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Mundial-2026: Como o microfone mudou a vida do jovem que desafiou a medicina e conquistou Messi

Manu Gutiérrez junto ao seu pai no treino da seleção argentina em Miami
Manu Gutiérrez junto ao seu pai no treino da seleção argentina em MiamiJosias Pereira / Flashscore

O Mundial tem um poder quase místico para transformar destinos em questão de segundos. No entanto, nesta edição histórica na América do Norte, um dos percursos mais marcantes do torneio não se escreve com chuteiras sobre o relvado reluzente, mas forja-se com as mãos que seguram um microfone.

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Foi graças a isso que o venezuelano Emanuel Gutiérrez, 'Manu', encontrou as respostas que a vida parecia negar-lhe, captando a atenção dos maiores craques do planeta e de uma legião de milhões de admiradores.

Messi, Bellingham, De Paul, Mac Allister... A constelação de ídolos que para diante do seu microfone na zona mista aumenta a cada jogo. Um feito que demonstra, de forma definitiva, que as limitações físicas são demasiado pequenas para travar quem carrega a coragem e a sensibilidade dos grandes contadores de histórias.

Como o microfone mudou a vida do jovem que desafiou a medicina e conquistou as estrelas do Mundial
Josias Pereira / Flashscore

O plano B de um sonho interrompido

Para o Manu, o jornalismo nunca foi apenas uma escolha profissional: foi um resgate. Uma via de fuga para um mundo que só existia na sua imaginação.

"O microfone deu-me esperança, já que o meu sonho era poder ser futebolista, praticar o desporto e, obviamente, percebi cedo que não o conseguiria", confessa Gutiérrez, com a serenidade de quem teve de recalcular o rumo da sua própria vida desde a infância.

Manu entrevista Bellingham na zona mista do Mundial
Manu entrevista Bellingham na zona mista do MundialReprodução

"Encontrei no microfone uma alternativa para me aproximar desses relvados com que sempre sonhei", explica.

A batalha de Manu começou desde o seu primeiro suspiro. No momento do seu nascimento, uma grave negligência médica durante o parto da mãe quase custou a vida a ambos. A severa falta de oxigénio e a perda de sangue provocaram uma paralisia cerebral motora que afetou gravemente o seu lado esquerdo.

Mas os diagnósticos médicos, que tantas vezes soam a sentença, não previram a teimosia de um apaixonado. Manu desafiou as estatísticas, licenciou-se e colocou o desporto no centro da sua vida.

Da Venezuela para o mundo

A carreira profissional de Manu começou muito cedo, aos 15 anos, quando ainda frequentava o ensino secundário na sua cidade natal, Punto Fijo, Venezuela. Convidado por amigos para produzir um programa de rádio local, ali descobriu o seu habitat natural. Em 2016, a situação do seu país levou-o a emigrar para os Estados Unidos, onde se estabeleceu.

A consolidação do seu sonho chegou em etapas rápidas e corajosas: licenciou-se oficialmente como jornalista em 2021 e, dois anos depois, em 2023, fundou o seu próprio meio de comunicação independente. Depois de se estrear em grandes coberturas na Copa América de 2024, o destino final só podia ser o palco sagrado do Mundial-2026.

No início, Manu era apenas mais uma credencial pendurada ao pescoço entre centenas de repórteres de todo o mundo. Mas tinha um brilho diferente no olhar. E foi esse brilho que chamou a atenção de Messi.

O dia em que Messi parou para ouvir Manu

Na dinâmica caótica e acelerada de uma zona mista de Mundial, onde os repórteres se empurram para conseguir uma palavra dos jogadores, a presença física de Manu e a sua cadeira de rodas exigiam espaço. E Lionel Messi, conhecido pela sua timidez e por passar rapidamente diante dos jornalistas, decidiu parar. Não para dar uma resposta protocolar, mas para um encontro de almas.

"O Messi foi a primeira figura pública que entrevistei", recorda Manu. "Significa muito porque, para mim, é o maior que vi jogar. Mas as suas qualidades não se limitam ao relvado, também se notam fora dele. Deu-me espaço, visibilidade e mudou a minha vida. Estarei eternamente grato por tudo".

O vídeo desse encontro humanizou o Mundial e tornou-se viral em todo o mundo. O que era um trabalho independente transformou-se num fenómeno digital. Hoje, com mais de meio milhão de seguidores só no Instagram, Manu lidera uma equipa de cobertura que conta com um assistente muito especial: o seu próprio pai.

Um abraço sem fronteiras

Apesar de ter uma ligação afetiva compreensível com a delegação argentina pela generosa receção de Messi e dos seus companheiros, o carinho que Manu recebe nos corredores dos estádios vai muito além das rivalidades. E a afição brasileira, historicamente apaixonada por histórias de superação, adotou o jornalista venezuelano como um dos grandes protagonistas deste Mundial.

"Obviamente tenho uma ligação especial com a Argentina porque trataram-me muito bem e a entrevista com o Messi foi muito próxima, ele foi incrivelmente amável comigo", conta Manu. "Mas também tenho um carinho enorme pelo Brasil. Embora não partilhemos o mesmo idioma, os brasileiros abraçaram-me com muita força nas redes sociais. Quero enviar um forte abraço a todo o povo brasileiro".

Nas salas de imprensa do maior Mundial de todos os tempos, entre táticas, golos e polémicas, a simplicidade de Manu inspira e também é motor de mudança. Ensina-nos a confiar no poder transformador do microfone e na essência de um desporto que, durante todos os dias deste Mundial, tem insistido em afastar-se do que realmente é: do povo. Seja como for.

Mundial-2026

O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.

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