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Ana Alves: "Há muita qualidade nas novas gerações de guarda-redes portuguesas"

Ana Alves assinou pelo Famalicão
Ana Alves assinou pelo FamalicãoArquivo Pessoal, Flashscore

O Flash Feminino é a rubrica do Flashscore dedicada a destacar as principais protagonistas das Ligas Femininas em Portugal. Neste espaço, damos voz às jogadoras que brilham nos relvados nacionais. A nossa 45.ª convidada é Ana Alves, guarda-redes do Famalicão.

Do ballet ao futebol: "Ficava chateada quando não me deixavam ir para a baliza"

- Como é que uma menina de Santa Catarina da Serra se apaixonou pelo futebol?

Daquilo de que me lembro e do que os meus pais contam, tenho uma prima da minha idade, de quem sou muito próxima, que se inscreveu no ballet. Na altura, os meus pais tiveram a ideia de me inscrever também. Mas rapidamente percebi que não era bem aquilo que queria. A minha mãe via-me muitas vezes a jogar futebol em casa e acabou por decidir inscrever-me.

Primeiro, perguntou no Centro Desportivo de Fátima, porque tinha ouvido dizer que havia futebol misto. Os meus primeiros seis meses no futebol foram lá. Depois, quando entrei para a escola, passei para o União da Serra, porque ficava muito mais perto de casa. Foi aí que comecei verdadeiramente a dar os primeiros passos.

- E jogava com os rapazes, até aos 15 anos. Como recorda esses primeiros tempos? Sentia que tinha de provar alguma coisa por ser rapariga?

Não. Como eram meus amigos da escola e fazíamos todos parte do mesmo grupo, sentia-me tranquila. Obviamente, no início havia sempre um ou outro comentário por ser uma rapariga a jogar futebol. Não eram comentários muito fortes ou agressivos, mas era algo diferente, fora do habitual. Eu só pensava em divertir-me. 

Ana Alves começou a jogar no União da Serra
Ana Alves começou a jogar no União da SerraArquivo Pessoal

- E a posição de guarda-redes? Foi sempre essa a sua preferência?

O meu pai também foi guarda-redes, embora num contexto mais ligado ao clube da terra. Por isso, desde pequena que pensava em ser guarda-redes. Houve uma altura, no meu último ano de traquinas, em que decidi que queria jogar à frente. Lembro-me de pensar: "Este ano vou jogar só à frente."

Mas depois passámos para os benjamins e a baliza já era ligeiramente maior. Olhei para ela e pensei: "Esta baliza já dá para me atirar, já dá para cair. Agora vou para a baliza." E, a partir daí, fiquei na baliza. Aliás, às vezes até ficava chateada nos treinos quando o treinador não me deixava ir para a baliza ou fazer treino específico de guarda-redes.

- Além do seu pai, tinha alguma referência na posição? Algum guarda-redes que admirasse e quisesse imitar?

Nunca fui muito de ver futebol e não me lembro de muitos jogos dessa altura, mas, daquilo que via, diria que o Rui Patrício era uma das referências. Ainda assim, acho que a minha maior referência era o facto de o meu pai também ter sido guarda-redes. E havia qualquer coisa dentro de mim que me dizia: "Gosto mesmo desta posição. É aqui que quero jogar."

- Santa Catarina da Serra pertence ao distrito de Leiria, uma região que tem dado vários guarda-redes ao futebol português. Parece haver aí uma apetência especial para a posição...

Por acaso, Leiria tem vindo a ter muito bons guarda-redes, tanto no futebol feminino como no masculino.

Ana Alves passou três anos no Sporting
Ana Alves passou três anos no SportingArquivo Pessoal

"O Sporting foi a oportunidade da minha vida"

- Em 2020, surge a oportunidade de representar o Sporting. Tinha apenas 14 anos. Como aconteceu essa mudança e o que sentiu quando percebeu que podia jogar num clube daquela dimensão?

