Mundial-2026: África dominante? Marrocos lidera salto histórico face aos torneios anteriores

Os marroquinos agradecem a Alá após a qualificação frente aos Países Baixos.
Os marroquinos agradecem a Alá após a qualificação frente aos Países Baixos.Reuters

A Alemanha e os Países Baixos já preparam o regresso a casa, e em breve juntar-se-ão a eles a Croácia ou Portugal, que se defrontam nos 16 avos de final do Mundial-2026. Três potências ficam fora da luta muito antes de se começar sequer a disputar as medalhas. Pelo contrário, Marrocos celebra, pois tem apresentado exibições de excelência e muitos especialistas já o colocam entre os principais favoritos do torneio. O que há de mais surpreendente nisto? É que já nem é assim tão surpreendente...

Há quase 100 anos que, no Campeonato do Mundo, só equipas europeias e americanas disputam regularmente as medalhas. Em 2002, esse domínio foi quebrado pela presença nas meias-finais da Coreia do Sul. Sobre África falou-se durante muito tempo, e de quatro em quatro anos esperava-se que algum dos seus representantes conseguisse surpreender. Isso só aconteceu na última edição, no Catar, quando os marroquinos festejaram uma histórica qualificação para o lote das quatro melhores equipas do planeta.

Este ano, voltam a apresentar uma forma notável. Tal como outros representantes do continente africano. As prestações das equipas africanas na América representam um avanço significativo em relação aos três últimos Mundiais. Pela primeira vez na história do torneio (no formato alargado de 48 equipas), a maioria delas chegou à fase a eliminar e o continente atinge a maior taxa de sucesso de sempre.

Na verdade, dos dez representantes africanos, só um (Tunísia) não conseguiu passar, o que significa uma eficácia de 90%. Nem a Europa (13/16, 81%), nem a América do Sul (5/6, 83%) conseguem igualar este registo. Nos últimos anos, o Mundial tem mostrado cada vez mais que as equipas africanas conseguem ser competitivas mesmo frente à elite e têm vindo a melhorar os seus resultados de forma consistente, mais do que era habitual.

Além da crescente qualidade dos plantéis e do talento individual, pode também pesar um fator menos visível – a diferença de carga ao longo da época. Enquanto os jogadores europeus chegam ao torneio após calendários extremamente preenchidos nas Ligas, Taças e seleções, parte das seleções africanas apresenta-se com um regime de esforço diferente, o que por vezes se traduz numa maior frescura na intensidade e nos sprints repetidos.

Como foram os últimos Mundiais do ponto de vista africano?

Mundial-2014: Ano forte a nível individual

O torneio no Brasil é considerado um dos melhores para África na era moderna. Apenas duas equipas chegaram aos oitavos de final – Argélia e Nigéria.

A Argélia realizou um jogo equilibrado com a futura campeã do mundo, Alemanha, que só venceu no prolongamento por 2-1. Já a Nigéria perdeu com a França por 0-2. O balanço foi claro: África conseguiu colocar equipas no play-off, mas faltou continuidade.

Mundial-2018: Queda acentuada

O torneio na Rússia, pelo contrário, representou um grande retrocesso. Nenhuma equipa africana chegou à fase a eliminar. Quem ficou mais perto foi o Senegal. Na tabela, tinha exatamente os mesmos pontos e diferença de golos que o Japão, mas foi eliminado devido à recém-introduzida regra do fair play (maior número de cartões amarelos).

A Nigéria perdeu o jogo decisivo do grupo D com a Argentina por 1-2, sofrendo um golo aos 86 minutos, e terminou em terceiro. Tunísia, no grupo G, conseguiu vencer o Panamá, mas após derrotas com a Inglaterra e a Bélgica não conseguiu apurar-se.

Marrocos pagou caro o mau arranque e as derrotas tangenciais com o Irão e Portugal, somando apenas um ponto graças ao empate com Espanha. Egito, com a estrela Mohamed Salah, perdeu os três jogos (com Uruguai, Rússia e Arábia Saudita) e terminou em último no grupo.

Pela primeira vez desde 1982, África não teve qualquer representante nos oitavos de final. Os principais problemas eram evidentes em todo o continente – baixa eficácia na finalização, organização defensiva instável e grande diferença de qualidade face aos adversários europeus nos jogos decisivos.

Mundial-2022: Quebra histórica

O Catar trouxe uma melhoria significativa e duas equipas africanas chegaram aos oitavos de final: Marrocos e Senegal. O futebol africano registou neste torneio um feito histórico, sobretudo graças a Marrocos, que venceu um grupo difícil com a Croácia e a Bélgica.

Nos oitavos de final, eliminou a Espanha nos penáltis e, nos quartos de final, venceu Portugal por 1-0. Só foi travado nas meias-finais pela França (0-2) e, após perder o jogo do terceiro lugar com a Croácia (1-2), terminou num histórico 4.º lugar.

O Senegal também passou em 2.º lugar no grupo A (atrás dos Países Baixos), mas nos oitavos de final não conseguiu superar a Inglaterra e, após perder por 0-3, foi eliminado do torneio.

Mundial-2026: Mudança de hierarquia

O torneio atual mostra um cenário diferente. África conta com dez seleções no Mundial-2026 e nove delas chegaram à fase a eliminar, o que representa um recorde absoluto. A diferença em relação ao passado não está apenas no número de apurados, mas também na forma como as equipas africanas gerem os jogos decisivos. Não se trata de uma equipa excecional, mas sim de um grupo alargado de seleções competitivas.

O exemplo mais marcante é Marrocos, que nos oitavos de final eliminou os Países Baixos após um empate 1-1 e vitória 3-2 nas grandes penalidades. O jogo voltou a evidenciar a importância do guarda-redes Yassine Bono nos momentos decisivos. No desempate por penáltis, defendeu um dos remates adversários e contribuiu para a qualificação.

Bono é, há muito, um dos guarda-redes que não se antecipa nos penáltis. Mantém-se na linha, minimiza o primeiro passo e reage apenas na fase final do remate. Este estilo, baseado na leitura do movimento do adversário e na paciência, tem-se revelado eficaz sobretudo em situações em que milímetros e o timing fazem a diferença.

Virá aí mais uma surpresa?

O próximo representante africano a entrar em ação será a Costa do Marfim, que defronta a Noruega. As duas equipas chegam aos oitavos de final com histórias completamente diferentes.

A Costa do Marfim chega pela primeira vez na sua história à fase a eliminar do Mundial. No grupo E, conseguiu gerir os jogos decisivos sobretudo graças a uma defesa sólida – sofreu apenas dois golos e beneficiou muitas vezes de um futebol paciente, até algo pragmático. A vitória sobre o Equador e os pontos obrigatórios frente a adversários mais fracos abriram-lhe as portas para a fase seguinte.

A Noruega apresenta um ataque poderoso, liderado por Erling Haaland, que segura a equipa mesmo nos momentos de maior dificuldade. Quando os noruegueses aceleram, conseguem bater praticamente qualquer adversário, como já mostraram na fase de grupos. O seu problema, porém, é a concentração e a estabilidade defensiva.