Exclusivo com Ángel Cuéllar: "Vejo a Espanha campeã no dia 19 de julho"

Ángel Cuéllar com as Lendas de Espanha
Ángel Cuéllar com as Lendas de EspanhaLeyendas España/Flashscore

Ángel Cuéllar foi internacional por Espanha na época de Javier Clemente por duas ocasiões. O antigo jogador do Bétis e do Barcelona, entre outros, não pôde marcar presença no Euro-1996, em Inglaterra, devido a uma grave lesão no joelho. Numa entrevista exclusiva com o Flashscore, analisa o Espanha-Bélgica dos quartos de final e as opções da seleção nacional no Mundial.

Entrevista com Ángel Cuéllar (Antevisão Espanha-Bélgica)
Flashscore

- A que se dedica atualmente o Ángel Cuéllar?

Tenho colaborado há bastante tempo com a Movistar, fazendo jogos para a LaLiga TV durante quatro anos. Colaboro também com o ABC de Sevilha. Ultimamente, estava mais focado no Betis na Europa, na Movistar Plus. E também estou envolvido noutros pequenos projetos que não têm que ver com o futebol.

- Atualmente faz parte das Lendas de Espanha. Jogou pela seleção nacional na época de Javier Clemente, no período compreendido entre o Mundial dos Estados Unidos-1994 e o Euro-1996, em Inglaterra. Que recordações tem dessa etapa?

Sim, precisamente nessa altura tinha a possibilidade de ir a Inglaterra. Tive a primeira lesão de ligamento cruzado no Barça e isso privou-me de poder dar-lhe continuidade. Além disso, recordo-me que naquela semana estávamos convocados em concreto, creio que éramos o Miguel Ángel Nadal e eu, apenas dois jogadores do Barça. Era um pouco estranho de conceber, não era? Mas recordo-me perfeitamente da situação de que lhe falo.

E, agora com o distanciamento e conhecendo o Javi, vejo-o um pouco estranho porque ele não era muito de médios-ofensivos. Eu tinha esse perfil, de um médio-ofensivo com chegada à área, talvez mais tendente a avançado do que a médio. Mas ele entendeu que eu era um dos que estava melhor naquele ano e fui convocado para vários jogos. Estreei-me contra a Finlândia, joguei contra a Alemanha e fui também convocado contra a Arménia em casa, no Villamarín. Independentemente de ter sido muitíssimas vezes internacional nas camadas jovens, quase a chegar à centena jogando Mundiais e Europeus (ganhou o campeonato sub-16 em 1988), mas na seleção principal foi esse o percurso.

- Fez parte de uma seleção que tinha muitíssima qualidade, embora na época existisse a maldição dos quartos de final. Havia um grande talento com Caminero, Hierro, Nadal ou Luis Enrique e a Espanha ficava de fora por pequenos detalhes. Aquela histórica eliminação contra a Itália nos Estados Unidos 1994, com a cotovelada de Tasotti a Luis Enrique, e depois no Euro-1996, em Inglaterra, os fatídicos penáltis contra a anfitriã.

Sim, sim. Descreveu-o perfeitamente. Acrescento, por exemplo, o Julen Guerrero ou o Amavisca. Eram jogadores que tinham talento, que tinham bom pé. Mas o futebol sofreu mudanças importantes na forma, quanto às disposições táticas, quanto a libertar jogadores. Antigamente, o 1-4-4-2 parecia ser o sistema que quase toda a gente utilizava. O Javi era um selecionador nesse sentido que via a sua equipa também como geradora dessa liberdade, para poder jogar, não era?

Começava já esse perfil de jogadores que, com o tempo, tem vindo a permitir que a Espanha possa ser, até ao dia de hoje, uma seleção evoluída, melhorada e libertada quanto ao talento, sem perder a ordem. Mas, efetivamente, nesse tipo de campeonatos, como o que a seleção está a viver neste preciso momento, muitas vezes nem sequer fazer bem as coisas te serve, porque, mesmo fazendo-as bem, podes ficar de fora por detalhes.

