Recorde as incidências da partida
Durante quase duas horas, a Praça D. João I e a Avenida dos Aliados foram uma extensão do estádio onde Portugal e Espanha disputavam a passagem aos quartos de final do Mundial-2026. Havia camisolas da seleção, bandeiras sobre os ombros, famílias inteiras e grupos de amigos, mas a habitual festa deu lugar, desde cedo, a uma tensão quase permanente.
Cada aproximação à baliza espanhola levantava a multidão. Cada corte português era recebido com palmas. Cada minuto sem golos aproximava Portugal do prolongamento e prolongava também a esperança de quem, na Baixa, assistia ao jogo quase sem respirar.
“Estava convencido de que íamos para prolongamento. Já só pedia que aguentassem mais um minuto. Sofrer um golo assim é como cair quando a meta já está à vista”, afirmou Pedro Cunha, de 49 anos, ainda com a cabeça apoiada nas mãos e lágrimas nos olhos.
À entrada para os descontos, alguns adeptos já falavam na possibilidade de penáltis. Outros pediam apenas que a equipa portuguesa afastasse a bola da sua área. Faltava pouco. Alguns segundos, talvez mais um ataque espanhol. Foi então que Mikel Merino apareceu.
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Aos 90+1', o médio espanhol marcou o golo que colocou a Espanha em vantagem e transformou o ruído da praça num silêncio quase absoluto. Os braços que seguravam cachecóis caíram junto ao corpo, as bandeiras deixaram de se agitar e os rostos permaneceram presos ao ecrã, como se ninguém tivesse percebido imediatamente o que acabara de acontecer.
“Nem consegui reagir. Vi a bola entrar e fiquei parado. Durante uns segundos, ainda pensei que pudesse haver fora de jogo ou qualquer coisa que nos salvasse”, contou Luís Sevilha, adepto que assistiu ao encontro nos Aliados.
A celebração espanhola, transmitida pelas colunas, tornou o silêncio ainda mais pesado. Houve quem levasse as mãos ao rosto, quem se abraçasse sem dizer uma palavra e quem continuasse a olhar para o relógio, à procura de um tempo que já quase não existia.
“Perder custa sempre, mas desta maneira custa muito mais. Estávamos todos preparados para sofrer mais meia hora e, de repente, acabou tudo”, lamentou Anabela Castiço, envolvida numa bandeira portuguesa.
Portugal ainda tentou responder, mas já havia pouca convicção nas bancadas improvisadas da Baixa. Os últimos apelos à seleção surgiram isolados, mais por recusa em desistir do que por verdadeira crença numa reviravolta.
O apito final não provocou protestos nem revolta. Apenas confirmou aquilo que todos tinham percebido no instante em que Merino marcou.
“Agora é ir para casa. Amanhã ainda vai custar, porque ficámos a segundos de continuar a sonhar. Mas, caramba, amanhã eu vou trabalhar e no final do mês vou receber o mesmo, fazendo as coisas com sucesso. E eles? Não me conformo”, disse Henrique Pires Silva, antes de abandonar a praça com o cachecol enrolado na mão.
A multidão começou então a desfazer-se lentamente. Sem cânticos, sem buzinas e sem a pressa alegre das noites de vitória. Ficaram os passos pesados na calçada, as conversas em voz baixa e os últimos olhares para o ecrã, onde os jogadores espanhóis festejavam enquanto os portugueses permaneciam caídos no relvado.
Nos Aliados, tantas vezes palco de celebrações, não havia naquela noite nada para festejar. Apenas a dificuldade de abandonar um lugar onde, durante 90 minutos, milhares de pessoas acreditaram que o sonho podia continuar.
Na Baixa do Porto, Portugal não perdeu com um estrondo. Perdeu num minuto e saiu do Mundial em silêncio.
Mundial-2026
O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.
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