Análise: O 4-2-3-1 de Deschamps vai manter-se durante todo o Mundial?

Didier Deschamps com Adrien Rabiot e Désiré Doué
Didier Deschamps com Adrien Rabiot e Désiré DouéREUTERS/Peter Cziborra

A entrada de um quarteto ofensivo supostamente capaz de abalar tudo esvaziou automaticamente o meio-campo, com o risco de deixar muitos espaços caso o trabalho defensivo não seja bem executado logo na saída de bola ou na perda da posse. Este aspeto será fundamental para os Bleus frente ao Senegal, que está particularmente bem apetrechado no meio-campo.

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França faz parte do lote de favoritos à conquista do título máximo e o ataque concentra a maior parte das atenções, tal é a sua aparente superioridade. No entanto, persistem dúvidas quanto ao equilíbrio global da equipa e os médios defensivos estarão especialmente expostos. Um estatuto de gigante, uma armada ofensiva apresentada como imparável, um jogo de abertura frente ao Senegal: tudo isto faz lembrar um regresso ao passado, com a diferença de que os Leões da Teranga venceram a CAN e raramente chegaram ao Mundial com tanta confiança e certezas quanto à sua capacidade de ir longe na competição. Ainda assim, parecem completamente afastados das contas, o que, é certo, rejuvenesce em 24 anos, mas também traz à memória recordações dolorosas para os adeptos franceses.

Inferioridade numérica no meio assumida

Ao que tudo indica, Aurélien Tchouaméni e Adrien Rabiot vão ser titulares frente ao Senegal. Na final da última CAN, Pape Thiaw apostou num 4-3-3 com Gana Gueye à frente da defesa, enquanto Lamine Camara e Pape Gueye jogaram mais adiantados, realizando um enorme trabalho de recuperação e compensação. Se G. Gueye regressou tarde aos treinos e a sua presença de início não está garantida, existem alternativas, já testadas nos últimos jogos particulares em março e antes do arranque da competição. Uma delas é o 3-4-3, como o utilizado frente à Gâmbia (3-1), e outra é o 4-2-3-1, que surgiu diante da Arábia Saudita (0-0), último teste antes de defrontar os Bleus.

Para Didier Deschamps, a dificuldade está em evitar que a equipa se veja sistematicamente em inferioridade numérica no meio-campo. Extremamente sólida na CAN, com apenas dois golos sofridos antes de fechar a porta a partir dos quartos de final, o Senegal conhece bem os seus pontos fortes e conseguiu aplicá-los em competição oficial.

Assim, o trabalho de recuo defensivo dos franceses será um fator essencial. Já foi dito várias vezes: há um Ousmane Dembélé no PSG e um Ousmane Dembélé na seleção francesa. Com a seleção, o seu papel depende menos do coletivo e mais do de Kylian Mbappé, que tem a missão de iniciar a pressão logo na saída de bola. Ora, Dembélé cumpre melhor essa função quando atua como avançado. E pressionar a quatro não é o mesmo que pressionar a três com três médios atrás para ajustar. Com um passe vertical, Tchouaméni e Rabiot podem ficar isolados, obrigados ou a antecipar-se, correndo assim um risco acrescido de abrir espaços, ou a chegar atrasados, o que pode originar bolas paradas e cartões amarelos.

Novos estatutos... em prejuízo do coletivo?

Nos últimos dois anos, muita coisa mudou: Dembélé tornou-se bicampeão europeu e Bola de Ouro, Désiré Doué marcou na final da Liga dos Campeões e foi eleito Golden Boy, Michael Olise tornou-se uma referência na Bundesliga e Mbappé passou a ser ponta de lança. Novos estatutos foram conquistados e o 4-3-3 transformou-se em 4-1-4-1, como frente à Costa do Marfim (1-2), ou em 4-2-3-1, como diante da Irlanda do Norte (3-1). À partida, será o 4-2-3-1 a ser privilegiado. Contra o Brasil (2-1), com Hugo Ekitiké antes da lesão, o sistema resultou, mas Dayot Upamecano foi expulso, precisamente devido aos espaços no meio-campo. Frente à Colômbia (3-1), os Bleus dominaram com uma equipa renovada e um duplo pivô N'Golo Kanté-Warren Zaïre-Emery.

No entanto, nos seus últimos 5 jogos, os Bleus sofreram sempre pelo menos um golo, incluindo frente ao Azerbaijão em novembro (1-3) e, ao longo da época, só conseguiram duas balizas invioladas em 9 partidas, contra o Azerbaijão (3-0 em outubro) e frente à Ucrânia (4-0 em novembro). Com uma competição que permite algum atraso no arranque e ainda oferece um jogo a eliminar extra, nada parece estar definido taticamente, sobretudo porque Deschamps não é propriamente Telê Santana. Mas, caso o selecionador opte por reforçar o meio-campo, será à custa de um avançado, o que levantará questões de ego nada desprezáveis dentro do balneário.

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