"A Espanha é uma seleção melhorada com o passar dos jogos"

- Centrando-nos um pouco no presente, a Espanha parece estar a subir de rendimento no Mundial. Após um empate inicial contra Cabo Verde, sobre o qual talvez se tenham exagerado as críticas, já que não era uma seleção tão má como a pintavam, como se pôde ver no jogo contra a Argentina. A seleção tem vindo a crescer, especialmente no jogo contra a Áustria nas eliminatórias, e depois vencendo Portugal, que, ainda que tenha sido de forma agónica, estamos a falar de um dos rivais mais potentes que existem no mundo. Como está a ver a seleção nacional?

Há que dizer que, hoje em dia, num jogo só, qualquer seleção pode colocar-te em problemas. Uma equipa bem preparada fisicamente, todos têm uma certa consciência tática, têm treinadores que sabem como preparar as suas equipas, pode colocar-te em apuros.

E, sobre Cabo Verde, caso as pessoas não saibam, embora entenda que muita gente saberá, qualificou-se deixando seleções como os Camarões de fora, com jogadores importantes da Premier. Ou seja, Cabo Verde, como bem disse, depois colocou em problemas a própria campeã do mundo. A partir daqui, efetivamente, a Espanha tem sido uma seleção evoluída, melhorada com o passar dos jogos, que não tem sofrido danos.

Estamos a falar de nove golos a favor, zero contra e isto é um registo. Vamos ver o que acontece amanhã, mas quando percebes que não estás tão afinado ou que te estão a faltar coisas que noutros momentos tinhas e consegues estabilizar-te a partir da ordem e de não sofrer danos, estás mais perto de poder ir passando este tipo de eliminatórias.

A Espanha entendeu isso muito bem e, por isso, creio que também ao nível ofensivo se tem vindo a soltar, ainda que, para mim, tendo, não sei se dizer carências, mas sim não tendo o potencial que outras poderiam ter. Mas, como está a ter essa estabilidade defensiva, está a facilitar-lhe poder ganhar jogos, porque, além disso, lá na frente tem pontaria e, se não, de uma forma ou de outra vai causar danos.

"Ter o Pedro Porro e o Marcos Llorente é um luxo absoluto"

- Falando de defesa, como vê o papel que o Pedro Porro está a ter? Além de defender, conseguiu marcar no quarto jogo e está a alternar com o Marcos Llorente na lateral direita. Parece que segue uma saga de grandes futebolistas da Extremadura como Adelardo, Manolo Sánchez Delgado, Fernando Morientes ou o senhor.

Magnífico, repare nestes dois laterais. É um luxo absoluto. Vejo o Luis de la Fuente a sorrir ao mesmo tempo que quebra a cabeça para ver o que decide, o que é melhor para cada jogo. Mas, efetivamente, o Pedro Porro tem prestações magníficas, que não só são condicionadas pelo facto de ele estar lá, mas pelo que tem à sua frente. Entende que à sua frente está o Lamine Yamal, que é o jogador mais determinante que a seleção tem, um dos mais determinantes do mundo neste momento, que tem uma capacidade enorme para resolver jogos, mas que talvez não seja uma das suas forças o facto de poder ajudar o seu lateral nesse sentido.

Bom, pois tudo isto o Pedro Porro geriu perfeitamente, e não apenas ao nível defensivo, mas, quando sobe, tem um critério enorme. E some-lhe, como bem disse, que é um valor acrescentado enorme, o facto de aquele passe do Álex Baena o ter resolvido como se fosse um avançado de primeira linha, quanto ao movimento em si, mas também quanto à forma como finalizou. O papel do Pedro Porro é magnífico, mas também está lá o Llorente. Ou seja, é um luxo para a seleção.

"De la Fuente está a reconverter situações e a adaptar-se ao que tem"

- Falava do Lamine Yamal e dos extremos, que era um pouco a sua posição no campo. Não sei se lhe preocupa, não pela qualidade dos mesmos, mas pelo estado físico dessa zona. Ou seja, o facto de o Lamine Yamal não ter alcançado o seu melhor nível no Mundial, ou que tanto o Nico Williams, o Yeremy Pino ou o Víctor Muñoz venham de diferentes lesões.

Para a Espanha, se reparar no que tem vindo a conseguir e como tem vindo a evoluir nos campeonatos, não só neste, os extremos são vitais. Teve de reconverter um médio-ofensivo nessa posição, como o Álex Baena, que perde claramente profundidade, perde "punch", não tem talvez essa energia para ultrapassar que o Nico pode ter. Teria gostado de ver um pouco mais o Víctor Muñoz, um rapaz que, creio, poderia ter causado muito dano. Não sabemos se poderá estar disponível para o jogo desta sexta-feira contra a Bélgica.

