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Análise: Porque é que a Inglaterra continua a anos-luz de Espanha e França no que toca a conquistar troféus

Jogadores espanhóis celebram após vencerem a Final do Mundial
Jogadores espanhóis celebram após vencerem a Final do MundialBob Kupbens/Icon Sportswire / Zuma Press / Profimedia

Sem grande surpresa, a Espanha sagrou-se vencedora no Mundial-2'26, que acabou de se disputar nos EUA, Canadá e México.

La Roja estabeleceu um recorde de 38 jogos sem perder para uma seleção europeia ou sul-americana com a sua vitória sobre a Argentina naquela que foi, provavelmente, a final mais desequilibrada de que há memória, e, tal como em 2010, o triunfo na principal competição da FIFA surgiu após uma conquista no Campeonato da Europa.

16 títulos em cinco anos

É a única seleção nacional a deter, em simultâneo, os Mundiais masculino e feminino, e, de forma impressionante, nos últimos cinco anos, a Espanha conquistou uns incríveis 16 títulos mundiais e europeus, desde os sub-17 até ao escalão sénior.

Os jogadores podem mudar, mas o hábito de vencer mantém-se, e para os países que frequentemente ficam aquém, vale a pena perceber porquê.

De forma simples, tudo se resume a uma filosofia que foi apurada ao longo de vários anos.

Se compararmos porque é que a Inglaterra continua a ser a eterna perdedora em comparação com a Espanha e até com a França, basta olhar para a forma como cada federação aborda o desporto desde os escalões de formação.

Uma filosofia clara

Com oito ou nove anos, os jogadores em Espanha aprendem a jogar de uma determinada maneira.

No que toca à filosofia de clube, o Barcelona é provavelmente o expoente máximo com que os adeptos de futebol mais facilmente se identificam.

Independentemente da idade, qualquer jovem que vista a camisola do Barcelona joga exatamente da mesma forma.

Quando os mais talentosos são escolhidos para a equipa principal, a transição torna-se muito mais fácil, pois jogam no mesmo estilo desde que chegaram ao clube.

Pode haver pequenas nuances consoante a equipa técnica, mas a metodologia mantém-se igual à que Johan Cruyff implementou ao revolucionar completamente o clube no final dos anos 80 e início dos anos 90.

Nove selecionadores ingleses em 26 anos

O futebol espanhol, ao nível das seleções, funciona de forma semelhante há muitos anos, por isso compare-se com o que a Federação Inglesa fez nas últimas décadas.

Nove selecionadores nomeados desde o ano 2000 (Sven Goran Eriksson, Steve McLaren, Fabio Capello, Stuart Pearce, Roy Hodgson, Sam Allardyce, Gareth Southgate, Lee Carsley e Thomas Tuchel), todos eles com ideias táticas completamente diferentes.

No caso de Sam Allardyce, claro, só orientou um jogo e mal teve tempo para transmitir as suas ideias antes de ser dispensado das funções.

Considerado por muitos um dos treinadores mais inovadores da sua geração, apesar de por vezes ser injustamente rotulado como adepto do futebol direto, teria sido interessante ver o que Allardyce poderia ter feito com a seleção se lhe tivesse sido dada uma oportunidade justa.

St George's Park só abriu em 2012

O problema de fundo teria permanecido, no entanto, e é por isso que a Inglaterra está a anos-luz dos seus rivais europeus.

Por exemplo, só em outubro de 2012 é que St George's Park abriu como centro de operações para todas as seleções nacionais, proporcionando finalmente um verdadeiro centro de excelência para os jogadores mais jovens.

A França já tinha inaugurado o seu Centre National du Football (CNF) em Clairefontaine, em 1988, ou seja, 24 anos antes de a Inglaterra e a Federação terem percebido a importância desse passo.

Apesar de terem demorado mais 10 anos até conquistarem um Mundial, isso foi prova suficiente de que estavam no caminho certo, e o futebol francês tem vindo a crescer desde então.

Sem desvios de estilo

Tanto eles como a Espanha perceberam cedo que ter um estilo próprio, do qual não se abdica num sistema de formação eficaz, acabaria por trazer sucesso.

Além disso, com uma forma de jogar única, compreendida por todos desde muito cedo, surge a confiança para se expressarem sem receio.

Os erros são muitas vezes incentivados como parte do processo de aprendizagem, à medida que os jovens se tornam adultos e, com sorte, evoluem para talentos de classe mundial.

La Ciudad del Futbol, traduzida como a cidade do futebol, em Las Rozas, a norte de Madrid, serve de base para todas as seleções espanholas.

Aqui, tal como em Clairefontaine, encontram-se treinadores a trabalhar aquele estilo específico que os jogadores conhecem, garantindo uma transição natural à medida que os mais talentosos sobem de escalão.

Cruyff foi um visionário

Em ambos os casos, normalmente aceitam rapazes a partir dos 13 anos nesses centros de excelência, enquanto, no futebol inglês, as academias recebem jogadores desde os nove anos, mas só a partir dos 15 é que alguns são convidados para St George's Park.

Esses dois anos completos não podem ser ignorados, pois os jovens ingleses passam mais 24 meses a jogar de várias formas, que podem não coincidir com as das seleções, que por sua vez podem variar consoante quem lidera cada escalão.

Também não é raro que, antes de entrarem nesse ambiente, os jovens ingleses participem em jogos sem vencedores nem vencidos, para não magoar sensibilidades.

Em suma, não é segredo porque é que ainda existe um fosso tão grande entre os fundadores do futebol e os seus rivais continentais, e talvez uma das frases mais célebres de Cruyff resuma tudo da melhor forma: "Jogar futebol é muito simples, mas jogar futebol simples é a coisa mais difícil que existe." 

Os responsáveis pelo futebol inglês fariam bem em tomar nota.