Diário do Mundial: Nem Nova Iorque, nem Cidade do México - Toronto vive o Mundial à sua maneira

Alemanha derrotou Costa do Marfim em Toronto
Alemanha derrotou Costa do Marfim em TorontoJAN WOITAS / DPA / DPA PICTURE-ALLIANCE VIA AFP

Um Campeonato do Mundo costuma ser feito de gritos. Golos, buzinas, sirenes e multidões. Mas na sede de Toronto, o ritmo do maior evento do futebol mundial tem sido ditado pelo próprio ritmo de uma metrópole que conserva a sua peculiaridade e, principalmente, a paz.

Depois da vitória da seleção brasileira em Filadélfia, a rotina de cobertura exigiu mais uma madrugada de viagem. O trajeto passou por Newark, em Nova Jérsia, com os procedimentos de check-in presencial a preencher as primeiras horas da manhã. Em época de Mundial, o relógio perde a importância. O foco está sempre em chegar ao próximo destino.

Recorde o Alemanha - Costa do Marfim

O cenário agora é o Canadá, palco da vitória da Alemanha sobre a Costa do Marfim por 2-1, este sábado, véspera do dia dos pais no hemisfério norte. A experiência na nova sede começa logo no Aeroporto Billy Bishop.

Título brasileiro no túnel que liga o Aeroporto Billy Bishop à cidade de Toronto
Título brasileiro no túnel que liga o Aeroporto Billy Bishop à cidade de TorontoJosias Pereira / Flashscore

Com o fluxo ágil na imigração e o acesso facilitado pelas credenciais da FIFA, a chegada à cidade dá-se de forma rápida. Para deixar o terminal, os visitantes atravessam o tradicional túnel construído sob as águas, cujas paredes trazem imagens de todos os campeões mundiais desde 1930, incluindo os grandes ídolos do Brasil.

Ao contrário do México, onde o torneio se impunha pela paixão popular, ou dos Estados Unidos, marcado pela grandiosidade da estrutura, o Canadá apresenta o Mundial de forma subtil. Na saída do aeroporto, voluntários orientam o público. Muitos optam por fazer o trajeto de cerca de 30 minutos até ao estádio a pé, na margem do Lago Ontário e cruzando os parques locais.

Pai passeia com o filho num dos caminhos dos adeptos do Mundial
Pai passeia com o filho num dos caminhos dos adeptos do MundialJosias Pereira / Flashscore

O reflexo nas ruas

A paisagem em redor do estádio é serena. Moradores correm, pedalam e passeiam com animais de estimação, dividindo o espaço com adeptos. O movimento do torneio integra-se na rotina da cidade, sem interrompê-la.

Raul Torrez e a família no Coronation Park
Raul Torrez e a família no Coronation ParkJosias Pereira / Flashscore

Sentado num banco de praça no caminho para o estádio, aproveitando a vista ao lado da esposa e do filho, o adepto Raul Torrez exemplifica o perfil do público que viajou para acompanhar esta sede. Residente do Texas, nos Estados Unidos, viajou até ao Canadá especificamente para acompanhar a seleção alemã.

"Sou um grande fã do futebol alemão e vim justamente para assistir ao jogo. Já estou a acompanhar algumas partidas deste Mundial e aproveitei para trazer a minha família para visitar o Canadá. O clima aqui é realmente mais tranquilo e sereno, mas, de qualquer forma, é possível perceber a atmosfera de Mundial. Dá para ver as pessoas envolvidas e nós sentimo-nos muito bem recebidos com essa tranquilidade canadiana", afirmou Raul Torrez ao Flashscore

Poucos metros mais à frente, também aproveitando o parque com a esposa, o canadiano Jason Boldt era outro que vestia a camisola da Alemanha e carregava consigo uma história que resume a própria formação de Toronto. Para ele, o embate no BMO Field tinha um significado histórico pessoal: era a primeira vez na vida que pisaria um estádio para ver uma partida de futebol.

O primeiro jogo de futebol da vida de Jason Boldt foi num Mundial
O primeiro jogo de futebol da vida de Jason Boldt foi num MundialJosias Pereira / Flashscore

"No Canadá, o cenário é bem dividido: existem as pessoas que se importam muito com o Mundial e outras que realmente não ligam. Eu faço parte do grupo dos que se importam. Apesar de acompanhar outros desportos e conhecer a modalidade, este é o primeiro jogo de futebol que vou presenciar na vida. Antes tarde do que nunca, certo? Guardei a estreia para o melhor momento possível, que é um Mundial", brincou Boldt.

