Recorde as incidências da partida
A 11 de maio de 2025, foi capitã do Sporting numa vitória sobre o Marítimo (0-3). A 18 de outubro de 2026, entrou aos 79 minutos no triunfo do Benfica, também frente ao conjunto madeirense (0-4). Entre os dois encontros passaram 525 dias, uma transferência que deu que falar e uma grave lesão que a obrigou a enfrentar um dos maiores desafios da carreira.
Pelo meio, ainda representou Portugal no Europeu de 2025, mas foi na Madeira que se fecharam e abriram dois capítulos da sua história no futebol de clubes.
Onze minutos. Foi esse o tempo que teve para matar saudades de uma sensação que conhece desde criança. Pode parecer pouco para quem já pisou alguns dos principais palcos do futebol europeu, mas foi suficiente para transformar aquele domingo num dos momentos mais especiais de uma carreira com mais de duas décadas.
"Se há um dia que vou guardar para sempre, é este. Hoje é o dia mais feliz da minha vida", escreveu Ana Borges nas redes sociais, depois de finalmente cumprir a estreia oficial pelo Benfica.
É uma frase que ajuda a compreender o significado do regresso. Porque, para contar esta história, é preciso recuar muito mais do que 525 dias. É preciso voltar a Vinhó, uma pequena localidade do concelho de Gouveia, onde tudo começou.
Calças de ganga e botas no primeiro treino
Antes dos estádios cheios, das internacionalizações e dos títulos, houve uma menina tímida, de poucas palavras, que encontrou no futebol de rua uma forma de se expressar.
Ana Catarina Marques Borges nasceu a 15 de junho de 1990, numa família humilde e unida, onde cresceu rodeada pelos irmãos. Os recursos eram limitados, mas não faltavam os valores que acabariam por acompanhar toda a sua trajetória.
O futebol surgiu naturalmente, entre amigos e vizinhos, numa altura em que as oportunidades para as raparigas eram muito diferentes das que existem atualmente. Ana passava grande parte do tempo com os rapazes, destacava-se pela velocidade e pela facilidade com que ultrapassava os adversários. Nem sempre precisava de ser a mais forte. Bastava-lhe ser a mais rápida.

Curiosamente, a passagem do futebol de rua para uma estrutura organizada não foi imediata. Habituada a jogar sem horários nem grandes preocupações, a jovem Ana não mostrou particular entusiasmo quando surgiu o convite para representar a Fundação Laura Santos. Foi Sílvia Rebelo, amiga de infância e futura companheira na seleção nacional, quem a incentivou a experimentar.
A estreia nos treinos não podia ter sido mais improvável: Ana apareceu de calças de ganga e botas, longe do equipamento habitual de uma futebolista. O que começou quase por acaso acabaria por mudar-lhe a vida.
Na Fundação Laura Santos encontrou muito mais do que uma equipa. Descobriu um espaço de aprendizagem e crescimento, onde começou a transformar o talento natural numa carreira que a levaria muito além das fronteiras da pequena localidade beirã.
Abriu portas à jogadora portuguesa no estrangeiro
A primeira grande decisão chegou ainda na adolescência. Com apenas 17 anos, Ana Borges deixou Portugal para representar o Prainsa Zaragoza, em Espanha.
Foi uma mudança radical. De uma pequena comunidade onde todos se conheciam para um país diferente, longe dos pais, dos irmãos e dos amigos. Numa altura em que o futebol feminino português estava distante da realidade profissional que hoje conhecemos, sair do país era uma das poucas formas de procurar melhores condições.
A aventura, contudo, esteve longe de ser fácil. As saudades da família, a distância e a adaptação a uma realidade desconhecida fizeram-na questionar a decisão. Foi um daqueles momentos em que o sonho esteve perto de perder para a vontade de regressar ao conforto de casa. Mas Ana voltou. E continuou a abrir caminho.
A passagem por Espanha foi apenas o início de uma aventura internacional que também incluiu os Estados Unidos e Inglaterra, onde representou o Chelsea e conquistou títulos.
Numa geração em que muitas futebolistas portuguesas tiveram de procurar oportunidades fora do país, Ana Borges assumiu um papel importante na afirmação do talento nacional além-fronteiras. A menina de Vinhó, que começara a jogar por diversão, transformava-se numa referência do futebol português.

