- Como está, Pepe? Tudo bem? Muito boa tarde. Bem-vindo ao Flashscore.
- É um prazer voltar a falar convosco. E, sim, está tudo bem.
- Foi treinador do Atlético de Madrid, que sem dúvida será o foco da nossa conversa, mas vamos também recordar o seu percurso como técnico. Orientou equipas em Espanha, mas também em vários países como Bulgária, Roménia, Catar, Tunísia... Imagino que isso lhe deu uma perspetiva muito ampla do futebol e das diferenças lógicas de trabalho em cada um desses países.
- Sim, é verdade. Poder trabalhar e treinar em diferentes países, culturas, tradições e formas de encarar a vida é importante. O que está a dizer é que o futebol não começa nem acaba em Espanha, mas há um fator muito importante quando se trabalha fora de casa, neste caso fora de Espanha, que é a capacidade de adaptação que se deve ter. É fundamental, não é? Independentemente de se conseguir ultrapassar a barreira da língua, quando se sai de casa isso é muitas vezes mais importante do que ter muitos conhecimentos de futebol ou muita experiência.
- Se me permite, quero centrar a conversa na sua passagem pelo Atlético de Madrid. Chegou mesmo a disputar um playoff com a equipa B, que foi o passo anterior à equipa principal. Mas como foi essa época, Pepe? Porque, além disso, já conviveu com jogadores que acabaram por se tornar lendas do Atleti.
- A minha passagem pelo Atlético de Madrid resume-se a três épocas dentro do clube. Todas as recordações são boas. O meu carinho pelo Atlético de Madrid mantém-se, assim como o acompanhamento. Aliás, ainda vivo em frente à cidade desportiva onde cheguei para treinar a equipa B. Fomos campeões, como disseste, os últimos campeões da Segunda B. E, relativamente à equipa principal, que talvez seja a fase mais marcante, é verdade que tive a sorte e a possibilidade de treinar jogadores como o Antonio López, Leo Franco, Ibagaza e, sobretudo, o Fernando, não é? O Fernando Torres, que como sabemos, enquanto jogador ganhou tudo e hoje é um verdadeiro ícone para o Atlético de Madrid e para todos os jovens das camadas de formação. Porque talvez o seu papel de liderança, exercido desde tão jovem, mostre-nos que a juventude não é incompatível com personalidade, carácter e capacidade individual de um jogador.
- Já que falamos do Niño Torres, vemos que o Atleti está em lugares de playoff a poucas jornadas do fim. Parece que o está a imitar um pouco. Como jogador sabemos o que foi no Atleti e na seleção espanhola. Mas, como o vê enquanto treinador?
- Tive a sorte de falar com ele, até de assistir a um treino seu. Vi a sua equipa três ou quatro vezes na época passada e tudo o que vi agradou-me. Além disso, tem algo muito positivo: começou, por exemplo, a treinar os juniores, sem pressa para chegar à equipa B. Sei que tanto nos juniores como na equipa B está a trabalhar a um nível profissional, como sempre entendeu o futebol. Acho que está a cumprir com distinção a missão de formar e classificar. E se nada o travar e ele não tiver pressa, acredito que chegará a treinar na Primeira Divisão, seja em Espanha ou noutro país. Penso que não deve ter pressa para chegar à equipa principal do Atlético de Madrid, até deveria experimentar fora, fora do clube ou até fora do país.
- A dimensão de Simeone é enorme neste momento. Infelizmente para o Atleti, perdeu recentemente a final da Taça em Sevilha, frente à Real Sociedad. Mas está com hipóteses de jogar uma final da Champions. Como vê Simeone, tão forte como sempre?
- Vejo-o tão forte como sempre. A sua dimensão é grande. Não é só porque o digo, mas porque o tempo o demonstra. E o que conseguiu dentro do clube enquanto treinador. Neste momento vejo-o bem, porque é alguém que não se permite relaxar nem um pouco. Pode agradar mais ou menos, mas ele tem uma enorme clareza sobre como alcançar os objetivos, neste caso os resultados, tanto a curto como a longo prazo. A permanência tão longa deu-lhe o suporte necessário para que todos dentro do clube confiem na sua forma, no seu estilo, na sua maneira, na sua personalidade. E depois, como digo, pode agradar mais ou menos, mas isso já depende das opiniões.

