Mundial-2026: Zion Suzuki, um hafu na baliza do Japão

Zion Suzuki, um hafu na baliza do Japão
Zion Suzuki, um hafu na baliza do JapãoREUTERS

Nascido nos Estados Unidos, filho de pai ganês e mãe japonesa, o guarda-redes do Parma, Zion Suzuki, prepara-se para defender a baliza do Japão no Mundial-2026. Com apenas 23 anos, o jovem internacional nipónico personifica o rosto de uma nação plural, navegando entre a exigência do mais alto nível e o olhar complexo de uma sociedade nipónica ainda relutante perante as suas minorias.

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Chama-se Zion, nome americano, veste a camisola do Parma na Serie A e defende as cores dos Samurais Azuis. Aos 23 anos, Zion Suzuki tornou-se muito mais do que um guarda-redes: é a personificação de um Japão plural, aquele que a sociedade nipónica ainda tem dificuldade em aceitar plenamente.

Zion Suzuki nasceu a 21 de agosto de 2002 em Newark, no estado de Nova Jérsia. O seu pai é americano de origem ganesa, a sua mãe é japonesa. Pouco depois do seu nascimento, a família decide mudar-se para o Japão, onde cresce na prefeitura de Saitama, imbuído da cultura do país do Sol Nascente. É aí, nos subúrbios de Tóquio, que aprende a jogar futebol e integra as equipas jovens dos Urawa Red Diamonds, clube da sua cidade.

Ser hafu, termo japonês para pessoas de sangue misto, no arquipélago, é viver constantemente entre duas identidades sem que nenhuma delas o acolha por completo. A sociedade japonesa, etnicamente muito homogénea, olha para os mestiços por vezes com benevolência, muitas vezes com curiosidade e, por vezes, com hostilidade. Suzuki sentiu isso da pior forma.

A grande promessa de Urawa

Depois de toda a sua formação nos Urawa Red Diamonds, assina o primeiro contrato profissional aos 16 anos e 5 meses, tornando-se o jogador mais jovem da história do clube a atingir esse marco. A progressão é meteórica, as chamadas às seleções jovens sucedem-se, sub-15, sub-16, sub-17, sub-18, sub-23, e o nome de Suzuki já circula entre as grandes promessas do futebol japonês para a baliza.

Números de Suzuki
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Mas em Urawa, o tempo de jogo tarda a chegar. A pressão de uma massa adepta das mais exigentes do Japão, a escolha da equipa técnica em preferir um guarda-redes mais experiente, ainda hoje titular no clube, acabam por convencer o jovem guardião de que teria de sair para se afirmar. Louis Yamaguchi, guarda-redes franco-japonês do Kawasaki Frontale, analisa: "Ele tomou a decisão de sair no momento certo, porque tinha muito pouco tempo de jogo em Urawa, apesar de ser considerado uma das grandes promessas japonesas para a baliza. Mas era muito jovem, não tinha experiência".

Escolha belga, a sabedoria antes da ambição

Em agosto de 2023, o Sint-Truiden garante o seu empréstimo. O clube belga descreve-o como "um guarda-redes atlético com grande potencial de evolução". "Tinha propostas do Manchester United e de outros grandes clubes quando saiu do Japão, mas fez a melhor escolha ao passar por clubes talvez menos mediáticos para poder jogar e conquistar o seu espaço", recorda Yamaguchi.

"A escolha de passar pela Europa para evoluir é, de um modo geral, muito bem vista no Japão", continua o guarda-redes de 28 anos formado entre o FC Tóquio e o FC Lorient. "Mesmo que alguns digam que, se todos os bons jogadores saírem do Japão, nunca vamos evoluir ou conseguir impor-nos no mundo. O facto de, depois, esses jogadores poderem ajudar em grandes eventos como este Mundial, também permite dar mais visibilidade ao futebol japonês".

Resultados do Japão
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Na Jupiler Pro League, impõe-se como titular indiscutível: 32 jogos, seis jogos sem sofrer golos numa época. O desempenho é suficientemente convincente para que o clube o transfira para o Parma no verão de 2024 por cerca de dez milhões de euros, um recorde para o clube belga. À chegada a Itália, Suzuki torna-se o segundo internacional japonês a representar o Parma, depois de Hidetoshi Nakata.

