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Nélson Veríssimo: "Cada vez que um jogador se estreia na equipa principal do Benfica é uma grande vitória"

Nélson Veríssimo, treinador da equipa B do Benfica
Nélson Veríssimo, treinador da equipa B do BenficaSL Benfica

Nélson Veríssimo ocupa um lugar privilegiado para observar o talento nascer, crescer e tentar chegar ao patamar mais exigente do Benfica. Primeiro como adjunto, depois como treinador principal da equipa B, acompanhou gerações, ajudou a preparar jogadores para a elite e, pelo caminho, também se foi transformando enquanto treinador. Gonçalo Ramos, João Neves, Tomás Araújo, Renato Sanches ou Rúben Dias são apenas alguns dos nomes que atravessam uma conversa que vai muito além da formação.

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Aos 49 anos, e depois de duas passagens pela equipa principal das águias e de uma experiência no Estoril, Veríssimo assume estar hoje muito diferente do treinador que começou este percurso no Adidas Benfica Campus. Nesta entrevista exclusiva ao Flashscore, fala da difícil fronteira entre formar e ganhar, explica como se gere uma equipa em permanente transformação, aborda a evolução de Gianluca Prestianni, a ligação a Marco Silva e a importância de preparar os jovens não apenas para a oportunidade, mas sobretudo para estarem prontos quando ela aparecer.

E há também espaço para olhar para o próprio caminho. Sem esconder a ambição de voltar um dia a outros palcos, Veríssimo garante viver muito mais o presente do que o futuro. Pelo meio, recorda um dos momentos mais difíceis da vida, revela o que gostaria que os jogadores dissessem sobre ele daqui a dez anos e deixa uma declaração de amor ao jogo que o acompanha praticamente desde sempre: "O futebol, mais do que ciência, é arte."

Nélson Veríssimo conta com larga experiência na estrutura do Benfica
Nélson Veríssimo conta com larga experiência na estrutura do BenficaSL Benfica

"Os jogadores procuram muito a oportunidade, mas, depois, têm de estar preparados"

- Está ligado à equipa B do Benfica praticamente desde o renascimento do projeto, primeiro como adjunto e depois como treinador principal. Olhando para trás, que balanço faz desta experiência e de que forma este percurso contribuiu para a sua evolução enquanto treinador?

Sinceramente, não tinha a noção de quantos anos já passaram desde que estou neste contexto de equipa B. Aquilo que sei é que acabei por ser um felizardo. Fiz um percurso que considero interessante enquanto jogador, com cerca de 200 jogos na Primeira Liga, e tive a oportunidade de continuar ligado ao futebol quando terminei a carreira.

Recordo-me perfeitamente do meu último jogo, um Oriental-Mafra. No dia seguinte, deixei de ter as minhas rotinas enquanto jogador profissional. Felizmente, recebi um contacto do senhor António Carraça, que me apresentou o projeto de regresso da equipa B do Benfica e a intenção de integrar alguém com o meu perfil como treinador-adjunto.

Tive a felicidade de passar diretamente de jogador para treinador, mas, mesmo assim, foi uma sensação estranha. Percebi que uma coisa é pensar o jogo enquanto jogador e outra completamente diferente é pensá-lo enquanto treinador. Também tive a felicidade de trabalhar com Norton de Matos, Hélder Cristóvão e, mais tarde, Bruno Lage. Todos me deram o tempo necessário para crescer, aprender e observar.

A construção do treinador Nélson Veríssimo não começou quando integrei a equipa B. Começou antes, com a preparação que fui fazendo, nomeadamente através da licenciatura e do curso de treinadores. O treinador que sou hoje não tem nada a ver com aquele que assumiu pela primeira vez a equipa B. Se comparar com o treinador-adjunto que iniciou este projeto, então a diferença é da noite para o dia.

É importante poder errar, reconstruir e evoluir através das experiências que vamos acumulando. Depois, temos a oportunidade de colocar as nossas próprias ideias dentro da ideia geral que existe no Benfica. Tudo isso faz parte do processo de crescimento e evolução.

Nélson Veríssimo sobre o trajeto entre a equipa B e a equipa principal do Benfica
Nélson Veríssimo sobre o trajeto entre a equipa B e a equipa principal do BenficaOpta by Stats Perform, SL Benfica

- A equipa B já compete num contexto sénior, mas trabalha sobretudo com jovens provenientes da formação. Um treinador que passa tantos anos a trabalhar com estes jogadores também acaba por ser formado por eles? 

Acho que todos nós somos moldados pelas experiências que vamos tendo e pelas pessoas com quem nos cruzamos ao longo da vida. Isso acontece tanto no contexto pessoal como no profissional.

Trabalhar com jogadores mais jovens proporciona-nos determinadas experiências. São jogadores que chegam com muitos sonhos, muita qualidade e muito potencial, mas que sabem que ainda têm um caminho a percorrer. Julgo que os jovens, hoje em dia, pensam demasiado no amanhã quando deveriam viver mais o presente. Isso também nos obriga a refletir sobre a forma como abordamos estes jogadores.

