Exclusivo com Paco Jémez: "Adoro a seleção que Portugal traz, nunca vi tanta quantidade e tanta qualidade"

Paco Jémez num treino do West Ham
Paco Jémez num treino do West HamMI NEWS / NURPHOTO / NURPHOTO VIA AFP

Paco Jémez (Las Palmas, 1970) foi internacional por Espanha em 21 ocasiões e disputou o Europeu da Bélgica-Países Baixos 2000. Tanto como jogador (Rayo, Deportivo ou Zaragoza, entre outros) como treinador (Córdoba, Granada, Las Palmas, Rayo, Ibiza) teve uma carreira longa e diversificada. A sua última experiência foi esta época na Premier League, onde exerceu funções como adjunto do português Nuno Espírito Santo no West Ham.

Numa entrevista exclusiva ao Flashscore, Paco Jémez analisa o Espanha-Arábia Saudita e recorda o seu percurso com a seleção espanhola.

- A que se dedica atualmente Paco Jémez, depois da sua passagem pela Premier League?

- Agora estou a descansar um pouco, mas a ver muito futebol no Mundial, como não podia deixar de ser, e também a aproveitar um pouco o tempo e a fazer coisas que, quando estou inativo, não consigo fazer. Agora, aproveito para estar com a família e jogar um pouco de golfe, que tinha deixado bastante de lado. E também já estou a analisar a situação para ver se posso continuar a treinar e se aparece algum projeto que me apeteça agarrar.

- A sua ideia seria assumir como treinador principal ou como adjunto?

- Não, o de adjunto foi algo pontual que fiz. Fiz isso com o Nuno (Espírito Santo), numa situação curta e muito motivante por poder conhecer a Premier League por dentro. Isso não quer dizer que não pudesse voltar a fazê-lo, mas à partida estou à procura de um projeto como treinador principal.

- Além disso, atualmente faz parte das Leyendas España.

- Correto, estamos em Cáceres, onde vamos disputar um jogo a favor dos doentes de ELA. Vamos ver se conseguimos levar muita gente ao estádio e angariar muito dinheiro para poder estudar e combater esta terrível doença. Já estamos aqui em Cáceres, prontos para ir daqui a pouco para o relvado.

- Da sua etapa como jogador por Espanha, todos o recordamos nesse mítico Europeu da Bélgica e Países Baixos 2000, com um jogo épico, o 3-4 frente à Jugoslávia no Jan Breydel Stadion, em Brugge, e depois essa eliminação contra a França nos quartos de final. Conte-nos como recorda esse torneio.

- Foi uma experiência muito bonita, não é? O meu primeiro evento internacional com a seleção e a verdade é que fomos com muita ilusão porque tínhamos uma seleção fantástica. Esse jogo contra a Jugoslávia foi tremendo, porque só nos servia ganhar e, no fim, com essa vitória conseguimos passar as duas seleções à fase seguinte. E foi um jogo tremendamente intenso. Recordo-o com muita tensão e muita pressão pelo resultado. E depois é verdade que encontrámo-nos com a França. Acho que fizemos um grande jogo contra, possivelmente, a melhor seleção que havia no mundo naquele momento. Essa seleção acabou por ser campeã da Europa e depois campeã do mundo. Foi um jogo em que, na minha opinião, nunca perdemos o controlo. Teve muito a ver com um penálti que falhámos contra eles, que acho que teria empatado a eliminatória e teria tornado tudo muito mais difícil para eles. Mas no fim foram eles que seguiram em frente e nós tivemos de regressar a Espanha.

Paco Jémez frente a Thierry Henry no Europeu de 2000
Paco Jémez frente a Thierry Henry no Europeu de 2000OLIVIER MORIN/AFP/AFP/Profimedia

"Estou muito agradecido à seleção e a Camacho"

- Fez parte de uma geração que podia ter ficado para a história. Havia muita qualidade com os Hierro, Luis Enrique, Guardiola, Mendieta, Raúl, mas aparecia sempre a barreira dos quartos, até que foi derrubada em 2008.

- Sim, sim. Espanha, sempre que foi a algum evento internacional, levou seleções de altíssimo nível e foi sempre uma das favoritas a chegar à final. É verdade que tiveram de passar alguns anos para que isso acontecesse, mas sempre foi uma seleção com bons jogadores, porque em Espanha há muito bom nível. E esse ano e essa época não foram exceção. Tínhamos uma equipa não só com nomes, mas com homens de grande profissionalismo e experiência nos seus clubes, inclusive fora de Espanha. Havia muitas expectativas sobre nós e, na verdade, nesse momento, juntamente com a França e mais alguma seleção, éramos favoritos para chegar ao fim desse Europeu. Tivemos de encontrar pelo caminho a França, uma das melhores equipas francesas que já vimos. E digo-te já que nesse jogo, se tivéssemos marcado aquele penálti que o Raúl falhou, não sei o que teria acontecido. Mas é verdade que as coisas teriam ficado muito mais equilibradas e, seguramente, teríamos sido muito mais competitivos.

