Ir para o conteúdo principal

Antigo capitão da Austrália alerta para risco de CTE e pede limites aos cabeceamentos no futebol jovem

Paul Wade a enfrentar a lenda do futebol Diego Maradona em 1993.
Paul Wade a enfrentar a lenda do futebol Diego Maradona em 1993.JULIAN ZAKARAS / AFP

O antigo jogador, de 64 anos, afirma ter "provável" encefalopatia traumática crónica (CTE) e decidiu tornar pública a notícia para ajudar a sensibilizar para esta condição.

A CTE é uma lesão cerebral neurodegenerativa causada por traumas repetidos na cabeça e que, normalmente, só apresenta sintomas muitos anos, por vezes décadas, após a origem do problema. 

Sabe-se que impactos repetidos na cabeça provocam o acumular de proteínas anormais no cérebro de muitos atletas envolvidos em desportos de combate, como o boxe, râguebi de treze e de quinze, bem como futebol americano (NFL) e futebol australiano (AFL), levando à morte de células cerebrais que resulta numa combinação de défice cognitivo e/ou problemas psiquiátricos. 

Só é possível diagnosticar de forma definitiva esta condição após a morte, através de um exame detalhado ao cérebro, mas o conhecimento e a sensibilização para a doença têm vindo a aumentar graças à doação altruísta de cérebros feita por atletas a cientistas após o seu falecimento. 

O antigo treinador vencedor da NRL Premiership, Paul Green, foi diagnosticado com CTE grave após a sua morte em 2022, tal como o jovem de 20 anos Keith Titmuss, dos Manly Sea Eagles, que faleceu devido a um golpe de calor em 2020, enquanto a lenda da liga Wally Lewis acredita estar a lutar contra sintomas da doença. 

Pelo menos 33 antigos jogadores de futebol australiano foram diagnosticados de forma definitiva, após a morte, com CTE pelo Australian Sports Brain Bank, que foi descrito pelo Professor Alan Pearce, no início deste ano, como "uma doença ambiental evitável".

Wade foi inicialmente diagnosticado com uma doença neurodegenerativa em 2024, após o aparecimento dos sintomas, tendo a sua condição sido redefinida como 'provável CTE' em 2025. 

Contou à ABC Radio que os seus entes queridos começaram a preocupar-se com a sua saúde neurológica quando, em 2024, começou a ter mudanças de humor pouco habituais, como confrontos anormalmente agressivos com a sua mulher e amigos por questões insignificantes. 

Apesar de não existir cura conhecida para a CTE, os sintomas podem ser controlados com vários tratamentos, e Wade revelou na quarta-feira que está a tomar medicação com sucesso para atenuar as suas mudanças de humor.

O antigo capitão dos Socceroos, que liderou a equipa durante seis anos na década de 1990 e disputou mais de 200 jogos de clube pelo South Melbourne FC, afirmou que a perda de memória também lhe custou oportunidades de trabalho. 

"Esquecia-me de coisas simples como uma chamada telefónica. E para quem diz 'então porque não apontavas na agenda?', eu escrevia, mas depois esquecia-me de consultar a agenda no dia seguinte."

Wade acredita que os anos a cabecear bolas, tanto nos treinos como nos jogos, contribuíram mais para a sua condição do que as concussões e choques de cabeça em campo, embora discorde da ideia de que as bolas de couro do século XX eram o problema, defendendo que é preciso agir em 2026 para evitar que a próxima geração de futebolistas passe pelo mesmo.

Naquela altura, os guarda-redes chutavam sempre a bola para o ar. Ninguém lançava a bola com as mãos. E como jogava no meio-campo, provavelmente era dos poucos que estava disposto a cabecear. Desde o início, percebi que conseguia cabecear uma bola – mesmo que fosse com o topo da cabeça, onde doía. Sentia simplesmente que era algo que conseguia fazer. E, à medida que fui envelhecendo, quanto mais o fazia, mais precisão tinha nos cabeceamentos, e mais pessoas diziam: ‘Sim, o Wadey sabe cabecear. Isto é mesmo fixe’. E depois comecei mesmo a gostar. ... As pessoas têm de perceber... não é preciso ter uma concussão para se ter CTE”, contou ao Sydney Morning Herald.

Quando questionado sobre que medidas gostaria de ver implementadas para ajudar a prevenir futuros casos de CTE entre futebolistas, Wade sugeriu que a ação de cabecear repetidamente uma bola deveria ser limitada, especialmente entre crianças.

"Às pessoas que fazem as regras, temos de encontrar formas de tornar isto mais seguro. Se pudesse dizer à Football Australia, ou até à FIFA, se estiverem a ouvir, vamos criar alguns protocolos porque já existe tudo sobre concussões. Não se fala sobre a CTE e sobre como podemos mudar o jogo, mudar os treinos e mudar a idade para que seja minimizado, para não expormos as crianças à CTE", afirmou.

"Alguém tem de dizer que não. As crianças estão... a cabecear bolas com 12 anos ou menos. Talvez possamos dizer 'não cabecear a bola antes dos 12 ou 14 anos, ou não cabecear nos treinos'", rematou.