“Només hi ha una reina, Alexia Putellas.” Talvez Patri Guijarro soubesse exatamente o que estava a fazer quando, no domingo, 24 de maio, entoou este cântico em homenagem à sua capitã, levando os quatro mil adeptos presentes nas celebrações dos quatro títulos conquistados pela equipa feminina a cantarem em uníssono com as restantes jogadoras. “Reina”, que significa rainha, é o apelido que Alexia Putellas ganhou há já várias épocas, em reconhecimento de alguém que se tornou muito mais do que uma lenda do Barcelona: um verdadeiro ícone do futebol feminino europeu. Talvez até o primeiro.
Enquanto os Estados Unidos tiveram figuras como Alex Morgan ou Megan Rapinoe, a camisola 11 do Barça seguiu o caminho dessas referências para ajudar a impulsionar uma modalidade que apenas precisava de florescer na Europa. Um percurso que nunca esqueceu. Quando lhe entregaram o microfone, no domingo, as primeiras palavras não foram dirigidas aos adeptos nem às colegas de equipa, mas sim a Joan Laporta, por ter acreditado na secção feminina, investido no projeto e permitido que a pequena Alexia, chegada do Levante com o sonho de brilhar pelo clube do coração, e sobretudo pelo clube do seu pai, que partiu demasiado cedo, pudesse um dia tornar-se quatro vezes campeã europeia.
Desde o golo memorável na final da Taça da Rainha, em 2013, que valeu o primeiro troféu frente ao Real Saragoça, até à mais recente conquista da Liga dos Campeões diante do Olympique Lyon, no último sábado, Alexia Putellas acumulou nada menos do que 30 títulos com a camisola blaugrana. Ficará para sempre ligada à história da secção feminina do Barcelona: primeira marcadora no Estádio Johan Cruyff, primeira marcadora no Camp Nou e melhor marcadora da história do clube.
Foi também uma das primeiras a acreditar verdadeiramente no crescimento da equipa. Depois da primeira final da Liga dos Campeões da história do Barcelona feminino, perdida por 4-1 frente ao Lyon, Alexia deixou uma frase marcante na zona mista: “No hi ha distància” - “não há distância” para as restantes equipas. Dois anos mais tarde, o Barça conquistava pela primeira vez a competição europeia e iniciava uma era dourada, chegando a seis finais consecutivas e vencendo quatro delas.
A exigência constante, a capacidade de liderança, o sentido coletivo e a facilidade em decidir jogos acabaram por transformar Alexia numa referência absoluta do futebol feminino mundial. Coroada melhor jogadora do mundo, assumiu naturalmente toda a dimensão mediática desse estatuto, tornando-se um dos rostos mais reconhecidos do clube, ao lado das estrelas da equipa masculina, e embaixadora de várias marcas internacionais. A sua imagem ultrapassou rapidamente as fronteiras de Espanha e espalhou-se por toda a Europa.
Alexia Putellas é o Barça, sem dúvida. Mas Alexia Putellas é também um nome que hoje inspira raparigas e rapazes em todo o mundo, pelos títulos conquistados, pela qualidade do seu futebol, mas também pelo carisma e pela forma como ajudou a transformar a modalidade. Foi isso que a levou a tornar-se capitã do Barcelona, capitã da seleção espanhola e uma referência absoluta num período em que o futebol feminino espanhol atravessava algumas das suas fases mais difíceis.
Nunca deixou de reconhecer o papel das jogadoras que vieram antes dela e que “abriram caminho” para as gerações seguintes. Agora, é Alexia quem passa a integrar esse grupo de figuras históricas do clube catalão, com a sensação de missão cumprida e consciente de que também ela ajudou a abrir uma verdadeira autoestrada para todas as que sonham seguir-lhe os passos.
“É preciso que as meninas acreditem em si próprias e lutem para serem futebolistas. Acho que o mundo tem a responsabilidade de fazer tudo o que for possível para que as crianças possam seguir o sonho de serem futebolistas, independentemente da cor da pele ou do sexo”, afirmou em 2021, aquando da conquista da primeira Bola de Ouro.
Depois de abrir caminho para uma nova geração que hoje treina ao seu lado com admiração nos olhos, deixou-lhes uma última mensagem: “O futuro é vosso, cabe-vos agora escrever a história com o melhor clube do mundo.”