Na minha primeira época de iniciados, salvo erro, fui convocada para a seleção, mesmo no final da temporada. A partir daí, comecei a permitir-me sonhar um bocadinho mais alto no futebol. Senti que se tinha aberto uma porta.

Em março do ano seguinte, o Sporting convidou-me para fazer um treino à experiência. Fui integrar o grupo, treinei com a equipa e, pelo que percebi, gostaram muito de mim e acharam que tinha qualidades para jogar no clube. Entretanto, surgiu a Covid-19.

Ainda antes de receber o convite do Sporting, já tinha decidido que aquela seria a minha última época a jogar com os rapazes. Na altura, dizia-se que os sub-15 eram o último escalão em que podia haver futebol misto.

Já me tinha preparado para essa despedida. Até fiz uma publicação no Instagram a agradecer ao União da Serra. Afinal, tinham sido dez anos no clube da minha terra, ao qual ficarei eternamente grata. Pouco tempo depois, recebi uma mensagem, salvo erro, do departamento de scouting do Sporting, a dizer que estavam interessados em mim.

- Ou seja, despediu-se do União da Serra sem saber exatamente onde iria continuar a jogar?

Sim. Já tinha convites de clubes de Leiria e estava a ponderar algumas dessas possibilidades. Mas, de repente, surgiu aquilo a que costumo chamar a oportunidade da minha vida, naquela altura. E aproveitei-a.

- Como funcionava a sua rotina no Sporting? Muda-se para Lisboa ou continua a viver em Leiria?

Continuava a viver em Leiria e fazia as viagens para Lisboa três ou quatro vezes por semana, contando com os jogos. No último ano, se não me engano, cheguei a fazer cinco viagens por semana. Nos primeiros tempos, eram sempre os meus pais que me levavam. Quando a minha mãe estava a trabalhar, ia o meu pai. Quando o meu pai não podia, ia a minha mãe.

Se não estou em erro, eram cerca de 150 quilómetros para cada lado. Só tenho a agradecer-lhes, porque foi mesmo um esforço enorme. Também tive a ajuda de pais de colegas que viviam em Leiria e faziam o mesmo percurso.

No último ano, partilhava muitas vezes as viagens com a Matilde Nave e a Francisca Martins, que também estavam comigo no Sporting. Os nossos pais iam dividindo as deslocações. Era como dava. Foi muito exigente, mas costumo dizer que aquilo que se aprende em clubes grandes, com aquela estrutura e aquele apoio, não se aprende em qualquer lado. Foram três anos incríveis em termos de aprendizagem e formação.

Ana Alves recorda passagem pelo Sporting
Ana Alves recorda passagem pelo SportingOpta by Stats Perform, Arquivo Pessoal

- Passou de uma equipa de rapazes, onde jogava com os seus amigos da escola, para um clube da dimensão do Sporting, numa equipa exclusivamente feminina. Como viveu essa adaptação?

Como já tinha passado pelas seleções distritais e nacionais, tinha alguma noção das diferenças entre jogar numa equipa de rapazes e numa equipa só de raparigas. Mas lembro-me de que foi uma mudança muito grande.

Até então, saía da escola e ia jogar futebol com os meus amigos. De repente, estava a jogar com pessoas que já eram bastante conhecidas no futebol português e com jogadoras de muita qualidade. Foi um bocadinho um choque, mas não no mau sentido. Era simplesmente um ambiente completamente diferente.

- E como reagiram os seus amigos da escola quando souberam que ia representar o Sporting?

Lembro-me de que ficaram todos surpreendidos. Diziam coisas como: "Uau, a Ana vai para o Sporting! Agora é uma jogadora famosa!" (risos) Durante os três anos, continuaram sempre com essas brincadeiras: "Eu conheço uma jogadora famosa" ou "A minha amiga é famosa". Era muito engraçado.

- Olhando agora para trás, o que é que o Sporting lhe deu? O que é que aprendeu nesses três anos, tanto a nível futebolístico como pessoal, numa fase tão importante da sua formação?

