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Abandono de Ronaldo é "terramoto" económico e pode custar patrocínios, diz especialista

Cristiano Ronaldo abandonou concentração da seleção nacional na quarta-feira
Cristiano Ronaldo abandonou concentração da seleção nacional na quarta-feiraSoccer Images / Shutterstock Editorial / Profimedia

O abandono do estágio da seleção nacional por Cristiano Ronaldo é um "terramoto" económico, que ameaça provocar o cancelamento de patrocínios e "minguar" a marca da Federação Portuguesa de Futebol, alertou esta quinta-feira o especialista em marcas Carlos Coelho.

Em declarações à agência Lusa, o presidente da consultora de branding Ivity Brand Corp considerou que a crise aberta com a saída do capitão de equipa representa uma "perda de valor imensa", que nenhum resultado desportivo conseguirá estancar, criticando a "cegueira de autoridade" com que o principal ativo do futebol nacional foi gerido.

"A marca da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) mingua muito, portanto, tem-se um retrocesso muito significativo com este acontecimento inesperado e muito mal gerido do ponto de vista do valor ou da perda de valor que isso significa", afirmou Carlos Coelho, sublinhando que a desvalorização do produto FPF é inevitável quando se perde um dos ativos de maior notoriedade mundial.

O especialista explicou que o impacto não coloca em causa a continuidade nem o futuro desportivo da equipa das quinas, mas afeta diretamente a vertente económica e comercial do futebol.

"Não é um terramoto no sentido em que desmorona a seleção, não vai deixar de existir, vai continuar, vai jogar, se Deus quiser vai ganhar. Não é isso que está em causa, o que está em causa é uma desvalorização de uma marca. De um momento para o outro perde um dos seus ativos", salientou, acrescentando que "há centenas de milhões de pessoas no mundo que veem Portugal jogar apenas por causa de Cristiano Ronaldo, não querem saber se ganha ou perde".

Para o consultor, o afastamento do futebolista do grupo de trabalho atinge o coração financeiro da FPF numa altura em que "o futebol deixou de ser desporto para ser uma indústria bilionária", cuja sustentabilidade depende da capacidade de ampliar audiências.

"Ponham-se no lugar de um patrocinador que assinou contrato na perspetiva de associar a sua marca a estes ativos. Têm mais do que motivo para dizer que os pressupostos mudaram e exigir reuniões, até ao limite de cancelarem contratos. O interesse dos portugueses pela seleção pode subir, mas o desinteresse do mundo vai aumentar", advertiu.

Sublinhando o paralelo com uma deslocação do Al Nassr à China — em que a ausência do internacional português fez descer a assistência no estádio de 55 mil para cinco mil espetadores —, Carlos Coelho sustentou que o alcance internacional da equipa das quinas sofre um “retrocesso muito significativo”.

O especialista criticou a forma como o processo foi conduzido, alinhando com posições como as do ex-treinador Alex Ferguson, para quem a desvalorização do jogador constitui "uma destruição de valor" evitável.

"O maior ativo de sempre do futebol português devia ser tratado com respeito e cuidado. Se tem 41 anos, não pode ser gerido, nem desportivamente, nem comunicacionalmente, como um jovem de 17. O que aconteceu foi uma prova de falta de autoridade", sustentou, em referência ao selecionador Jorge Jesus.

Carlos Coelho defendeu ainda que eventuais bons resultados desportivos não serão suficientes para travar o impacto no mercado internacional, sendo urgente desenhar uma nova abordagem institucional para o atleta.

"Isto não se resolve com bons resultados, porque o resultado só interessa aos portugueses. A única forma de mitigar o efeito é encontrar um lugar para Cristiano Ronaldo na estrutura da seleção — que não precisa de ser no relvado, mas onde o banco não é de certeza” —, através de uma solução diplomática que dignifique o papel que desempenhou ao longo de 20 anos ao serviço do país, sustentou.

Em sentido inverso, o especialista antevê que a marca pessoal do jogador vai sair blindada, beneficiando do próprio impacto mediático do caso.

"A marca Ronaldo não perde. Teve até um boost, abriu os telejornais do mundo e fez manchetes globais. A grande polémica é de consumo interno. Ronaldo continua a ser um embaixador informal com mais alcance diplomático e económico do que qualquer campanha do país", rematou.

A tomada de posição junta-se aos avisos do diretor-executivo do Instituto Português de Administração de Marketing (IPAM), Daniel Sá, que em declarações à Lusa descreveu o capitão como "a maior marca que Portugal já teve", exortando a FPF a encontrar uma estratégia de transição para mitigar a perda de visibilidade global.

Cristiano Ronaldo abandonou na quarta-feira o estágio da seleção nacional na véspera do embate contra a Dinamarca, para a Liga das Nações, encerrando de forma conturbada uma ligação de 23 anos à equipa das quinas e arriscando sanções disciplinares.

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