- Não sei se ficou com a espinha atravessada de não ter podido disputar um Mundial, já que em 2002 foi presença habitual na fase de qualificação.

- Sim, sim, sobretudo porque joguei toda a fase de qualificação e, no fim, não estive na lista final. Mas o tempo que estive na seleção, que foram três anos e pouco, foram três anos e pouco fantásticos. Pude realizar um sonho, que é ser internacional pelo teu país. Acho que é um dos maiores feitos que um desportista pode alcançar. E eu tive a grande sorte de o conseguir, de estar mais de três anos na seleção. E, embora no fim não tenha ido a esse Mundial depois de jogar toda a qualificação, estou muito agradecido à seleção e, sobretudo, ao Camacho, que foi o selecionador que confiou em mim. Foi um período, possivelmente, o mais bonito da minha carreira desportiva.

Paco Jémez na equipa Leyendas España
Paco Jémez na equipa Leyendas EspañaMutsu Kawamori / AFLO / Profimedia

"Contra a Arábia Saudita vamos mostrar uma melhor imagem"

- Vamos ao presente, ao Mundial-2026. As sensações do primeiro jogo de Espanha contra Cabo Verde não foram boas. Não sei se pode haver algum paralelismo com o que aconteceu nos oitavos de final da Rússia-2018 e do Catar-2022 com outros selecionadores. Um jogo com muito domínio, muita superioridade técnica, mas pouca eficácia.

- Sim. Era um jogo em que, à partida, toda a gente pensava que o resultado não ia estar em risco. E no futebol é preciso ser muito comedido no que se diz antes de começar o jogo, porque, embora seja verdade que houve muita diferença, que Espanha devia ter ganho pelas ocasiões, pelo jogo e tudo o resto, no fim não conseguimos encontrar esse primeiro golo que nos desse tranquilidade e permitisse gerir melhor o jogo. E no fim o resultado complicou-se um pouco. Acho que agora, contra a Arábia Saudita, vamos mostrar uma melhor imagem. Não tanto em termos de jogo, porque acho que no outro dia a equipa fez bons minutos de futebol, mas sim em termos de encontrar situações mais claras para marcar, que é o que agora está a faltar à seleção espanhola. Uma primeira vitória que já te dê tranquilidade para poder encarar o último jogo.

- O que é preciso mudar frente à Arábia Saudita para que as coisas corram bem?

- Encontrar o golo. No futebol, muitas vezes fazes tudo o que é preciso para marcar, mas não é o teu dia e a bola não entra. No outro dia acho que foi um pouco isso, sobretudo na primeira parte. Na segunda parte é verdade que faltaram ocasiões mais claras. Na primeira parte tivemos oportunidades para marcar, não acertámos na baliza e isso fez com que ficássemos demasiado ansiosos e a correr atrás do prejuízo mais do que gostaríamos. À partida, com um pouco mais de eficácia na finalização, acho que seria suficiente.

- Luis de la Fuente destacou por duas vezes duas linhas diferentes da equipa. O selecionador nacional afirma que Espanha tem os quatro melhores guarda-redes do mundo (Unai Simón, David Raya e Joan García, além de Álex Remiro, que não foi convocado) e os melhores médios do mundo: Rodri, Fabián, Pedri, Gavi, Zubimendi e Mikel Merino. Concorda?

- Temos uma das melhores seleções, sem dúvida. E depois, em relação às linhas que se destacam, concordo com o Luis. Essa quantidade de guarda-redes de grande nível e essa quantidade de médios com esse nível, acho que não há nenhuma seleção que os tenha e que nos possa igualar nisso. Nessa análise, os jogos têm de ser ganhos a defender e têm de ser ganhos a atacar. Ou seja, também é muito importante a linha defensiva e a linha atacante. Mas é certo que acho que temos um meio-campo tremendamente criativo, com jogadores com muita experiência nos seus clubes internacionais, jogadores de topo mundial. E esperemos que essa linha criativa nos permita gerar muitas ocasiões, porque num Mundial tens de estar muito afinado em todas as linhas. O facto de dizeres: 'É verdade que temos muito bons guarda-redes, mas no fim tens de estar afinado, porque tens de defender, tens de marcar golos, vais encontrar jogos fechados como no outro dia, vais encontrar jogos talvez um pouco mais abertos'. Ou seja, vais encontrar de tudo e a equipa tem de responder a todas as expectativas e a todas as propostas que as diferentes seleções nos vão exigir. Por isso, acho que a análise do Luis é muito acertada, porque também é muito evidente. A qualidade e a quantidade de jogadores que temos, que qualquer outra seleção adoraria ter. E vamos ver se nestes próximos jogos a equipa está um pouco mais afinada, sobretudo no ataque. Porque é verdade que no outro dia, em termos defensivos, a seleção de Cabo Verde exigiu-nos muito pouco. Mas no ataque temos de ser capazes de mostrar essa versão que já demos noutros jogos, com muita fluidez e muita qualidade na criação de ocasiões de golo.