Em termos futebolísticos, costumo dizer que foram três anos incríveis de formação. Aquilo que se aprende no Sporting é muito importante. Por exemplo, o facto de termos treino específico de guarda-redes todos os dias era algo que, para mim, passou a ser normal.

Mas, depois de sair do Sporting, percebi que não era assim em todos os clubes. No Famalicão também temos treino específico todos os dias, mas no Ouriense e na União de Leiria não era tão comum. Às vezes, o treinador não podia estar presente e acabava por ter treino específico apenas uma ou duas vezes por semana.

Acho que essa consistência de trabalho foi fundamental. Num dia trabalhávamos situações de um para um, noutro os cantos, as quedas ou o posicionamento. Aprender todos esses aspetos e conceitos técnicos enquanto adolescente foi uma formação incrível. Foi uma porta de entrada para um futebol mais avançado.

Em termos pessoais, aprendi sobretudo a lidar com a pressão. Jogar um Sporting-Benfica, por exemplo, tinha um peso que eu nunca tinha imaginado. Aprender a representar um símbolo tão grande como o do Sporting foi muito importante para mim.

E isso também teve impacto na minha vida pessoal, porque aprendi a lidar com situações de maior pressão. Na altura, era engraçado porque chegava à escola e, perante um teste, pensava: "Está bem, tenho de ter uma boa nota, mas estou tranquila."

Quando chegava um jogo, a reação era completamente diferente: "Uau, estou a representar o Sporting!" Sentia muito mais essa responsabilidade.

Ana deixou o Sporting para dedicar-se à licenciatura em Engenharia Informática
Ana deixou o Sporting para dedicar-se à licenciatura em Engenharia InformáticaArquivo Pessoal

Engenharia Informática no meio do futebol: "Sempre disse que queria tirar uma licenciatura"

- Depois desses três anos, chegou o momento da saída. Como lidou com a decisão de deixar um clube daquela dimensão e recomeçar noutro contexto, ainda tão jovem?

Na altura, até lidei bem com a situação, porque foi, em parte, uma decisão minha. Sempre disse que queria tirar uma licenciatura e ter alguma estabilidade através de um curso superior. Decidi que Engenharia Informática era aquilo que gostava de estudar para além do futebol. Não tem nada a ver uma coisa com a outra, mas sempre gostei muito de matemática e de lógica.

Na programação, o facto de podermos construir uma espécie de puzzle através da lógica era algo que me interessava bastante. Por isso, decidi seguir Engenharia Informática. Fui estudar para Leiria. Lembro-me de que, na altura, as médias de entrada em Lisboa eram muito exigentes.

Além disso, a ideia de ter de sair de casa para estudar e, ao mesmo tempo, continuar a jogar futebol fora assustava-me um bocadinho. Tinha 18 anos e, de repente, seria um mundo completamente novo. O Sporting queria que eu ficasse mais um ano, mas expliquei que, naquele momento, gostava de dar alguma prioridade aos estudos.

Não foi uma decisão fácil, sobretudo pelo peso do Sporting e por tudo aquilo que o clube oferece em termos de formação. Ser jogadora do Sporting é uma experiência incrível. Mas decidi que queria estudar e continuar por Leiria.

Na altura, o Ouriense também estava na Liga e tinha interesse em mim. Por isso, a mudança acabou por não ser um choque assim tão grande.

- Entretanto, já concluiu a licenciatura em Engenharia Informática. Como conseguiu conciliar os estudos com o futebol ao longo desses anos?

Tenho uma frase engraçada que costumava dizer com um grupo de amigas da União de Leiria, na época passada: "O futebol é diversão." Acho que sempre encarei muito o futebol dessa maneira. Era o meu momento de diversão para além dos estudos.

Mas também acontecia o contrário. Sempre que o futebol se tornava demasiado sério, ou havia alguma situação que me incomodava e da qual precisava de desligar, tinha a licenciatura como escape. Por isso, foi sempre uma boa conjugação para mim.

