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Quando Pape Gueye marcou o único golo da final da CAN, e mesmo com um recurso administrativo, o destino de Walid Regragui à frente dos Leões do Atlas já não deixava grandes dúvidas. A palavra de ordem era simples: em casa, só a vitória era aceitável. No entanto, um final de jogo inimaginável selou o destino do selecionador que tinha levado o Marrocos às meias-finais do Mundial, um feito inédito para um país africano.
Mesmo que o anfitrião tivesse vencido, Regragui nem sequer tinha a certeza de continuar no cargo para o Mundial, pois já havia tensão com o Fouzi Lekjaa, o presidente da federação. Sobretudo, havia um nome que se repetia entre os adeptos: Mohamed Ouahbi, o treinador que conduziu os sub-20 ao título mundial em 2025.
"Chega num contexto bastante favorável", explica o jornalista marroquino Sami Nouaim ao Flashscore: "Na federação, era tempo de mudança. Muito antes da CAN, as críticas já choviam sobre Regragui. Isso acontecia desde a CAN-2023 e a eliminação precoce nos oitavos de final pela porta pequena frente à África do Sul. Havia muita pressão popular sobre a federação. E quem melhor do que o vencedor do Mundial sub-20 para o substituir? A sua chegada era aguardada, ainda mais porque a federação privilegia selecionadores marroquinos em vez de estrangeiros. Tendo em conta o percurso neste Mundial, os adeptos estão muito satisfeitos".
Um Final Four na Youth League com o Anderlecht
Nascido na Bélgica, o técnico de 49 anos começou a formar jogadores no Maccabi Brussel (1997-2003), onde conheceu Yannick Ferreira, de quem viria a ser adjunto durante seis meses no Al-Fateh, na Arábia Saudita. Ouahbi passou 17 anos no Anderlecht e, como ponto alto, conseguiu a qualificação para o Final Four da Youth League 2014/15, depois de terminar num grupo onde estavam Arsenal, Galatasaray e o Borussia Dortmund, antes de eliminar o Barça nos oitavos de final (1-0) e depois o FC Porto nos quartos (5-0). Entre os jogadores que ajudou a formar estão, nomeadamente, Romelu Lukaku, Youri Tielemans e Dodi Lukébakio , atualmente no Mundial com a Bélgica, assim como Adnan Januzaj.
Nomeado selecionador sub-20 de Marrocos em março de 2022, já tinha ideias bem definidas. Na sua primeira convocatória frente à Roménia, já estavam três jogadores que hoje fazem parte do seu grupo: Bilal El Khannouss, Chadi Riad e Redouane Halhal.
A evolução dos talentos é evidente e, para os binationais, representar Marrocos cada vez mais cedo não é uma escolha por defeito, mas sim uma verdadeira intenção. O ponto alto chega durante o Mundial sub-20, em setembro-outubro passado. Depois de duas vitórias frente à Espanha e ao Brasil e uma derrota sem importância contra o México, a equipa entrou numa dinâmica imparável. Coreia do Sul, Estados Unidos, França e Argentina: nada resiste a Marrocos, que conquista a competição. Futebol atrativo, ambição ofensiva e sucesso: Ouahbi torna-se o treinador do momento, mesmo não sendo muito conhecido do grande público.
Resultados através do jogo... e um sonho bem enraizado
"Não temos uma ideia real da sua personalidade, mas pelo que mostra em conferências de imprensa e nas suas interações com os jornalistas locais, tem uma humildade que Regragui foi perdendo com o tempo. Penso que Ouahbi gere melhor esse lado reputacional". Isso não significa que seja insípido, muito pelo contrário, pois tem princípios de jogo que soube rapidamente aplicar na seleção. À frente da equipa A, Ouahbi sistematizou o 4-2-3-1, o seu esquema preferido, que Regragui foi progressivamente abandonando em favor do 4-3-3 e, sobretudo, do 4-1-4-1 a partir dos quartos de final da CAN. A vitória facilita sempre as coisas: Ouahbi impôs-se quase naturalmente aos olhos dos dirigentes e dos adeptos: "tendo em conta o percurso dos chilenos e o bom futebol, aguardava-se a sua chegada para o Mundial. Era pedido. Um Mundial sub-20 não é uma competição de segunda linha. A final foi disputada já de madrugada, por volta da 1h da manhã em Marrocos, e os adeptos celebraram o título em plena noite!".
Conseguir resultados é uma coisa, mas é preciso fazê-lo com qualidade. Neste aspeto, os marroquinos são muito exigentes e o novo selecionador parece ter ouvido a voz do povo para dar uma identidade mais criativa aos Leões do Atlas: "Regragui era mais conservador. Mas sempre gostámos de gestos técnicos, do tiki-taka. Chamam-nos os brasileiros de África, não é por acaso! Ouahbi agradou ao povo, que está verdadeiramente do seu lado".
Marrocos já não é uma surpresa a este nível da competição. Pelo desenvolvimento da sua formação, pelas escolhas de jogadores locais ou da diáspora, é um outsider no topo da hierarquia que vai desafiar os Bleus esta quinta-feira à noite.
Para Ouahbi, pode também ser um exame de passagem, pois encontra-se na mesma situação que Regragui, nomeado poucos meses antes do Mundial-2022. "Quando vemos a confiança renovada no seu antecessor após a CAN 2023, podemos dizer que Ouahbi tem tudo para continuar como selecionador durante muito tempo. Mais uma vez, Marrocos é a melhor equipa africana no Mundial, por isso pode dizer-se que passou no seu primeiro teste". No entanto, vencer a França não seria um feito nem um fim em si mesmo. Uma segunda presença consecutiva nas meias-finais seria um sinal claro de que levantar o troféu já não é um sonho, mas sim uma realidade: "por ter falado com vários colegas, os quartos de final não são um objetivo. O objetivo é ir o mais longe possível, ou seja, até à final".
