O Paraguai era um com Daniel Garnero. E transformou-se em outro sob o comando de Gustavo Alfaro. A Albirroja iniciou as Eliminatórias com apenas cinco pontos nas seis primeiras jornadas. Não restavam alternativas. Uma troca de comando técnico era necessária.
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Gustavo Alfaro precisou de pouco tempo à frente da seleção paraguaia para comandar uma reviravolta. Primeiro, segurou um empate com o Uruguai em Montevidéu; logo depois, bateu a seleção brasileira em Assunção. O caminho estava aberto e, com o novo formato do Mundial, o sonho que parecia distante concretizou-se como realidade.
Sob o comando de Gustavo Alfaro, o Paraguai exibiu uma regularidade impressionante, sofrendo apenas uma derrota nos 12 jogos sob a sua gestão nas Eliminatórias. O único revés aconteceu diante do Brasil, em 11 de junho de 2025, na Neo Química Arena. Naquela ocasião, a derrota por 1-0 não apenas quebrou a invencibilidade de Alfaro, mas também garantiu matematicamente a vaga brasileira no Mundial-2026.
O Paraguai garantiu a sua vaga no Mundial ao encerrar as Eliminatórias Sul-Americanas na 6.ª posição. Esta será a 9.ª participação da Albirroja em Mundiais. Na sua última aparição, em 2010, os paraguaios alcançaram os quartos de final e foram eliminados pela campeã Espanha com um golo de David Villa na reta final da partida. Aquela foi a melhor participação paraguaia em Mundiais.

Agora, com um plantel talentoso e um sistema defensivo equilibrado, a Albirroja sonha em ir mais além. O Mundial na América do Norte não deve ser apenas um doce regresso, mas a prova definitiva de que o Paraguai recuperou o seu lugar entre os protagonistas do continente.
Para entender melhor esse contexto e conhecer mais sobre a seleção paraguaia, o Flashscore conversou com o guarda-redes brasileiro Táles Wastowski. O guardião defende as cores do Rubio Ñú na primeira divisão local e traz na bagagem a conquista histórica da Taça do Paraguai 2025 pelo General Caballero JLM — título garantido após a vitória por 0-1 sobre o 2 de Mayo.
Como joga a seleção do Paraguai?
Após confirmar a qualificação para o Mundial deste ano, o Paraguai disputou seis particulares e só obteve duas vitórias — contra o México (1-2) e Grécia (0-1). Os comandados de Alfaro registaram ainda três derrotas e um empate no último período. No último jogo da Data FIFA passada, perderam com Marrocos por 2-1.

Para Táles Wastowski, o sucesso recente do Paraguai não é por acaso. O guarda-redes, que vive a rotina do futebol local, traça um paralelo direto entre o estilo praticado no país e o futebol gaúcho, onde a força física e a entrega são inegociáveis.
"O futebol paraguaio assemelha-se muito ao futebol gaúcho; é um futebol de muita força, resistência física e vontade", explica.
"Se fizer uma análise do GPS dos atletas aqui, verá que todos têm uma quilometragem muito alta por partida", acrescenta.
Além do vigor físico, Táles destaca a componente emocional que envolve este regresso ao Mundial após 16 anos.
"O Mundial para a seleção do Paraguai é algo que parou o país, porque há muito tempo que eles não se qualificavam. Lembro-me de que, no dia em que a qualificação foi confirmada, houve festa no país inteiro", conta o guarda-redes.

Para o jogador do Rubio Ñú, o Paraguai chega ao Mundial-2026 com uma fórmula perigosa para os favoritos: o equilíbrio entre a vivência dos veteranos e a ambição de uma nova geração faminta por conquistas.
"Talvez o Paraguai não seja visto como uma grande seleção ou uma candidata ao título, mas é uma seleção que vai incomodar bastante, pois tem uma mescla de jogadores experientes com jovens que têm muita vontade de vencer e conquistar coisas grandes", projeta Táles.
Quem é a principal estrela e quem pode surpreender?
O coletivo é uma das grandes forças do Paraguai. Mais do que depender de uma única estrela, a equipa comandada por Alfaro é recheada de jogadores talentosos que podem fazer a diferença no Mundial.
O guarda-redes Táles fez uma análise conjunta de dois desses talentos, detalhando as suas funções complementares. Para o guarda-redes do Rubio Ñú, o médio Julio Enciso, do Estrasburgo, de França, é o craque e o cérebro da seleção paraguaia.
Aos 22 anos, Julio Enciso vive o seu melhor momento no futebol europeu: entrou em campo 39 vezes pelo clube francês esta temporada, somando 11 golos e cinco assistências. A veia artilheira ficou evidente na Taça de França, torneio no qual balançou as redes em seis oportunidades.

Táles também ressaltou a importância de Gustavo Gómez, um jogador que pode surpreender neste Mundial. O defesa chega para atrair a atenção dos espectadores e confirmar a fase excecional que atravessa no Palmeiras, onde mantém a regularidade ao mais alto nível por múltiplas temporadas.
"O grande jogador do Paraguai é o Julio Enciso. Ele é a grande joia do país, mas eu vejo com muitos bons olhos o Gustavo Gómez", opina o guarda-redes.
"Obviamente, são posições diferentes. O Julio é um 10 e o Gustavo Gómez é um defesa, mas ele é um tipo muito vitorioso no Brasil. É indiscutível a qualidade de um jogador que é o mais vitorioso da história do Palmeiras. Creio que é um jogador que vai surpreender no Mundial", aposta Táles.
"Eu coloco minhas fichas no Gustavo Gómez, muito pela liderança e também pela experiência que ele tem durante todos estes anos no Brasil", garante o guarda-redes.