Quando tinha a cabeça a mil por causa de uma das coisas, conseguia descansar e concentrar-me na outra. Acho que esse equilíbrio entre o futebol e os estudos foi muito positivo para mim.

Ana Alves esteve duas temporadas no Ouriense
Ana Alves esteve duas temporadas no OurienseArquivo Pessoal

- Depois do Sporting, seguiu-se o Ouriense, onde teve a oportunidade de jogar na Liga. Como foi essa experiência, sobretudo por ser o seu primeiro contacto com o futebol sénior?

Entrei no Ouriense quando o clube estava na Liga. Na altura, acabei por não fazer muitos jogos. Mas gostei muito da experiência de treinar e jogar com pessoas que já tinham bastante experiência e que conheciam outras realidades, tanto dentro como fora de Portugal.

Apesar de não jogar muito, ainda fiz dois ou três jogos nas competições seniores, entre a Taça da Liga e a Taça de Portugal. Continuo a dizer que gostei muito dessa experiência, sobretudo por ter conhecido jogadoras com percursos diferentes, algumas já bastante conhecidas no futebol português.

Na altura, jogava sobretudo nas juniores. Tinha sempre esse estímulo competitivo ao fim de semana, embora não fosse a mesma coisa. Mas só o facto de treinar com jogadoras experientes, que percebiam muito do jogo, já era uma aprendizagem enorme para mim.

- Na segunda temporada no Ouriense, já na II Divisão, passou a jogar com muito mais regularidade. O que mudou para si?

Na segunda época, acabei por jogar todos os jogos. Foi uma altura difícil para o clube, porque a posição de guarda-redes é sempre complicada de preencher e o Ouriense teve dificuldades em encontrar outra jogadora para a baliza. Por isso, acabei por fazer os jogos todos.

Apesar de já não estarmos na Primeira Divisão, acho que jogar na Segunda me deu muita estaleca e permitiu-me começar a perceber melhor o jogo. Até então, via muitos jogos de fora. E, apesar de jogar nas juniores, o contexto competitivo não era o mais estimulante para mim.

Na Segunda Divisão, já enfrentávamos equipas como o Benfica B e o Sporting B. Na altura, o Amora tinha uma equipa forte e o Futebol Benfica também. Acho que foi um estímulo muito importante.

Além disso, jogar todos os jogos deu-me uma responsabilidade diferente. Sabia que podia errar ou fazer um jogo menos conseguido, mas também sabia que era eu que teria de dar a cara, porque não havia outra pessoa para ocupar a minha posição. Isso foi muito importante para o meu crescimento.

Em março, chegou outra guarda-redes, mas estava sobretudo à procura de um sítio onde pudesse continuar a treinar, porque estudava perto. Encarava o futebol mais como um passatempo, não tanto numa perspetiva competitiva. Por isso, na prática, continuava a ser a única guarda-redes disponível para jogar.

- Seguiu-se a União de Leiria, um clube muito representativo do seu distrito. Como surgiu essa oportunidade e o que a levou a aceitar o projeto?

Lembro-me de que, nesse verão, falava muito sobre o assunto com uma colega minha. Éramos as duas capitãs no Ouriense e surgiu a possibilidade de irmos para a União de Leiria. Somos ambas do distrito de Leiria e isso teve bastante peso na decisão.

Na altura, pensávamos: "A União de Leiria tem um projeto para subir de divisão. Se temos a oportunidade de ajudar o clube da nossa cidade a subir, porque não aproveitar?" Era algo que nos motivava muito. Queríamos representar o clube da cidade e contribuir para uma possível subida de divisão.

Além disso, a União de Leiria oferecia-nos condições excecionais. Tínhamos acesso direto a fisioterapia, ginásio e a tudo aquilo de que precisávamos. Eram condições muito boas. E a possibilidade de jogar pelo clube da cidade tornava tudo ainda mais especial. Acabámos por tomar essa decisão.