Paco Jémez com a seleção espanhola
Paco Jémez com a seleção espanholaCHRISTOPHE SIMON/AFP/AFP/Profimedia

"Um bom Mundial é chegar, no mínimo, aos quartos"

- A Espanha dá-se bastante bem nos Europeus (campeã em 2024, semifinalista frente à Itália em 2021 e campeã em 2012 e 2008). No entanto, nos Mundiais, desde a vitória na África do Sul 2010, os resultados não têm acompanhado. O que seria fazer um bom Mundial para Espanha? Até onde pode chegar a seleção?

- É complicado saber até quando e até onde, entre outras coisas porque isso vai depender muito das seleções que te calhem pelo caminho. Noutra entrevista perguntaram-me: "Bem, e o que esperas de Espanha?". Eu espero sempre o melhor e estou certo de que vai ser um bom Mundial. O que é fazer um bom Mundial? Bem, talvez, no mínimo, chegar aos quartos. A partir daí, tudo o que seja superar isso já é um bom Mundial. O que acontece? Como disseste, vimos de ser reis na Europa. Quase toda a gente está a olhar para nós de soslaio, porque acho que somos uma das favoritas. Então, talvez, essa análise para algumas pessoas fique um pouco curta. Mas volto a repetir, vai depender muito também das seleções que te calhem pelo caminho. Acho que esta seleção está preparada para o máximo. Se já formos capazes de chegar aos quartos, acho que seria uma boa classificação. Pelo menos para não nos sentirmos defraudados e desiludidos. É verdade que a seleção, nas competições dentro da Europa, é das melhores, mas também é certo que nos falta um pouco dessa experiência, de ter jogadores já com vários Mundiais nas costas, que isso, no fim, quer queiras quer não, também é importante.

Paco Jémez como treinador do Las Palmas
Paco Jémez como treinador do Las PalmasDAVID ALIAGA/NURPHOTO/NURPHOTO VIA AFP

"Adoro a seleção que Portugal traz, nunca vi tanta quantidade e tanta qualidade"

- Falava de possíveis cruzamentos, existe o risco de Espanha e Argentina se cruzarem nos 16 avos se uma das duas não terminar em primeiro lugar, sendo lógico que ambas liderem os seus grupos. Mas em hipotéticos oitavos aparecem Portugal ou Colômbia. De um modo geral, que seleções lhe merecem mais respeito neste Mundial?

- Tal como vimos no outro dia e como temos visto nalguns resultados, muitas seleções podem ver-se em apuros se não tiverem um bom dia. Dentro dos favoritismos, toda a gente está a olhar para a atual campeã, que é a Argentina. O Brasil fez um bom início de campeonato. Espanha continua a ser, na minha opinião, uma das favoritas. Portugal, eu adoro a seleção que traz, é uma equipa com uma quantidade e uma qualidade como nunca vi na seleção portuguesa, é impressionante. Depois, a Alemanha tem de ser tida em conta, a Inglaterra também, além de alguma seleção que aparece sempre e complica as contas. Dentro desse panorama, certamente esqueço-me de alguma, mas provavelmente toda a gente está um pouco atenta a esse tipo de seleções. Sobretudo àquelas que fizeram um bom arranque de campeonato, que vão passar a primeira fase com relativa facilidade. Esperemos que nós também sejamos uma dessas seleções. E depois, já sabes, caso não consigas classificar-te em primeiro do grupo, tens de estar muito atento ao que te calha. E o que te calha normalmente são seleções, muitas delas das que já nomeámos, muitas delas favoritas. E é aí que te digo que, claro, vai depender muito até onde somos capazes de chegar, também em função de que tipo de seleções nos calhem. No fim, é verdade que se queres ser campeão, que é o objetivo de todas as seleções fortes que chegaram a este Mundial, tens de defrontar todos e tens de encontrar os mais fortes se realmente queres chegar à final. Mas é sempre bom, no início, encontrar seleções que estejam a competir contigo, na igualdade ou até na superioridade. Imagina que tens de defrontar a Argentina ou tens de defrontar Portugal. Isso já é um choque de gigantes e aí pode acontecer qualquer coisa.

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