao jogo um problema que já tinha sido visto, sobretudo em transição, nos jogos anteriores.
Antes do golo anulado à Croácia, Portugal já tinha tido uma reação semelhante. Um jogador salta, outro não acompanha, a defesa baixa, o meio fica aberto e o adversário encontra espaço para receber de frente. O grande fosso entre setores voltou a aparecer com clareza. E o facto de Cancelo estar muitas vezes envolvido no ajuste a três, papel que na primeira parte era melhor garantido por Vitinha ou Nuno Mendes, acabou por expor ainda mais a equipa no momento defensivo.

As quatro substituições feitas de uma só vez podiam ter sido um momento importante de gestão do jogo. Mas, mais do que resolver, acabaram por evidenciar os problemas que Portugal estava a sentir. A equipa perdeu ainda mais ligação entre setores e ficou claro o quanto precisa de Vitinha sempre que possível. Ele é, neste momento, o médio com maior capacidade para entender os equilíbrios que o jogo exige: quando baixar, quando fixar, quando acelerar, quando proteger e quando juntar a equipa.
Com apenas dois homens no meio, Portugal não estava a conseguir bloquear o jogo em transição. Também não conseguia acalmar o jogo com bola. Os jogadores da frente já não recuavam, os de trás já não subiam, e o campo começou a ficar demasiado grande.
A equipa partiu-se, à semelhança do que tinha acontecido contra a Colômbia. E este tipo de jogo nunca favorece os melhores jogadores desta seleção.
Portugal é uma equipa que precisa de ligação. Precisa de proximidade, de linhas curtas, de apoios, de jogadores entre setores e de capacidade para reagir em conjunto. Quando se parte, perde a sua principal força. Deixa de ser associativa, deixa de controlar o ritmo e passa a viver de lances, duelos e decisões soltas. E nesse cenário, mesmo tendo talento, fica muito mais vulnerável.
Defensivamente, houve ainda outro problema que se repete: o segundo poste. Portugal precisa de perceber se quer defender à zona ou ao homem em momentos de cruzamento iminente. A indefinição está a criar situações perigosas. Matanovic voltou a aparecer sozinho ao segundo poste, com tempo e espaço para dominar e rematar. Esse tipo de lance não pode ser tratado como azar. Já é padrão. E quando algo se repete, deixa de ser acidente.
O segundo golo anulado à Croácia também nasce de uma situação que já tinha sido observada na primeira parte: o timing de passagem de bloco organizado para pressão individual voltou a falhar. A bola ficou descoberta, o espaço nas costas foi atacado e a profundidade foi facilmente explorada. Portugal foi salvo por centímetros. E, nestes jogos, centímetros podem ser a diferença entre continuar no Mundial ou regressar a casa.

A entrada de Rúben Neves acabou por ajustar o jogo. Portugal voltou a ter mais critério, mais organização e uma posição mais vantajosa no campo. A equipa recuperou alguma capacidade para pressionar de forma coordenada, voltou a jogar com mais calma no setor ofensivo e conseguiu instalar-se novamente no meio-campo adversário. Não foi apenas uma questão de passe; foi uma questão de equilíbrio.
Com Rúben Neves, Portugal voltou a ter alguém capaz de organizar a posse, orientar a equipa e ajudar a controlar os momentos. Isso permitiu reduzir a dimensão emocional do jogo e devolveu alguma estrutura. A equipa deixou de correr tanto atrás da bola e passou a voltar a jogar mais perto dela. Num jogo que se estava a partir, essa entrada teve peso.

No fim, Portugal acabou por marcar num dos muitos cruzamentos que foi fazendo ao longo da partida. Curiosamente, depois de tantos cruzamentos sem critério, acabou por encontrar o golo por essa via. Mas isso não deve apagar a análise. O facto de uma solução resultar uma vez não significa que tenha sido sempre bem executada. Portugal insistiu demasiado no cruzamento e, durante largos períodos, fê-lo sem a ocupação, a precisão ou a variação necessárias.
Depois foi sofrer. Sofrer, esperar e confirmar que um fio de cabelo de Matanovic tinha tocado na bola. Portugal passou, mas passou com estrelinha. E os campeões também se fazem destes momentos. Nem sempre se ganha com controlo absoluto. Nem sempre se sobrevive apenas por mérito tático. Às vezes, é preciso resistir, ter fortuna e continuar em frente.
Mas a principal lição é clara: o jogo de Portugal obriga a ter um organizador. Esta seleção não pode viver demasiado tempo sem alguém que ligue os setores, pense os equilíbrios e acalme a equipa quando o jogo pede pausa. Vitinha é fundamental por isso. Rúben Neves, em determinados contextos, também. Sem esse perfil, Portugal parte-se. E quando Portugal se parte, deixa de ser a equipa que quer ser.

Há ainda uma reflexão importante sobre Rafael Leão e João Félix. Se Portugal quer jogar com jogadores deste perfil, talvez faça mais sentido defender, quando é submetido a um bloco baixo, em 5-3-2. Assumir que as coberturas aos laterais serão feitas pelos médios pode ser mais lógico do que esperar que Leão ou Félix façam constantemente um trabalho para o qual não estão naturalmente preparados. Além disso, ao obrigá-los a baixar demasiado, Portugal retira-os das zonas onde realmente podem fazer a diferença.
Leão pode decidir jogos em transição, em aceleração, no ataque ao espaço e no um contra um. Félix pode decidir entre linhas, na ligação e no último passe. Mas se ambos forem empurrados para tarefas defensivas longas, longe da bola e longe das zonas de decisão, a equipa perde duas vezes: não ganha total segurança defensiva e ainda retira os jogadores das zonas onde podem desequilibrar.
Portugal eliminou a Croácia, mas saiu deste jogo com matéria suficiente para estudar. A primeira parte mostrou um caminho: equipa junta, pressão coordenada, reação à perda forte, centrais e médios ligados e domínio territorial. A segunda parte mostrou o risco: equipa partida, coberturas mal feitas, espaços entre linhas, dúvidas na forma de defender cruzamentos e dificuldades quando falta um organizador.
Foi bipolaridade portuguesa? Sim, em parte. Mas também foi leitura croata. Dalić viu o que a primeira parte escondia e tentou puxar Portugal para as suas fragilidades. Durante vários minutos conseguiu. Portugal resistiu, ajustou, marcou e passou. Mas a lição fica: esta equipa pode ser muito forte quando joga junta. Quando se separa, fica demasiado exposta para quem quer ser campeã.