Olho em Almirón
Miguel Almirón é outro candidato a craque paraguaio no Mundial. Pode estar longe dos holofotes da Premier League, onde se destacou pelo Newcastle, mas ainda é um jogador perigoso. Na sua segunda passagem pelo Atlanta United, da MLS, Almirón já soma 41 jogos, com seis golos e seis assistências.
Na seleção paraguaia, é a definição de versatilidade: transita com eficiência entre o meio-campo e o ataque, atuando como o motor criativo da Albirroja. Sob o comando de Alfaro, Almirón tornou-se o ponto de partida de quase todas as ações ofensivas, mas o seu impacto vai muito além da posse de bola. A entrega defensiva é notável, pressionando a saída de jogo adversária com uma maestria que dita o ritmo de intensidade da equipa.

Naturalização de Maurício
Um tema que gerou debate no Paraguai foi a naturalização do médio Maurício, do Palmeiras. A sua chegada na reta final do ciclo trouxe críticas, especialmente por não possuir uma trajetória ligada ao futebol local.
É preciso destacar, contudo, que a iniciativa partiu do próprio jogador. Nascido em São Paulo, em 2001, Maurício tem ascendência paraguaia por parte do pai, o que facilitou o processo de abraçar as raízes familiares.
Apesar da resistência de parte dos adeptos e da imprensa, Táles Wastowski vê o movimento com bons olhos.
"O Maurício é um grande jogador, um atleta de muita qualidade e que vai somar bastante para a seleção do Paraguai. Nos últimos particulares, conseguiu destacar-se", analisa o guarda-redes.
Táles Wastowski reconhece que o ceticismo inicial era esperado: "No início, isso gerou dúvidas e críticas de parte da população porque ele era um jogador que, até então, não estava a ser convocado; é um jogador brasileiro. Então, sempre havia aquela questão: 'Agora que nos qualificámos para o Mundial, ele quer jogar pelo país'. Mas nós sabemos que o Maurício é um jogador que vai agregar muito".

O guarda-redes do Rubio Ñú, inclusive, admitiu o desejo de trilhar o mesmo caminho caso surja a oportunidade no futuro.
"Com certeza eu penso nisso. Eu não tenho familiares paraguaios, mas, se não me engano, podemos naturalizar-nos depois de um tempo no país. Já estou a caminho do meu quarto ano agora e estou muito feliz aqui. Não tenho a menor dúvida de que essa é uma ideia que passa pela minha cabeça para, quem sabe, defender a seleção paraguaia", revela Táles.
Como é vivido o futebol no Paraguai?
Viver o futebol no Paraguai vai muito além das quatro linhas. É também um exercício de resistência e adaptação. Para Táles, a jornada entre as balizas paraguaias tem sido, antes de tudo, uma conquista de território e identidade.
"Quando és estrangeiro num país, principalmente eu, que cheguei sem o estatuto de muita fama, sempre gera dúvidas e uma cobrança diferente", recorda o guarda-redes. "Mas quando apresentas o teu trabalho e adquires o respeito deles, é muito bom", acrescenta.

Essa conexão com a bancada revela a face mais calorosa de uma nação apaixonada. O ambiente nos estádios, com o clássico pulsar sul-americano de bandas e instrumentos, ultrapassa a bancada e chega também ao dia a dia.
"O povo aqui é muito recetivo. No estádio, vês as crianças a querer estar perto de ti; os adultos querem falar contigo no mercado ou em qualquer lugar", conta Táles.
Apesar das dificuldades iniciais com o idioma e a insegurança, o guarda-redes hoje sente-se em casa.
"Depois de me conseguir adaptar, aprender a língua e ganhar esse respeito, hoje eu não me vejo a sair do Paraguai", assume.

À procura do seu espaço no Rubio Ñú depois de recuperar de uma pubalgia, o brasileiro não esconde que o próximo passo pode ser ainda mais ambicioso. Após bater na trave numa transferência para um gigante local no último ano, aguarda a janela de julho com otimismo.
"Jogar contra Olimpia, Cerro e Libertad é sempre prazeroso. É um sonho poder atuar numa dessas grandes equipas. Vamos ver o que acontece agora", diz.
Entre o sonho de vestir a camisola de um grande e o desejo de defender a Albirroja, Táles personifica o que o Paraguai oferece a quem se entrega ao seu futebol: a hipótese de transformar a desconfiança inicial num sólido sentimento de pertença.

Agenda do Paraguai no Mundial-2026:
13/6 (sábado)
02:00 - Estados Unidos x Paraguai (SoFi Stadium - Los Angeles)
20/6 (sábado)
04:00 - Turquia x Paraguai (Levi's Stadium - Santa Clara)
26/6 (sexta-feira)
03:00 - Paraguai x Austrália (Levi's Stadium - Santa Clara)