Nove anos de leão ao peito e uma despedida inesperada
Em 2016, Ana Borges tomou outra decisão marcante. Deixou Inglaterra para regressar a Portugal e representar o Sporting, clube pelo qual sempre assumiu uma ligação emocional muito forte. A aposta coincidiu com o relançamento da equipa feminina dos leões e revelou-se decisiva para ambas as partes.
Ao longo de nove temporadas, Ana tornou-se uma das principais figuras do projeto. Conquistou dois campeonatos nacionais, três Taças de Portugal e três Supertaças, assumiu a braçadeira de capitã e tornou-se a futebolista com mais jogos pelo clube.
Foram 216 encontros oficiais, 32 golos e 21 assistências. Números que ajudam a dimensionar o legado, embora não contem toda a história. Ana tornou-se uma referência no balneário, sobretudo para as jogadoras mais jovens. Mas os ciclos, mesmo os mais felizes, também chegam ao fim.
Em maio de 2025, o Sporting anunciou a saída da sua capitã. Não houve renovação de contrato e, depois de nove anos, Ana Borges viu-se obrigada a procurar um novo rumo.
A despedida teve um peso especial pela ligação afetiva ao clube. Durante muito tempo, vestir de verde e branco fora mais do que uma escolha profissional. O destino, porém, reservava-lhe uma surpresa.
O Benfica apresentou uma proposta e Ana Borges aceitou atravessar a Segunda Circular para representar o grande rival. Uma transferência que, pelo passado da jogadora, inevitavelmente provocou reações.
A própria explicou, ainda antes de iniciar a nova etapa, que não tinha sido sua a decisão de deixar o Sporting. Depois de ficar sem clube, encontrou no Benfica a oportunidade de continuar a carreira ao mais alto nível.
"O que posso dizer é que fui dispensada, estava no desemprego. O Benfica chegou-se à frente e não havia como recusar", assumiu.
Aos 35 anos, preparava-se para um novo desafio. Depois de tantos anos como símbolo leonino, teria agora de conquistar o seu espaço numa realidade diferente. Só que o futebol tinha outros planos.

Lesão atrasou a estreia no Benfica
A 4 de agosto de 2025, o Benfica anunciou que Ana Borges tinha sofrido uma lesão no ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo. Era um golpe particularmente duro para uma jogadora que acabara de abraçar um novo projeto e se preparava para iniciar mais uma temporada ao mais alto nível.
A internacional portuguesa foi obrigada a enfrentar uma intervenção cirúrgica e um longo processo de reabilitação. O sonho de representar o Benfica ficou suspenso antes mesmo de se concretizar dentro das quatro linhas.
Nas redes sociais, Ana não escondeu a dificuldade em aceitar o diagnóstico. Reconheceu que a situação era dolorosa, mas deixou clara a determinação em recuperar e regressar com a mesma ambição.
"Não é fácil, custa aceitar... mas faz parte da vida de quem escolhe o desporto como profissão. Agora, é focar na recuperação, estar ao lado das minhas colegas e fazer tudo para voltar com a mesma força, ambição e vontade de sempre", escreveu.
Seguiram-se meses longe da competição. Meses de recuperação física, de trabalho longe dos holofotes e de espera por uma oportunidade para voltar a fazer aquilo que sempre fez. Aos 35 anos, idade em que muitas futebolistas já começam a pensar no final da carreira, Ana Borges tinha um objetivo bem definido: voltar. E voltou.

O regresso à Madeira e o reencontro com a felicidade
O futebol tem coincidências que parecem escritas de propósito. A última partida de Ana Borges pelo Sporting tinha sido a 11 de maio de 2025, na Madeira, frente ao Marítimo. O destino quis que a estreia oficial pelo Benfica acontecesse 525 dias depois, precisamente no mesmo arquipélago e diante do mesmo adversário.
Desta vez, Ana começou no banco. O Benfica construiu uma vantagem confortável e, aos 79 minutos, Ivan Baptista chamou a internacional portuguesa. Não houve golo, nem assistência. Não foi preciso.
O simples gesto de voltar a pisar um relvado num encontro oficial representou uma vitória pessoal muito maior do que aquilo que os números conseguem traduzir.
Onze minutos depois, o árbitro apitou para o final. O Benfica venceu por 0-4, mas, para Ana Borges, aquele jogo terá ficado guardado por razões que ultrapassam largamente o resultado.
Aos 36 anos, Ana Borges já não precisa de provar o lugar que conquistou na história do futebol português. O que procura agora é aproveitar uma oportunidade que chegou mais tarde do que desejava.
Talvez esteja aí a maior vitória do regresso daquela menina de Vinhó que preferia passar as tardes a jogar à bola com os amigos.
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