- Falemos da Champions, que é o grande sonho do Atlético de Madrid. Está a um passo de chegar à final. Como vê, Pepe, esse emocionante jogo da segunda mão em Londres na próxima terça-feira?
- Bem, primeiro vou falar do jogo da primeira mão, porque acho que resumiste bem, mas também temos de ter em conta que ontem (quarta-feira), se houve algo, na minha opinião, foi algo diferente do que se podia esperar do Arsenal. Porque o Arsenal sempre foi uma equipa que jogou bem ao ataque, até um pouco leve, e ontem abdicou de muitas coisas para evitar que o Atlético de Madrid pudesse explorar o contra-ataque, os espaços, os tempos e a velocidade. Conseguiu tapar tudo isso. Deixou de fazer algumas das coisas pelas quais sempre foi identificado, mas, mesmo assim, correu-lhe bem ao abdicar. Porque se olharmos para a história e virmos que o Arsenal chegou sempre a boas fases, a últimas eliminatórias, mas nunca deu o salto definitivo, nem sequer na final da época 2005-06, em que começou a ganhar e acabou por perder frente ao Futebol Clube Barcelona. Portanto, a primeira surpresa que tive foi ver que o Arsenal soube adaptar-se ao que podia esperar e ao que encontrou no Metropolitano. O resultado parece-me justo, porque se a do Griezmann entra, estaríamos a falar de outra coisa. Mas o resultado reflete, tal como o do PSG-Bayern, o equilíbrio com estilos, formas, estruturas diferentes, tudo diferente, mas há um denominador comum: a igualdade. Isto quer dizer que, independentemente dos gostos que possamos ter, a igualdade entre as quatro equipas que chegaram às meias-finais é evidente. Olhando para o jogo, acho que, como indica o resultado, há um equilíbrio enorme. Não acredito que o fator casa possa pesar ao Atlético de Madrid, porque estes jogadores estão habituados a jogar em todo o tipo de ambientes. Aliás, a do Arsenal não é propriamente uma massa adepta que pressione muito, não é um estádio quente como pode ser Anfield, por exemplo, ou o Metropolitano. Por isso, ao fator casa não quero dar grande importância. Acho que o mais importante será o Atlético de Madrid mostrar a personalidade que mostrou na segunda parte, porque esse caminho pode levá-lo à final.
- Espera uma segunda mão longa, que possa ir além dos 90 minutos regulamentares?
- Sim. Não sei por que razão me fez essa pergunta, mas quando acabou o jogo estive a pensar nisso, estive a comentar e acho que vão ser duas eliminatórias longas, tanto a do Bayern-PSG como esta. Mas, focando-nos na do Atlético de Madrid, se repararmos, o resultado de 1-1 no Metropolitano e os dois golos surgiram de penálti, veja-se o equilíbrio, num jogo em que penso que houve entre 29 e 30 remates à baliza, os golos foram conseguidos de bola parada e, neste caso, através do penálti.
- Faço-lhe a última, centrados nesse jogo. O Atleti deve esperar pelos penáltis ou evitá-los a todo o custo, se puder? Mudo a pergunta. Tendo em conta o passado recente, deve esperar pelos penáltis ou isso não se pode medir?
- Ora bem, não se pode medir, mas eu gostaria, desejava, que não chegasse aos penáltis. Sobretudo porque os penáltis, independentemente de já termos perdido várias decisões, sabemos que são uma lotaria. Acredito que há capacidade para vencer esse jogo e oxalá cheguemos à final. Porque lembro-me que há uns anos escrevi um artigo publicado no Mundo Deportivo onde disse que o futebol devia algo ao Atlético de Madrid. Penso que foi depois da de Milão. E agora acho que vou mudar um pouco o discurso, mas com o mesmo objetivo: o Atlético de Madrid deve a si próprio um triunfo na Champions, porque já tivemos oportunidade e agora temos de ir atrás disso. Já não acho que o futebol nos deva nada. Somos nós que nos devemos um título.
