Mundial-2026: Sundowns vs Pirates, a rivalidade que molda a África do Sul

África do Sul perdeu na ronda inaugural
África do Sul perdeu na ronda inauguralREUTERS

Com 16 jogadores provenientes dos dois gigantes locais, Mamelodi Sundowns e Orlando Pirates, o selecionador Hugo Broos apostou numa identidade 100% local para liderar a África do Sul. No entanto, após uma derrota inaugural frente ao México e duas expulsões de peso, a estratégia de uma base doméstica já está sob forte crítica antes do duelo com a República Checa.

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Dos 26 jogadores convocados por Hugo Broos, 16 pertencem aos quadros do Mamelodi Sundowns e do Orlando Pirates, oito de cada clube. Do lado dos Sundowns: Ronwen Williams (guarda-redes e capitão), Khulumani Ndamane, Aubrey Modiba, Khuliso Mudau, Teboho Mokoena, Themba Zwane, Iqraam Rayners e Jayden Adams. Do lado dos Pirates: Sipho Chaine, Nkosinathi Sibisi, Thalente Mbatha, Oswin Appollis, Relebohile Mofokeng, Evidence Makgopa, Tshepang Moremi e Kamogelo Sebelebele. Os dois clubes que partilham a supremacia do campeonato nacional moldam os Bafana-Bafana.

Pirates campeões nacionais, Sundowns campeões continentais

Esta escolha não é inocente por parte do selecionador sul-africano: surge no final de uma época em que ambos os clubes dividiram o topo do campeonato. Na Betway Premiership, o Orlando Pirates pôs fim a 14 anos sem conquistar o título nacional ao vencer o Orbit College por 2-0, terminando a época com 69 pontos, mais dois do que os Sundowns, campeões em título. Um feito complementado por um recorde de 21 vitórias em 30 jornadas e um triplete doméstico (campeonato, MTN8, Taça) logo na primeira época do técnico Abdeslam Ouaddou, que se tornou o primeiro treinador da história do campeonato sul-africano a conquistar o título depois de perder os dois primeiros jogos da época.

Destronados em casa após oito anos de domínio, os Sundowns, treinados por Miguel Cardoso, responderam no palco que mais valorizam: o continente. Finalistas da Liga dos Campeões da CAF pela segunda época consecutiva após a derrota em 2025, desta vez mudaram o rumo frente ao AS FAR Rabat: vitória por 1-0 na primeira mão em Pretória, empate 1-1 na segunda mão em Rabate, resultado agregado de 2-1. Foi Teboho Mokoena quem marcou o golo que selou o título aos 90+7 minutos da final da segunda mão: o mesmo jogador que hoje comanda o meio-campo dos Bafana Bafana. Uma segunda estrela continental para o clube depois de 2016, tornando-o o primeiro clube sul-africano a levantar este troféu por duas vezes.

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Aposta assumida de Broos

Para Hugo Broos, esta concentração não é fruto do acaso, mas sim uma filosofia assumida. O selecionador belga aposta deliberadamente em jogadores que se conhecem e que estão habituados a jogar juntos, ao contrário dos plantéis mais dispersos das campanhas mundiais de 1998 ou 2002. Em teoria, o argumento faz sentido: a sofisticação tática adquirida pelos Sundowns nas noites continentais e a confiança renovada dos Pirates alimentam diretamente o 11 nacional. "Queremos escrever a nossa própria história", garantia Teboho Mokoena antes do Mundial, explicando que a seleção não evocou realmente a memória de 2010 e que, ao contrário do país anfitrião mexicano, não sentia qualquer pressão externa.

Contudo, a teoria ruiu logo no primeiro teste. Frente ao México, Broos surpreendeu ao alinhar um sistema com cinco defesas, deixando no banco duas peças-chave da armada dos Pirates, Oswin Appollis e Relebohile Mofokeng, precisamente os dois jogadores que deveriam representar a nova dinâmica do clube de Joanesburgo. A derrota por 2-0, agravada pelas expulsões de Themba Zwane (Sundowns) e de Yaya Sithole, médio do Tondela, reabriu de imediato o debate sobre a utilização desta base doméstica.

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Duas suspensões e muitas dúvidas

Teko Modise, ele próprio antigo jogador de ambos os clubes e agora comentador, não poupou críticas em direto na SuperSport: "Foram vocês que escolheram este onze, este sistema", atirou a Broos, considerando insustentável a ideia de que a equipa fez uma boa exibição. Benson Mhlongo, antigo capitão dos Pirates com mais de cem internacionalizações, foi mais moderado, defendendo que "o sistema não foi o problema" e que os golos sofridos resultaram sobretudo de erros individuais evitáveis.

É neste ambiente de grande tensão que os Bafana Bafana enfrentam a República Checa, esta quinta-feira no Mercedes-Benz Stadium, já com uma questão em aberto: Broos irá apostar novamente em Appollis e Mofokeng para aproveitar melhor a dinâmica do campeão nacional? O cenário complica-se ainda mais: as suspensões de Zwane e Sithole obrigam o selecionador, já muito contestado, a repensar os seus planos. Mas isso pode também abrir espaço para que mais jogadores dos Pirates conquistem o seu lugar, depois de terem ficado maioritariamente no banco frente ao México.