No caso do Yeremy Pino também, é um jogador incisivo por essa zona. E tem de o resolver de outra maneira, tem de o resolver com gente por dentro que chegue à área, como é o caso do último jogo com o Mikel Merino, que gere isso perfeitamente. É um médio, médio-ofensivo e até avançado; em qualquer cenário, ocupa a sua posição a um grande nível. Também dependemos da capacidade de drible do Lamine Yamal.

Relativamente ao Baena, é um médio-ofensivo, que pode jogar perfeitamente na ponta do ataque e, para mim, isto, podendo parecer-me um certo inconveniente, não é um problema, já que me parece que o estão a resolver da melhor maneira. De la Fuente está à procura de soluções, até na ponta do ataque, onde o Oyarzábal está com uma grande visão de golo, se bem que não seja um avançado excessivamente dominante quanto aos espaços, mas sim inteligente noutras coisas. O selecionador tem de ir reconvertendo situações e adaptar-se ao que tem.

Há que ver se lhe chega para as grandes citações. Já passou uma importante e há que ver se, para os grandes jogos que vêm a partir de agora, lhe chega. Mas a realidade é que a Espanha vai ganhando jogos, vai passando eliminatórias e neste momento encontra-se numa posição magnífica.

Ángel Cuéllar com Ricardo López
Ángel Cuéllar com Ricardo LópezLeyendas España

"A Espanha tem o melhor meio-campo do mundo"

- No meio-campo, o Luis de la Fuente menciona sempre que temos os melhores médios-centro do mundo. Lá está o Rodri, MVP contra Portugal após um grande jogo que, talvez, não tenha o marketing suficiente, mas marcou o golo que deu a única Champions ao City, foi MVP do passado Euro, Bola de Ouro... E é acompanhado pelo Pedri, que pode não ter tido o seu melhor jogo contra Portugal, mas que tem um grande nível. Também estão o Fabián, o Mikel Merino, que mencionou anteriormente, o Zubimendi, que ainda não se estreou. Não sei se vê alguma seleção com o nível da Espanha no meio-campo.

Não, definitivamente não. Há que pôr em contexto uma coisa. Enchemo-nos de conversa, ou enche-se a nível jornalístico e em muitíssimos fóruns, a falar do Paris Saint-Germain com o Vitinha e o João Neves. No outro dia vimos um jogo em que o Rodri já mostrou algo do nível que pode chegar a oferecer. Fez um magnífico jogo, como bem comentou. E o Pedri, que não está, talvez, a mostrar todo o seu brilhantismo, mas fez parte de um meio-campo que superou claramente o Vitinha e o João Neves sem estar no seu melhor nível.

Estamos a falar daqueles que, comenta-se, são um dos melhores médios ou os melhores médios, como podem ser o Vitinha e o João Neves, campeões da Champions com o Paris Saint-Germain. Bom, eu creio que a Espanha tem o melhor meio-campo do mundo. Efetivamente, o que o Rodri fez no outro dia foi uma grande notícia, porque isto para a Espanha é vital, que o Rodri tenha esse nível. E creio que não há nenhuma seleção no mundo que tenha o meio-campo que a Espanha tem, não só com os que jogam, mas com os que tem de fora, porque dispõe de uma quantidade de recursos e de variáveis enormes.

- Como vê o jogo contra a Bélgica? Vê a Espanha como favorita para passar às meias-finais?

Vamos ver se nos vingamos 40 anos depois, com aquela falha do Eloy no seu dia naquele penálti contra o Pfaff. Bom, falha não gosto de lhe chamar como tal, porque não é o responsável por a Espanha não passar, seguramente existem muitos mais matizes, mas a seleção estava capacitada para poder fazê-lo. Como lhe dizia, não importa quem tenhas pela frente, porque num jogo só e com este nível que existe atualmente quanto a seleções, qualquer equipa te pode deixar de fora.

Vemos o quão difícil é para todos, o que a Argentina teve de sofrer depois de recuperar de um 0-2 contra o Egito, o que seria impensável talvez há uns tempos. Qualquer seleção te pode colocar em apuros. O que acontece é que o jogador espanhol, ao nível da seleção e ao nível individual nos seus clubes, está habituado a competir em grandes jogos. Mentalmente, com o tempo, está preparado. A Bélgica, creio que tem recursos também importantes para isso.

