Não são apenas os golos de Haaland e a força de uma Noruega que, depois de eliminar a Itália, está a fazer tremer também as seleções do Mundial-2026. A surpreendente equipa de Solbakken é mais do que isso: tornou-se um hype, um fenómeno viral entre capacetes com cornos e aquele gesto, simples, rítmico, quase hipnótico, marcado pelo ritmo do tambor após as vitórias: “RO!”, “remar!”.
Gritado por milhares de vozes e interpretado por milhares de corpos, de jogadores e adeptos, que imitam a remada viking. Um elemento ritual que liberta força como uma runa invocada por Odin, e que combina perfeitamente com os caracteres usados para escrever os nomes nas camisolas dos noruegueses criadas pela Nike e inspiradas no alfabeto rúnico do Alto Futhark.
O apelo a esse imaginário entusiasma os cultores das sagas nórdicas como o Vikings da Netflix, mas não só: cria adeptos, curiosidade e paixão. Uma iconografia e uma literatura durante muito tempo reféns da extrema-direita, como aconteceu no nazismo e nas novas correntes que a ele se inspiram, foi agora libertada por Haaland e companhia, perante os receios dos outros escandinavos mais cautelosos, que vivem essa história e esses feitos antigos quase como um peso de consciência.
Os navios do mito
Para perceber o que adeptos e futebolistas noruegueses estão realmente a imitar, é preciso começar pelos navios. Os drakkar e os knarr vikings, que eram respetivamente embarcações de guerra/exploração e de comércio. Verdadeiras obras-primas da engenharia naval da época: cascos com quilha formados por tábuas sobrepostas na chamada técnica "clinker", leves, flexíveis e capazes de navegar tanto em mar aberto como em águas rasas e rios estreitos.
Tal como os navios de Gokstad e Oseberg, na Noruega, datados do século IX e hoje preservados no Museu dos Navios Vikings de Oslo. O navio de Gokstad tinha 32 remos, 16 de cada lado, inseridos em orifícios ovais (fechados com tampas de madeira quando não estavam a ser usados, para limitar a entrada de água). Esses remos eram usados no porto, em batalha para manobras ou quando o vento faltava. Aos remos juntava-se a vela quadrada para o mar aberto. A saga de Egill e a Saga dos Ynglingar contam expedições a remos ao longo das costas e rios russos, na célebre rota dos Varegues. Esses remos são precisamente os da “Viking Row”.
A origem moderna do mito e o fenómeno de marketing
A "Viking Row" que hoje é evocada pelas multidões no AT&T Stadium e nas próprias ruas de Times Square não tem, no entanto, como gesto ritual, uma origem antiga. Foi inventada por um adepto norueguês, Ole Frøystad, que a propôs ao grupo de adeptos Oljeberget (o clube oficial de adeptos da selecção nacional masculina da Noruega) em março de 2026, ainda antes do início do torneio.
Como ele próprio contou, procurava "um cântico curto, fácil, que tivesse significado cultural e grande impacto". O gesto espalhou-se primeiro pelas bancadas e depois chegou ao relvado. Após a vitória frente ao Senegal, também os jogadores começaram a remar juntamente com os adeptos, com Martin Ødegaard a marcar o ritmo no tambor e Haaland “a remar” na primeira fila.
Daí ao salto viral foi imediato: do vídeo de adeptos noruegueses a "remar" numa escada rolante em Boston, com milhões de visualizações, à coreografia encenada no metro de Nova Iorque, em Times Square, e até no Parlamento norueguês. Depois da histórica vitória frente ao Brasil, que levou a Noruega aos quartos de final, foi o próprio Haaland a pegar no tambor para liderar a equipa.
Pode dizer-se que a "Viking Row" vista no Mundial-2026 fundiu duas tradições futebolísticas recentes das terras do Norte: o "Vikings Thunder Clap" islandês do Euro-2016, com dois toques de tambor seguidos de uma palmada, e o cântico norueguês dos adeptos do Rosenborg, usado no campeonato e na Liga Europa de 2016: "Shalala oh Rosenborg". O cântico profundo e rítmico de “Ro-Sen-Borg” que ecoava por todo o estádio fez Ole Frøystad pensar que a primeira sílaba, “Ro”, podia ser transformada num verdadeiro movimento de remada que imitava um navio viking.