Apesar de não termos conseguido subir de divisão, continuamos a dizer que não nos arrependemos. Em termos de envolvimento enquanto jogadoras, foi uma experiência incrível. E, sobretudo, pelo grupo que tivemos e pelas amizades que criámos, que são relações que queremos manter para sempre.

- Passou pelo Sporting, pela Liga, pela Segunda e pela Terceira Divisão. Até que ponto foi importante conhecer realidades tão diferentes e perceber que também existem boas condições fora dos principais clubes?

Acho que ter noção dos diferentes contextos e divisões é muito importante, porque nos permite dar mais valor às coisas. Por exemplo, quando estava na Liga, apesar de não jogar muito, não dava o devido valor a todos os pormenores daquela realidade.

O facto de treinar com jogadoras experientes e tudo aquilo que envolve estar na Liga eram coisas que, na altura, talvez não valorizasse tanto. Só quando desci de divisão é que comecei a perceber melhor aquilo que tinha. E, quando passei da Segunda para a Terceira Divisão, também comecei a dar mais valor à competitividade da Segunda.

A verdade é que, em termos competitivos, a Segunda Divisão já apresenta um nível bastante superior. Na Terceira, havia um ou dois jogos mais competitivos e os restantes acabavam por ser encontros em que tinha muito pouco trabalho.

Houve algumas vezes em que passei praticamente o jogo todo parada na baliza! Por isso, acho que passar por estas diferentes realidades foi muito importante para perceber melhor o futebol e valorizar aquilo que cada contexto nos oferece.

Ana Alves abraçou novo desafio no Famalicão
Ana Alves abraçou novo desafio no FamalicãoArquivo Pessoal

Mudança para Famalicão: "O nosso objetivo é subir de divisão"

- Chegamos agora ao Famalicão. A mudança para o Norte surgiu também por já ter concluído a licenciatura e poder dedicar-se mais ao futebol?

Sim, foi muito nesse sentido. Sempre disse que queria terminar a licenciatura em Leiria para depois ter a oportunidade de jogar fora e perceber o que é viver longe de casa. Queria experimentar essa independência, ter a responsabilidade de tratar das tarefas domésticas e até sentir saudades de casa.

É algo que pode ser difícil, mas que considero importante. Hoje dou muito mais valor aos momentos em que regresso a Leiria. Antes, estar em casa era uma coisa banal, porque fazia parte do meu dia a dia. E estou a gostar muito desta experiência.

- Como surgiu a oportunidade de representar o Famalicão? Foi uma decisão fácil de tomar?

Foi através de uma colega que já me conhecia e que estava no Famalicão. Abordou-me porque o clube precisava de uma guarda-redes e tinha sugerido o meu nome. Disse-me que achava que seria um bom projeto para continuar a crescer.

Na altura, já estava de férias e, se não me engano, estávamos nos últimos dias de julho. A proposta surgiu pouco antes de começar a treinar. Passei essa semana com a cabeça a mil. Era uma oportunidade muito boa, que queria aproveitar, mas implicava uma mudança grande na minha vida.

Ao mesmo tempo, estava numa fase em que queria experimentar coisas novas. E havia outra particularidade: sempre disse que gostava que a minha primeira experiência fora de Leiria fosse no Norte. Tinha curiosidade em conhecer a região e as pessoas, de quem sempre ouvi dizer que são muito acolhedoras e descontraídas. Acabou por surgir no momento certo.

Lembro-me de confirmar a decisão ao team manager numa sexta-feira. Perguntei-lhe quando precisavam de mim e respondeu-me: "Na segunda-feira." Passei o fim de semana a arrumar as malas e a despedir-me da família e dos amigos. Na segunda-feira, estava cá.

- Como estão a ser estes primeiros meses no Famalicão, agora com a licenciatura concluída e uma nova vida longe de casa?