A escolha da camisola também foi um resgate das suas origens.

"Tenho raízes alemãs. A minha família emigrou para o Canadá há cerca de 40 anos e hoje vesti a camisola para prestigiar essa história familiar e realizar o sonho de ver o jogo. A única reclamação fica por conta dos ingressos, que estão bem caros. Mas, no geral, é perceptível que a cidade tem um clima de muita receptividade em relação ao Mundial", acrescentou o morador local.

A ótica de quem roda o mundo

Se para uns o torneio representa uma estreia, para outros é a continuação de uma longa jornada. Caminhando rumo ao estádio, acompanhado do amigo Bernd Hein, o alemão Roger Menzer carrega na bagagem a experiência de quem já viveu os Mundiais de 2006 (Alemanha), 2010 (África do Sul), 2014 (Brasil), 2018 (Rússia) e 2022 (Catar).

Testemunha ocular do histórico 7-1 no Mineirão, recorda o episódio com bom humor. "Os golos iam acontecendo e eu ficava triste pelos brasileiros no estádio, mas, claro, feliz pelo resultado e pelo título que veio depois", brincou.

O alemão Roger Menzer ao lado do amigo Bernd Hein e de um adepto canadiano com a camisola do Egito
O alemão Roger Menzer ao lado do amigo Bernd Hein e de um adepto canadiano com a camisola do EgitoJosias Pereira / Flashscore

Embora também critique os preços abusivos dos ingressos nesta edição, Menzer encontrou em Toronto algo que o impressionou profundamente e que transcende o valor do bilhete: a universalidade do futebol numa cidade multicultural.

"A Alemanha tem passado por problemas sociais complexos e, muitas vezes, usar os símbolos do país ou a camisola da seleção em solo alemão gera julgamentos e divisões na população. Aqui em Toronto, eu vi pessoas de várias raças e nacionalidades — latinos, asiáticos, africanos, norte-americanos — com a camisola da Alemanha sem receio, celebrando o futebol de uma equipa tetracampeã do mundo. Senti-me numa verdadeira festa, algo que não vejo no meu próprio país", relatou Menzer.

Para o veterano de Mundiais, essa atmosfera resume a verdadeira essência do torneio da FIFA.

"A nossa sociedade está muito dividida. Não há nada melhor que um Mundial para estancar essas divisões e trazer as pessoas de volta ao sentido de união entre os povos. É o momento em que qualquer pessoa, de qualquer origem, pode vestir a camisola que quiser, sentarem-se juntos e curtir o futebol sem barreiras. Esse é o maior significado de um Mundial", concluiu o adepto alemão.

A chegada tranquila ao BMO Field
A chegada tranquila ao BMO FieldJosias Pereira / Flashscore

O ritmo local

O contraste com outras sedes é evidente. Enquanto Nova Iorque pulsa com uma energia caótica, o México mobiliza-se com policiamento intenso, e Filadélfia transforma estacionamentos em grandes celebrações, Toronto mantém o seu próprio ritmo. No centro da cidade, o mar vermelho, amarelo e preto toma conta, mas nada que interrompa a rotina ordeira. 

Vista da cidade de Toronto e a icónica CN Tower
Vista da cidade de Toronto e a icónica CN TowerJosias Pereira / Flashscore

O BMO Field conta com um esquema de segurança robusto, a operação da FIFA funciona integralmente e os voluntários estão postos, mas o quotidiano local, àquele em volta do estádio, permanece inalterado. 

Mais do que uma cidade transformada pelo futebol, Toronto integra o torneio à sua própria normalidade, oferecendo uma experiência mais reservada e organizada para o público e para as delegações.

Um dia de Mundial em Toronto
Um dia de Mundial em TorontoJosias Pereira / Flashscore

O ponto negativo da experiência 

O BMO passou por uma mudança visível no horizonte. Estruturas temporárias ampliaram a capacidade do estádio do Toronto FC para cerca de 45 mil espectadores. Mas o aumento na base do "improviso" não acompanhou a procura do público.

No intervalo, próximo ao setor da imprensa, o único WC feminino e masculino tinha filas que dobravam os corredores. Já fica o conselho: se não for antes, é quase certo que vai o início da segunda parte. Algo inimaginável para a finesse canadiana. 

A fila para usar o WC do BMO Field
A fila para usar o WC do BMO FieldJosias Pereira / Flashscore