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"Pelas Malvinas, pelo Diego, pela última do Leo, Argentina, quero ver-te bicampeã mundial..." Tal como em 2022 no Catar com o êxito "Muchachos", o hino não oficial dos adeptos argentinos no Mundial-2026, "La cuarta estrella" (a 4.ª estrela), inclui uma referência às Malvinas, reclamadas pela Argentina desde a ocupação inglesa em 1833 do pequeno arquipélago do Atlântico Sul.
"No plano emocional, de certa forma Maradona vingou-nos em 1986" pela guerra, com o seu golo com a mão na meia-final contra a Inglaterra, afirma à AFP Ernesto Alonso, antigo combatente do breve conflito que causou a morte de 649 argentinos e 258 britânicos.
"Mas pronto, é um jogo de futebol. Claro que nos deixa a todos em suspense, queremos ganhar, mas não podemos transferir para a seleção nacional a responsabilidade da questão das Malvinas, pois não?", questionou.
"Malvinas Argentinas", por todo o lado
O certo é que as Malvinas estão por todo o lado, nos corações e no quotidiano dos argentinos, a um ponto difícil de imaginar noutro lugar: na Constituição, nos manuais escolares, em murais, t-shirts, tatuagens, nas laterais dos autocarros. Uma infinidade de municípios, bairros, estádios, têm o nome: "Malvinas Argentinas".
Costuma dizer-se que as Malvinas e a Albiceleste são os dois únicos temas que unem os argentinos, numa sociedade profundamente polarizada, como demonstra a sua política, frequentemente tensa. Mas 2026 não é 1986. A guerra era então recente, havia muita pressão, os antigos combatentes das Malvinas enviavam telegramas aos jogadores argentinos no México, deputados exigiam que a seleção recusasse disputar o jogo...
"Esse jogo estava contaminado". A meia-final de 2026 "tem menos peso simbólico, mas mais peso desportivo", resume para a AFP Andres Burgo, jornalista e escritor, autor do livro "El partido" sobre o emblemático jogo de 1986, adaptado ao cinema há dois meses.
Em Buenos Aires, em pleno Mundial, as salas que exibem o filme estão cheias. "O filme emociona-te, ainda mais porque nestes dias somos atravessados pelo futebol, pelas Malvinas, como sempre pelo Diego, que nos faz falta nestes momentos", comenta à saída de uma sessão Tomas Barbeito, um segurador de 33 anos.
"Ficas envolvido por tudo, é como se quisesses vingar-te de algo de que não temos de nos vingar, mas ficas envolvido. Pelo que aconteceu na história, não só pelas Malvinas, duas vezes eles (os ingleses) tentaram invadir-nos (em 1806-1807, nota do editor). E há esta rivalidade que se construiu no futebol, que permanece latente", vincou.
Sem dúvida. "El que no salta es un ingles!" ("Quem não salta é inglês!") ecoa regularmente nas bancadas da Liga argentina. E após a vitória frente à Suíça (3-1), os jogadores da Albiceleste também entoaram o cântico aos saltos, em frente à bancada dos seus adeptos.
A mesma intensidade, na verdade
Mas não haja dúvidas. Este fervor, esta paixão dos hinchas argentinos no Mundial, os cânticos incessantes, o seu talento feroz para provocar e gozar com o adversário, assemelha-se em tudo às "terraces" dos adeptos ingleses. Até nos excessos, por vezes até na violência.
"Há respeito pela cultura inglesa do futebol, são bancadas semelhantes, adeptos que viajam, os adeptos europeus não viajam, mas os ingleses sim, deslocam-se, enchem um Mundial. Alguns países não têm paixão pelo futebol, como os Estados Unidos, outros têm paixão mas não têm cultura, a Inglaterra tem ambos. E os adeptos argentinos reconhecem e respeitam isso, para lá da rivalidade e da reivindicação das Malvinas", analisa Andres Burgo.
Prova também de uma ligação antiga, muitos clubes na Argentina atestam o legado dos imigrantes ingleses que ali difundiram o futebol: River Plate, Racing, Newell's Old Boys...
"Vivem-no da mesma forma que nós, com muita paixão, muita entrega. Para lá de tudo o que aconteceu, e mesmo que pareça contraditório, eu, na verdade, até gosto dos ingleses", concordou Barbeito à saída de uma sessão do filme.
"Somos os dois países mais futebol do planeta, isso dá uma intensidade magnífica" a este jogo, entusiasma-se Ezequiel Murmis, outro espectador emocionado de "El Partido". Que confessa estar ansioso: "Estou maluco, já nem durmo."