Imprecisão histórica e o eterno desafio entre escandinavos
Além da origem moderna como fenómeno de marketing, alguns historiadores suecos também criticaram a evocação histórica, salientando que eram sobretudo os vikings orientais, provenientes da atual Suécia, que eram conhecidos pela navegação fluvial e costeira a remos. Eram assim que navegavam nessas longships que usavam para subir os rios em direção a Bizâncio, enquanto os vikings ocidentais, ou seja, os noruegueses, eram os grandes navegadores transoceânicos que chegaram à Islândia, Gronelândia e, até, às costas da América do Norte, utilizando sobretudo a vela em mar aberto.
Uma precisão que nasce de uma certa inveja, já que entre Noruega, Suécia e Dinamarca existe – tal como no tempo das aldeias vikings – uma rivalidade, também ela com raízes históricas. Se na época do dinamarquês Ragnar Lothbrok de Vikings (figura mais lendária do que histórica), do seu filho Björn Ragnarsson (sueco) ou do norueguês Harald Cabelo Belo, os estados da Dinamarca, Suécia e Noruega não existiam propriamente, com a identidade nacional substituída pela pertença a um determinado clã, em tempos mais recentes a Noruega esteve sob domínio dinamarquês durante quatro séculos, de 1380 a 1814, passando depois para o domínio sueco até 1905, ou seja, até à independência. Suécia e Dinamarca, por sua vez, combateram-se continuamente pelo controlo do Báltico e do estreito de Öresund entre os séculos XVI e XVIII.
Uma rivalidade que hoje se atenuou até se tornar numa inveja, pela riqueza do vizinho ou, como neste caso, pelas vitórias desportivas. Além da Noruega como seleção de futebol nos Mundiais, não esqueçamos também os troféus conquistados nos Jogos Olímpicos de inverno. Pequenos detalhes que criam frustração na vizinhança, outrora inimiga.
Porque é que a Noruega investe no mito viking e Suécia e Dinamarca não
Se a Noruega, com o seu museu de Oslo dos navios vikings como principal atração, se apresenta ao público como “terra dos vikings” em relação à Dinamarca e à Suécia, isso deve-se também ao facto de, devido à longa dominação, esse período ser simbolicamente o único em que foi protagonista e não colónia de outros no passado. Mas se a Noruega vive do mito, porque é que Suécia e Dinamarca quase o querem esquecer?
Uma coisa que me impressionou quando visitei Gotland, literalmente "a terra dos godos", salpicada de navios funerários vikings de pedra abandonados nas ervas circundantes, foi a ausência não só de marketing, mas também de cuidado ou memória desse período. Num museu ao ar livre onde eram reproduzidas todas as aldeias suecas desde a antiguidade até ao século XIX, faltava precisamente a viking. O que me pareceu estranho, e por isso perguntei aos suecos.
A questão é que, além de runas, martelo de Thor e outros símbolos vikings terem sido “apropriados” por grupos de extrema-direita e etno-nacionalistas em toda a Escandinávia, tornando mais difícil a sua adoção para evitar ambiguidades, há também uma questão política de fundo. A Suécia moderna escolheu centrar a sua “alma” no bem-estar social, progressismo, design e neutralidade, elementos que colidem com a épica guerreira.
Na Dinamarca, por sua vez, a linha é mais ténue. Roskilde e os seus navios vikings originais estão em destaque como atração museológica, algo que os dinamarqueses aproveitam para a sua componente cultural turística, mas também aqui a identidade nacional está mais ligada à monarquia, ao design e àquele sentido de conforto e bem-estar que os dinamarqueses definem como “hygge”, bem distante do machado viking e desse quotidiano de batalhas e crânios partidos.
Veremos, como já se perguntam os observadores da cultura pop, se a "Viking Row" sobreviverá depois do torneio, ou se será apenas um fenómeno ligado ao mesmo, como os cânticos de estádio de “Seven Nation Army” dos White Stripes para a Itália campeã da Europa ou “Wonderwall” dos Oasis para os ingleses, “apropriado” aliás pelo Manchester City.
Entretanto, o fenómeno serviu para libertar esse mito viking mantido timidamente escondido, devolvendo “a César o que é de César”, fora de qualquer manipulação e apropriação política indevida. Podemos, portanto, dizer que, para além do marketing e do folclore, estão a fazer o bem.
Mundial-2026
O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.
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