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Mundia-2026: Deschamps mantém intacto um legado sem precedentes apesar da eliminação da França

Didier Deschamps acena aos adeptos antes do França-Espanha
Didier Deschamps acena aos adeptos antes do França-EspanhaLee Smith / Reuters

O fim do reinado de Didier Deschamps, marcado por um toque de Midas, transformou-se num tormento digno de Tântalo, com a França a sofrer uma derrota clara nas meias-finais do Mundial frente à Espanha. No entanto, as recentes desilusões dos Bleus não mancharão um legado sem igual.

Recorde as incidências do encontro

França perdeu a final do Mundial-2022 para a Argentina e voltou agora a cair perante a Espanha em três meias-finais consecutivas de grandes competições: no Euro-2024, na Liga das Nações e na derrota por 2-0 no Mundial, esta terça-feira.

Mesmo assim, Deschamps, que assumiu o comando em 2012, quando o futebol francês ainda estava marcado pela revolta e humilhação sofridas no Mundial da África do Sul dois anos antes, será recordado sobretudo como o treinador que conduziu a França ao seu segundo título mundial em 2018, duas décadas depois de a ter capitaneado até ao primeiro, em solo francês.

Com um recorde de 20 vitórias em Mundiais como treinador, levou a França às meias-finais globais em três torneios consecutivos, atingindo a final por duas vezes, e consolidou a seleção como a equipa mais consistente das grandes competições internacionais.

O jogo de atribuição do terceiro lugar, no sábado, será uma despedida anticlimática para o técnico de 57 anos, que já tinha anunciado no ano passado que sairia quando o seu contrato terminasse após o torneio.

O seu sucessor – o antigo colega de equipa Zinedine Zidane, há muito apontado como favorito – herdará um plantel talentoso, mas também um desafio familiar: transformar talvez a geração mais rica de talento da história do país na máquina vencedora que se espera.

As equipas de Deschamps raramente eram associadas ao futebol vistoso. Por vezes, foi criticado por privilegiar o equilíbrio, a disciplina e a eficácia em detrimento do espetáculo, mesmo contando com alguns dos jogadores mais talentosos do ataque mundial.

Mas os resultados justificaram repetidamente os seus métodos.

Levou a França aos quartos de final do Mundial-2014, onde perdeu pela margem mínima frente à futura campeã Alemanha, antes de guiar os anfitriões até à final do Euro-2016. A derrota frente a ‌Portugal no prolongamento foi dolorosa, mas lançou as bases para a conquista do título mundial na Rússia dois anos depois.

A França venceu a Croácia por 4-2 na final de 2018, tornando Deschamps no terceiro homem, depois de Mario Zagallo, do Brasil, e de Franz Beckenbauer, da Alemanha, a vencer o Mundial como jogador e treinador.

Somaram ainda a conquista da Liga das Nações em 2021 e ficaram a um desempate por penáltis de revalidar o título mundial no Catar, recuperando de uns primeiros 80 minutos desastrosos para empatar 3-3 com a Argentina, naquele que foi um dos melhores jogos do torneio.

Essas conquistas deram a Deschamps um crédito que poucos treinadores conseguiram igualar.

Didier Deschamps durante o França-Espanha
Didier Deschamps durante o França-EspanhaZUMA Press Wire / Shutterstock Editorial

Sobreviveu ao impacto da dececionante campanha da França no Euro-2020, aos debates recorrentes sobre o seu futebol cauteloso e ao longo e divisivo afastamento do avançado Karim Benzema.

A sua autoridade manteve-se intacta porque continuou a construir equipas capazes de chegar longe nas grandes competições.

Um trajeto de vitórias

O antigo médio defensivo já tinha feito carreira a vencer muito antes de assumir o comando da seleção francesa.

Nascido em Baiona em 1968, estreou-se na primeira divisão pelo Nantes ainda adolescente, antes de se juntar ao Olympique de Marselha, com quem conquistou dois títulos de campeão e capitaneou o primeiro clube francês a erguer a Liga dos Campeões, em 1993.

Seguiu-se a transferência para a Juventus em 1994. Em Turim, Deschamps venceu três títulos da Serie A e mais uma Liga dos Campeões, afirmando-se como o organizador discreto no centro de uma das equipas dominantes da Europa.

Eric Cantona descreveu-o uma vez, de forma depreciativa, como um “carregador de água”, mas o rótulo acabou por captar as qualidades que definiram Deschamps: disciplina, inteligência, altruísmo e uma compreensão instintiva do que as equipas vencedoras exigem.

Somou 103 internacionalizações e capitaneou a seleção que ergueu o Mundial no Stade de France em 1998, antes de completar a histórica dobradinha no Euro-2000.

O sucesso acompanhou-o também como treinador.

Deschamps levou o Monaco à final da Liga dos Campeões em 2004, guiou a Juventus de volta à Serie A logo após a descida de divisão devido ao escândalo Calciopoli e pôs fim a 18 anos de espera do Marselha por um título de campeão francês em 2010.

Quando sucedeu ao antigo colega de equipa Laurent Blanc em julho de 2012, a seleção nacional ainda tentava reconstruir a sua reputação após a greve dos jogadores no Mundial-2010, na África do Sul.

Deschamps restaurou primeiro a ordem, depois a confiança, e o sucesso chegou pouco depois.

Os seus críticos argumentavam que o talento francês exigia um futebol mais ofensivo. A resposta era quase sempre a mesma: os torneios ganham-se com adaptabilidade, resiliência defensiva e aceitação de que o estilo importa menos do que a sobrevivência.

Durante mais de uma década, foi difícil contrariar este argumento.

A forma como se deu a derrota de terça-feira vai, ainda assim, deixar marcas. A França chegou como favorita, depois de o seu poderio ofensivo a ter levado longe no torneio, mas acabou superada técnica, tática e fisicamente pela Espanha em Dallas.

Deschamps admitiu que a sua equipa precisava de estar no máximo para competir e ficou muito aquém disso.

Estatísticas da partida
Estatísticas da partidaFlashscore

A França não conseguiu impor a sua força, o ataque tão elogiado foi neutralizado e o meio-campo foi dominado — um capítulo final sombrio para um treinador cujas equipas quase sempre encontraram soluções, mesmo quando jogavam mal.

“Não quero deitar fora tudo o que fizemos Mas neste jogo a Espanha mostrou que tinha algo mais", afirmou Deschamps.

Foi uma avaliação ponderada de quem raramente deixou que o triunfo ou o desastre alterassem a sua postura pública.

Deschamps vai sair sem a despedida gloriosa que desejava, mas com um registo que o coloca ao lado das figuras mais influentes da história do desporto francês.

Ergueu o Mundial como capitão, voltou a levantá-lo como treinador e passou 14 anos a garantir que a França estivesse quase sempre presente quando os maiores troféus do desporto eram decididos.

Uma noite dolorosa em Dallas não apaga isso.

Mundial-2026

O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.

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