A equipa tem sido fundamental para a minha adaptação. Temos um grupo muito unido, em que todas nos ajudamos, e senti-me acolhida desde o primeiro momento. Em casa, o ambiente também é muito tranquilo. Vivo com colegas de equipa e estamos sempre disponíveis umas para as outras. Quando alguém precisa de alguma coisa, procuramos ajudar. Isso tem contribuído muito para que esteja a gostar tanto desta experiência.

Entretanto, também estou à procura de trabalho para conciliar com o futebol. Treinamos de manhã e tenho bastante tempo livre durante a tarde. Vou aproveitando para mexer no computador e continuar ligada à informática, para não perder os conhecimentos que adquiri na licenciatura.

Quero trabalhar na área e também considero a possibilidade de fazer um mestrado. Por isso, procuro aproveitar esses períodos livres para continuar a praticar e não perder o contacto com a programação.

- Sem querer colocar demasiada pressão, o que podemos esperar do Famalicão esta temporada? Quais são os objetivos da equipa?

Acho que temos condições para fazer um excelente campeonato. O nosso objetivo é subir de divisão e acredito que somos candidatas. Temos um grupo muito unido, o que considero fundamental, mas também jogadoras com muita qualidade. Estou a gostar bastante daquilo que tenho visto e acredito que temos capacidade para alcançar esse objetivo.

- Como avalia a competitividade da Segunda Divisão? Na vossa série estão equipas como o Clube de Albergaria, o Gil Vicente e o Braga B. Sente diferenças em relação ao campeonato que disputou há dois anos?

Sinto que existe uma melhoria na qualidade e na experiência das jogadoras, de uma forma geral. Comparando com a Segunda Divisão que disputei há dois anos, parece-me que o campeonato está mais competitivo. A redução do número de equipas também pode ter contribuído para isso. Há menos jogadoras a competir, mas talvez exista uma maior concentração de qualidade. Pelo menos em relação à realidade que conheci anteriormente, sinto que o nível competitivo aumentou.

Ana passou pela UD Leiria
Ana passou pela UD LeiriaArquivo Pessoal

A relação especial com a baliza: "Este é o meu castelo e tenho de o proteger"

- Costuma dizer-se que a posição de guarda-redes é ingrata. Uma equipa pode vencer por vários golos, mas um erro individual pode marcar a exibição. Como aprendeu a lidar com os golos sofridos e com os erros?

Quando era mais nova, ficava devastada sempre que sofria um golo. Às vezes, os rapazes com quem jogava não percebiam bem o que tinha acontecido e apontavam-me as culpas. Isso afetava-me bastante. Ficava tão chateada que nem queria que falassem comigo.

Com os anos, fui desenvolvendo outra mentalidade. Acho que o Sporting também teve alguma influência nesse processo. Hoje, quando cometo um erro ou sofro um golo em que podia ter feito melhor, tento mudar imediatamente o chip. Penso: "Está bem, errei, mas já aconteceu. Agora tenho de continuar e fazer tudo o que puder para ajudar a equipa."

Não significa que antes não estivesse a dar o máximo. Simplesmente, percebi que não posso ficar presa a um lance que já passou. O erro aconteceu naquele momento, mas o jogo continua.

- Ao contrário das jogadoras de campo, uma guarda-redes raramente tem a oportunidade de entrar durante o jogo. Ou é titular ou fica no banco. Alguma vez sentiu que essa particularidade da posição podia limitar o seu crescimento?

Senti isso sobretudo quando estava no Sporting. Não pensava propriamente que a posição me limitava, mas tinha consciência de que precisava de trabalhar muito para conquistar o meu lugar. Como guarda-redes, normalmente ou jogava ou não jogava. Não existia aquela possibilidade de entrar durante meia hora, como acontece com as jogadoras de campo. Na altura, por ser mais nova, sentia bastante essa pressão. Pensava que tinha de dar sempre o máximo, porque qualquer erro podia influenciar a escolha do onze inicial.