Parma, a confirmação italiana

Para além das suas capacidades físicas, o guarda-redes de 23 anos destaca-se pelas qualidades de discernimento e pela mentalidade que desenvolveu na Europa, nomeadamente em Parma. Yamaguchi confirma: "É um guarda-redes completo, bom com os pés, forte na linha, que toma boas decisões".

Suzuki confidenciou numa entrevista à FIFA antes do Mundial que teve um início difícil com esta camisola: "No início, acumulava erros e nem sempre estava à altura do meu papel de último reduto". Mas considera que evoluiu desde então: "Sinto que as minhas capacidades para abordar cada situação se refinaram".

À data do Mundial-2026, Suzuki soma 57 titularidades consecutivas na Serie A. Em toda a sua passagem pelo Parma, regista 13 jogos sem sofrer golos em 59 partidas em todas as competições.

Calendário do Japão
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A fratura e o regresso

O caminho para o Mundial esteve, no entanto, perto de ser interrompido. Em novembro de 2025, num jogo frente ao AC Milan que terminou empatado 2-2, Suzuki fraturou a mão esquerda. A sua participação no Mundial-2026 ficou temporariamente em dúvida. De regresso à baliza quatro meses depois, reconhece que teve dificuldades em recuperar as sensações: "O mais difícil foi voltar ao relvado. Demorei algum tempo a recuperar as sensações".

A digressão europeia do Japão em março permitiu-lhe virar a página. Vitórias frente à Escócia (1-0) e à Inglaterra (1-0) serviram de confirmação. "Estas vitórias fora de casa contra grandes nomes europeus são muito gratificantes", recorda. Frente aos Três Leões, Suzuki defendeu 3 em 3 remates, sinal do seu regresso à melhor forma.

O número 1 lógico dos Samurais Azuis

A 15 de maio de 2026, Hajime Moriyasu inclui-o na lista dos 26 para o Mundial-2026. Os Samurais Azuis estão no Grupo F juntamente com os Países Baixos, a Suécia e a Tunísia. Para Yamaguchi, este estatuto de número 1 não deixa margem para dúvidas: "O seu estatuto de titular é lógico, visto que joga como titular num clube europeu, na Serie A. Destaca-se em relação aos outros guarda-redes convocados para a seleção, que jogam na liga japonesa. A sua ascensão na seleção foi natural porque os outros guarda-redes lesionaram-se, ficaram sem clube ou não jogavam nos seus clubes".

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A sua visibilidade também tem o seu lado negativo. Durante a Taça Asiática no Catar em janeiro de 2024, após a surpreendente derrota do Japão frente ao Iraque (2-1), Suzuki foi alvo nas redes sociais. Responsabilizado pelo primeiro golo sofrido, o guarda-redes foi alvo de comentários racistas e insultuosos. Se aceita as críticas às suas exibições, deseja que as pessoas "deixem de comentar a sua cor de pele e de fazer comentários racistas".

O seu selecionador afirmou sentir-se "envergonhado e consternado" ao ver tal onda de ódio: "O Zion é um jogador importante do Japão e oponho-me firmemente às pessoas que violaram os seus direitos humanos e o agrediram de forma racista". A federação japonesa condenou por sua vez aquilo que classificou como "comportamento vergonhoso" e reafirmou uma política de tolerância zero. Perante os microfones, Suzuki minimiza o impacto destas mensagens: "Não vou deixar que isto me vença".

O hafu que representa o Japão

Para Yamaguchi, o percurso de Suzuki vai muito além do desporto: "Ter um hafu, ainda por cima como guarda-redes, numa posição completamente diferente, com uma camisola diferente, etc. Inevitavelmente chama a atenção. Acho que é algo positivo. Eu próprio, enquanto hafu, fico contente por ver um hafu a representar o país. E ainda por cima é guarda-redes como eu".

Zion Suzuki podia ter jogado pelo Gana, pelos Estados Unidos ou pelo Japão. Escolheu o país que moldou a sua vida, sem se deixar definir pelas fronteiras de identidade que outros lhe querem impor. No Mundial deste verão, estará na baliza dos Samurais Azuis e representará um Japão em plena transformação.