Opinião: Florentino Pérez ou a arte de marcar na própria baliza

Florentino Pérez, presidente do Real Madrid
Florentino Pérez, presidente do Real MadridREUTERS/Violeta Santos Moura

Na terça-feira, Florentino Pérez protagonizou um espetáculo ridículo numa conferência de imprensa de emergência transmitida por toda a Espanha. Delírio de perseguição, monólogo, teimosia até ao fim: o presidente do Real Madrid acrescentou crise à crise, numa total falta de preparação. A sua vontade de retomar o controlo com eleições antecipadas é uma jogada de risco calculada que dificilmente perderá, mas que pode levantar dúvidas entre todos os sócios.

Florentino Pérez não dava uma conferência de imprensa a solo há 11 anos. E depois da sua prestação, percebe-se porquê. Durante uma hora, o presidente do Real Madrid ofereceu um espetáculo patético, anunciou novas eleições sem indicar qualquer data, apontou o dedo a jornalistas de forma pessoal, baralhou-se, repetiu-se inúmeras vezes num monólogo algures entre o capitão Ahab e Dom Quixote. Ninguém percebeu verdadeiramente se perseguia uma baleia branca ou se queria lutar contra moinhos de vento. Uma coisa é certa: ridicularizou-se.

A imprensa da capital espanhola nunca foi particularmente agressiva para com a 10.ª maior fortuna de Espanha. Ao contrário de Barcelona, onde tudo se sabe antes dos anúncios oficiais, os rumores são raros em Madrid e, quando surgem, é sinal de que há problemas. Nada de surpreendente. O próprio Pérez admitiu, em áudios autênticos mas ilegais, que controlava muitos jornalistas. Atacado pelo presidente merengue, Juanma Castaño (Cadena COPE) confirmou ter divulgado poucos desses áudios, num claro sinal de auto-censura. O jornal ABC também não escapou, sobretudo María José Fuenteálamo, cuja menção por Pérez resultou num comentário sexista. Não foi a única a ser alvo de observações machistas, já que Lola Hernández, da Fox, também percebeu que Pérez vive preso a outros tempos. O potencial adversário nas eleições, Enrique Riquelme, foi igualmente desvalorizado devido às suas origens, o que é especialmente grave num clube que se quis afirmar como símbolo da luta contra o racismo e a discriminação após os insultos racistas dirigidos a Vinicius.

Esta conferência de imprensa deveria ter servido para apagar a crise e mostrar que o clube estava novamente sob controlo do presidente. Não foi isso que aconteceu. Pelo contrário, agravou ainda mais a situação. Naturalmente, falou do caso Negreira, cuja investigação já foi prolongada várias vezes sem que se tenha encontrado nada de relevante, afirmou que lhe roubaram sete Ligas (a minha cassete, a minha cassete, diria Harpagon), que o Real Madrid é o clube mais forte, mais bonito, mais rico, mais seguido do mundo, mas que todo o mundo está contra si e que o planeta inteiro lhe guarda rancor pessoalmente.

Segundo os seus próprios cálculos, 18 pontos teriam sido retirados à sua equipa esta época. Porque não 25 já agora? Os incidentes entre Aurélien Tchouaméni e Fede Valverde e o estalo de Antonio Rüdiger a Álvaro Carreras? Isso acontece todos os anos e o mais grave nem é a violência, mas sim as fugas de informação. Aliás, a LaLiga não gosta do Real Madrid, há jogadores do balneário que não gostam do Real Madrid, os adeptos não gostam do Real Madrid porque se atrevem a assobiar exibições medíocres depois de pagarem quotas ou bilhetes a preços exorbitantes.

Em resumo, o único que gosta do Real Madrid é ele próprio. E nem pensar em fazer autocrítica, mesmo com uma época desastrosa, a massa salarial a disparar, o contrato com a Sixth Street prestes a ser renegociado em baixa porque os concertos previstos na capital passaram para o Metropolitano. A chegada de José Mourinho é cada vez mais provável, sinal de que o modelo de decisão está mais de dez anos atrasado.

A cegueira de Pérez leva-o a colocar o seu mandato em jogo (sem qualquer alteração na direção) sem grandes riscos, já que endureceu as regras para se poder candidatar contra si, com o aval dos sócios (20 anos de sócio sem interrupções, garantia de 187 milhões de euros em bens pessoais). Aos 79 anos, já teve sucesso suficiente para preparar um sucessor e sair com a dignidade que o seu estatuto exige. Em vez disso, arrisca-se a deitar tudo a perder devido à sua teimosia. A UEFA não teve coragem suficiente para sancionar a tentativa de golpe com a Super Liga. Serão os sócios madridistas a fazê-lo ou decidirão renovar a confiança num homem que terá 82 anos em 2029 e que há muitos anos se colocou contra todos?

Para tentar remediar a situação, Pérez concede esta quarta-feira à noite uma entrevista a Josep Pedrerol, apresentador do Chiringuito, num formato que será certamente muito mais controlado e consensual. Mas é difícil acreditar que isso vá salvar as aparências.