Na época passada, algumas das minhas colegas estiveram lesionadas e acabei por disputar praticamente todos os jogos. Este ano, talvez por estar um bocadinho mais velha e ter outra mentalidade, encaro a situação com maior tranquilidade.

Procuro dar o máximo em cada treino e divertir-me a fazer aquilo de que gosto. Obviamente, quero ser titular. Isso nem sequer está em questão. Mas sinto-me mais tranquila porque sei que estou a trabalhar para merecer essa oportunidade. Sei que dei tudo nos treinos e, independentemente da decisão, continuo a fazer aquilo que me faz feliz.

- Como define a sua personalidade enquanto guarda-redes? É muito comunicativa, mais explosiva ou tranquila? Sente que se transforma quando entra em campo?

Posso transformar-me ligeiramente, no sentido em que, por vezes, digo uma palavra ou outra de forma mais agressiva. Mas sou uma pessoa muito tranquila, não sou bruta a falar com os outros. Estou quase sempre a rir e toda a gente me diz isso. Dentro de campo, continuo a ser bem-disposta. Posso ter um momento em que falo de forma mais agressiva, mas mantenho o meu registo habitual. Não sinto que me transforme muito.

- Tem uma ligação muito especial à baliza. Como é essa relação com um espaço que passa tantos anos a proteger, muitas vezes sozinha durante grande parte dos jogos?

Acho que sempre tive uma mentalidade que o meu treinador de guarda-redes costuma descrever muito bem: "Este é o meu castelo e tenho de o proteger." Aliás, tenho um hábito desde a altura em que saí do União da Serra e fui para o Sporting.

Antes de jogos importantes, quando estou perto de casa, costumo ir ao campo à noite, quando já não está lá ninguém. Consigo abrir a porta, entro e vou até uma das balizas. Fico ali sozinha durante algum tempo. É uma espécie de ligação que estabeleço com a baliza.

Penso: "Amanhã não vou jogar nesta baliza, mas vou ter outra exatamente igual para proteger. E é isso que vou tentar fazer da melhor maneira possível." Acho que a minha relação com a posição sempre passou muito por essa ideia de proteger o meu espaço.

Ana Alves é internacional jovem por Portugal
Ana Alves é internacional jovem por PortugalArquivo Pessoal

"Tenho muitas saudades de estar num estágio da seleção"

- Outro momento marcante da sua carreira foi a chamada às seleções jovens de Portugal. Como recorda essa experiência? E representar a Seleção A continua a ser um sonho?

Sim, representar a Seleção A sempre foi um objetivo. Acho que seria o ponto mais alto da minha carreira, uma sensação de olhar para trás e pensar: "Uau, como é que consegui chegar aqui?" Seria extremamente gratificante.

Lembro-me de que o Canal 11 fazia reportagens sobre os estágios das seleções. Na altura, a geração de 1999 tinha sido campeã europeia de sub-17 e sub-19. Vi inúmeras vezes um vídeo que fizeram sobre essa geração e pensava: "Quem me dera um dia ser chamada à seleção e viver este ambiente."

Pouco tempo depois, surgiu essa oportunidade. Se pudesse voltar a viver o dia em que fui convocada pela primeira vez, fazia-o sem hesitar. Foi um momento incrível, que me marcou muito. Representar Portugal é uma responsabilidade enorme, mas também um orgulho. Tenho muitas saudades de estar num estágio da seleção. Fiz dois jogos internacionais e lembro-me perfeitamente da sensação de entrar em campo.

Antes de jogar, estava muito nervosa, mas, assim que entrava, o nervosismo desaparecia. Estava tão concentrada naquilo que estava a viver que só conseguia pensar: "Estou a jogar por Portugal. Que incrível!" É uma sensação difícil de explicar.

Ana Alves conta com internacionalizações nas camadas jovens da seleção
Ana Alves conta com internacionalizações nas camadas jovens da seleçãoOpta by Stats Perform, Arquivo Pessoal

- Como avalia a qualidade das guarda-redes portuguesas? Com nomes como Inês Pereira, Patrícia Morais, Rute Costa e Nair Pina, a concorrência é cada vez maior?

