Opinião: A Juventus não tem a personalidade que ajudou a trazer sucesso

Di Gregorio de joelhos após o golo sofrido frente ao Verona
Di Gregorio de joelhos após o golo sofrido frente ao VeronaDavide Casentini/NurPhoto / Shutterstock Editorial / Profimedi

Para além das questões técnicas que podem ou não ser resolvidas pelo mercado, aos bianconeri falta personalidade dentro e fora de campo, um líder carismático no relvado e aquela solidez na estrutura diretiva que historicamente determinou os sucessos do clube

No fracasso da Juventus – mesmo que a Spalletti não agrade este termo, é evidente que sem Liga dos Campeões assim será – há uma lacuna que sobressai mais do que todas quando é preciso encontrar um culpado: a personalidade. Esta equipa, de facto, demonstrou não ter a determinação suficiente nos momentos decisivos, também condicionada por uma sorte pouco favorável que abalou a confiança dos jogadores. 

E assim, da reviravolta por 4-3 no início do campeonato contra os futuros campeões, passou-se para exibições desconcertantes em que se falharam, senão match points, pelo menos set points para alcançar o tão desejado quarto lugar. Quando os bianconeri tiveram a oportunidade de depender apenas de si próprios, desiludiram sistematicamente, e na provável exclusão da próxima Liga dos Campeões pesarão como pedras o empate em casa frente ao Verona, assim como a derrota caseira diante da Fiorentina.

O topo da Serie A
O topo da Serie AFlashscore

A profecia que se auto-realiza em campo

Falávamos da sorte pouco favorável: é evidente que sofrer um golo à primeira oportunidade dos adversários pode abalar o entusiasmo, quando não criar uma espécie de psicose do resultado se não se consegue desbloquear o jogo. E isto aconteceu aos bianconeri com Spalletti ao comando várias vezes, aliás, tornou-se quase um refrão: domínio territorial, jogadas perigosas, oportunidades desperdiçadas, golo sofrido. 

A equipa do técnico de Certaldo criou quase um monumento vivo à velha máxima do futebol “golo falhado, golo sofrido”, e é claro que nesta dinâmica, para além das culpas objetivas dos jogadores, há também um pouco de azar: uma mistura letal que, a longo prazo, cria um problema psicológico. Na cabeça dos jogadores, isto provavelmente já se transformou numa espécie de efeito Pigmaleão, de profecia que se auto-realiza: têm receio de perder o jogo mesmo sendo favoritos no papel, e é assim que acabam por perdê-lo (ou empatá-lo) em campo, sofrendo golo à primeira ocasião.

Uma mancha negra que provavelmente já contagiou o guarda-redes Di Gregorio, agora habituado a sofrer golo ao primeiro remate, mas também os veteranos, incapazes de transmitir segurança aos colegas. Provavelmente até o próprio capitão Locatelli, que pelo estatuto e função tem, de qualquer forma, uma responsabilidade na atitude dos companheiros em campo.

A fragilidade estrutural fora das quatro linhas

Se o capitão, apesar das exibições generosas a nível individual, tem de assumir também as falhas da equipa, é inegável que até o líder máximo no balneário, o técnico Spalletti, tem alguma responsabilidade por não ter conseguido unir o grupo no momento mais delicado.

Luciano Spalletti
Luciano SpallettiREUTERS/Alessandro Garofalo

E assim, depois de termos ficado de olhos arregalados com o futebol apresentado em tantos momentos, a mente pode recuar também aos antecedentes do treinador de Certaldo, como aquele súbito “bracinho” do seu Nápoles que, depois de um campeonato amplamente dominado, abrandou no final, falhando o match point com a Salernitana ou perdendo pontos com Udinese e Verona. É difícil, de qualquer forma, atribuir culpas, ou dividi-las entre jogadores e treinador nesse caso como neste, a ansiedade pode pregar partidas a todos.

É claro, porém, que a Juventus, voltando ao presente, carece de personalidade, e se o mercado pode trazer-lhe um líder carismático em campo (ainda que seja difícil que, sem Liga dos Campeões, cheguem Bernardo Silva e/ou Alisson), é fora de campo que parece continuar a faltar aquele aparelho granítico entre propriedade e direção que tantas vezes fez a diferença nos sucessos do clube. Aquela convicção no sucesso que depois o determinou. Para ser exato, hoje estamos nos antípodas.