Se a Espanha estiver ao seu nível e conseguir recuperar algum efetivo para que, se tiver de haver alguma mudança vinda do banco, possa gerir variáveis do 11 inicial que o De la Fuente encontrou de início, parece-me que pode levar a eliminatória a bom porto. Mas, insisto, a Bélgica é uma seleção dura. É uma liga que, desde há muito tempo, tem vindo a melhorar. Não é a espanhola, mas todos os futebolistas que estão na Bélgica jogam em grandes ligas, em grandes equipas e, para mim, o Rudi García é um magnífico treinador, que dirige uma seleção que pode colocar qualquer um em apuros.

- A Bélgica também vem de menos a mais. O Courtois falava de que "se tinham enganado a nosso respeito" depois de empatar contra o Egito, que como comentou, colocou a Argentina em apuros. É verdade que jogaram muito bem contra os Estados Unidos, quando praticamente não eram dados como favoritos. Também irrompeu forte o De Ketelaere contra os anfitriões. Não sei o que é que mais o preocupa da Bélgica, se a baliza com o Courtois, a linha de ataque com o De Bruyne ou o Lukaku, embora já tenham certa idade...

A Bélgica leva já bastantes anos em que toda a gente a aponta como essa seleção que pode dar o salto para algo importante. Não acaba de o fazer, mas tem algo que, para mim, é importante. Costuma dizer-se que é nas áreas onde tudo se cozinha, onde se diferenciam e se decidem os jogos. Aí, a Bélgica tem o melhor guarda-redes do mundo, que é capaz de, se tiver o dia, fazer três defesas salvadoras. Isto provou-o no seu clube e deve dar-lhe muita segurança. Para marcar um golo ao Courtois é preciso trabalhar, não o vai oferecer. Isto é algo importante em situações como esta, num jogo só.

E depois, para mim, tem uma mobilidade importante na zona da frente. No final, está um pouco também dependente desse avançado que parece não estar no seu melhor momento, que é o Lukaku. Mas que é um avançado que condiciona tudo o que pode acontecer à volta, porque é capaz de causar danos e fixar centrais. Embora o De Bruyne, como disse, não esteja no seu prime, pode contribuir e a Bélgica, sim, creio que tem jogadores capazes de gerar perigo nesse sentido. Eu ficaria mais com o facto de o guarda-redes que têm ser um guardião capaz de te dar uma eliminatória, porque é muito fiável entre os postes.

- De cara ao resto do Mundial, se deitarmos um olho às outras seis seleções que restam, há alguma que lhe preocupe especialmente ou alguma que veja mais forte do que as restantes?

Todos temos em mente uma seleção pelo seu descomunal potencial ofensivo, que é a França. Mas há que vê-la quando há uma equipa capaz de lhe tirar a bola, mas não só de lha tirar, como também de conseguir finalizar as ações. Porque o problema que as seleções que jogam contra a França podem ter é que a eles não os preocupa não ter a bola, porque sabem que a vão roubar se não finalizares, e aí são muito danosos igualmente.

Eu creio que a França está um ponto acima de todas as outras, mas seguramente, se se enfrentar com a Espanha, pensará naquilo de "cuidado, que já foi capaz de nos causar danos alguma vez, que tem recursos". E vamos ver como chegam também, se chegarmos a esse ponto de jogar contra eles, em que estado se encontram os futebolistas espanhóis, se conseguimos recuperar efetivos para poder causar danos de outra maneira. Porque fisicamente são muito poderosos e depois têm uma pontaria que creio ser única.

"É impossível não conceder crédito a este treinador e a estes jogadores"

- Por último, vê a Espanha campeã no próximo 19 de julho em Nova Iorque?

Sempre, sempre. Porque a mim, primeiro respondo-lhe a partir do coração, depois com a cabeça, posso pensar e analisar outras coisas, mas vejo-a campeã. Chegou até aqui de forma brilhante. É impossível não conceder crédito a este treinador e a estes jogadores pelo que nos vêm a demonstrar. E depois, é o que lhe acabei de dizer, levamos nove golos a favor, zero contra. Mas insisto, com prudência, depois com a cabeça podemos analisar muitas coisas, matizar muitas coisas, mas vejo-a campeã.

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O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.

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