Sim, e acho que isso se nota cada vez mais. Lembro-me de que, na minha primeira convocatória, fomos chamadas, salvo erro, cinco guarda-redes da geração de 2005. E eram todas muito boas. Foi nessa altura que comecei a perceber a competitividade que existia na posição.

Antes disso, confesso que não acompanhava tanto o futebol feminino, mas, desde então, tenho visto cada vez mais jovens guarda-redes a afirmarem-se. Há muita qualidade nas novas gerações e acredito que o nível tem vindo a aumentar bastante.

- Ainda tem uma longa carreira pela frente, mas quais são os seus principais objetivos para os próximos cinco ou dez anos? Gostava de chegar à Primeira Liga e afirmar-se nesse patamar?

Sempre fui uma pessoa que pensa muito no presente. Gosto de viver aquilo que estou a fazer e aproveitar cada momento. Mas, olhando a longo prazo, gostava de ter a oportunidade de jogar na Primeira Liga. E não apenas fazer parte de uma equipa desse escalão, mas jogar efetivamente. Outro grande objetivo é chegar à seleção A. Primeiro, conseguir ser convocada e, depois, quem sabe, ter a oportunidade de representar Portugal. São as minhas principais ambições neste momento. Acredito que, se conseguir alcançá-las, surgirão naturalmente outros objetivos. Por enquanto, quero aproveitar aquilo que estou a viver.

Ana Alves sempre quis ser guarda-redes
Ana Alves sempre quis ser guarda-redesFlashscore

"Estou eternamente grata aos meus pais"

- Olhando para trás, para aquela menina que começou a jogar com os rapazes no União da Serra, o que lhe diria hoje? E como recorda todos os sacrifícios que os seus pais fizeram para o ajudar a chegar até aqui?

Acho que aquela menina não tinha noção de onde poderia chegar. Na altura, olhava muito para os rapazes com quem jogava e sabia que, para eles, seria naturalmente mais difícil fazer um percurso como aquele que acabei por fazer.

Se essa Ana mais pequena me visse agora, acho que ficaria surpreendida e pensaria: "Uau, como é que conseguiste?" Talvez devesse dar um bocadinho mais valor àquilo que já alcancei e pensar mais vezes naquela menina que tinha tantos sonhos e que conseguiu concretizar alguns deles.

Quanto aos meus pais, só tenho a agradecer. Não apenas a eles, mas também à minha família e aos meus amigos, por todo o apoio que sempre me deram. Mas os meus pais tiveram um papel fundamental. Faziam o esforço de me levar três ou quatro vezes por semana a Lisboa e estavam sempre presentes quando precisava de alguma coisa. Estou-lhes eternamente grata. Acho que vai ser muito difícil conseguir compensá-los por tudo aquilo que fizeram por mim.

- Quando terminar a carreira, como gostaria que as pessoas recordassem a Ana Alves, não apenas enquanto guarda-redes, mas também enquanto pessoa?

Obviamente, gostava de ser reconhecida como uma boa guarda-redes, uma guarda-redes de topo, e de conquistar títulos. Mas sou muito uma pessoa de pessoas. Mais do que os títulos, gostava que se lembrassem de mim como alguém tranquila, bem-disposta, que ajudava sempre o grupo e estava disponível para os outros. Gostava de fazer a diferença enquanto pessoa e de deixar uma marca positiva na vida daqueles com quem me cruzei.

- Para terminar, se o futebol fosse uma pessoa e tivesse a oportunidade de falar com ele, o que lhe diria?

Acho que lhe agradeceria por me ter permitido entrar neste mundo. Só teria palavras de agradecimento por tudo aquilo que o futebol me trouxe, não apenas pelas pessoas que conheci, mas também pela diversão. Porque, apesar de levar o futebol muito a sério, continua a ser o meu maior momento de diversão.

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