Da mesma forma, trabalhar com jogadores mais velhos, com outra maturidade e diferentes experiências de jogo e de vida, também nos transforma. Esta relação funciona nos dois sentidos. Enquanto treinador, aprendo com cada jogador e com cada grupo, e espero que eles também aprendam comigo.

As equipas constroem-se através das ligações que os jogadores estabelecem entre si. Cada um tem o seu perfil e as suas características, mas também é fundamental a capacidade do treinador para compreender cada individualidade e colocar todos a funcionar como uma equipa. Depois, aquilo que acaba por unir tudo isto são os resultados. Pontuar e ganhar ao fim de cada semana também é o que alimenta as equipas.

- Durante este percurso, teve também a oportunidade de orientar a equipa principal do Benfica e de treinar o Estoril, em contextos competitivos diferentes. Essas experiências alteraram a forma como olha para os jovens que estão a tentar chegar ao futebol profissional?

Acima de tudo, fizeram-me perceber a diferença entre a teoria e a prática. Tive a oportunidade de sentir e perceber aquilo de que um jovem jogador precisa para chegar a um patamar competitivo daquela exigência, seja na equipa principal do Benfica, seja numa equipa da Primeira Liga, como aconteceu na minha experiência no Estoril.

Considero que, na equipa B, temos um pé na formação e outro no futebol profissional. Aqui, ainda existe alguma margem para errarmos, tanto os jogadores como a equipa. Quando passam para a equipa principal, a margem de erro é substancialmente menor. Numa equipa da Primeira Liga, aquilo que o treinador espera de um jogador é rendimento. Nós também esperamos rendimento, mas temos alguma margem para desenvolver o potencial dos jogadores.

Temos de criar condições e ambientes de treino muito semelhantes aos que existem na equipa principal do Benfica e nos clubes da Primeira Liga, para que os jogadores fiquem mais capacitados e disponham de mais ferramentas para responder quando surgir uma oportunidade.

Podemos falar da relação entre oportunidade e prontidão. Os jogadores procuram muito a oportunidade, mas, depois, têm de estar preparados. A prontidão exige tempo e é o resultado de todo o trabalho diário. Recordo-me de uma conversa com Carlos Manuel sobre a importância da primeira impressão. Quando os nossos jogadores têm a oportunidade de competir na equipa principal ou de sair para um clube da Primeira Liga, precisam de deixar uma boa primeira impressão. É isso que dá motivos ao treinador para lhes proporcionar continuidade. Porque, fora deste contexto, o futebol é rendimento, rendimento e rendimento.

- A verdade é que um jogador pode apresentar um rendimento excelente na equipa B e, ainda assim, não estar preparado para a equipa principal. Na sua perspetiva, o que separa estes dois patamares, particularmente no Benfica, onde o salto competitivo é tão exigente?

Uma das coisas mais importantes na relação entre a equipa B e a equipa principal é perceber o feedback dos treinadores. É fundamental perceber aquilo que nos transmitem sobre os jogadores, porque uma coisa é a resposta que apresentam na Segunda Liga e outra é perceber como respondem quando são testados com os melhores.

Regra geral, o feedback que recebemos é positivo. Para além do potencial e da capacidade que demonstram, destacam-se pela mentalidade e pela competitividade. Naturalmente, existe uma diferença muito grande entre o patamar competitivo da Segunda Liga e aquele em que compete a equipa principal do Benfica.

Tivemos exemplos recentes, como João Neves e Gonçalo Ramos, que tiveram a oportunidade e conseguiram corresponder. Mas também existem outros percursos. Por vezes, determinado jogador precisa de passar por um contexto competitivo intermédio, como aconteceu com Tomás Araújo, que fez o seu percurso no Gil Vicente, regressou ao Benfica e conseguiu dar resposta.

No fundo, temos de olhar muito para a individualidade e perceber, caso a caso, qual é o melhor patamar e o melhor percurso para cada jogador. Para alguns, o caminho passa diretamente pela equipa principal. Outros precisam de fazer um percurso fora do clube antes de regressarem. Esse também é um caminho perfeitamente válido. Acima de tudo, cada jogador é uma pessoa diferente, com as suas próprias características e necessidades.

Nélson Veríssimo no treino dos encarnados
Nélson Veríssimo no treino dos encarnadosSL Benfica

"Há jogadores que interpretam o regresso à equipa B como um sinal de que não aproveitaram a oportunidade"

- Hoje, os jovens jogadores têm muitos estímulos à sua volta, desde as redes sociais à própria exposição mediática. Como é que gere as expectativas de um jogador de 18, 19 ou 20 anos que chega à equipa B do Benfica, vê os colegas a terem oportunidades na equipa principal ou na Primeira Liga e começa a perguntar-se quando chegará a sua vez?

Não é fácil, por vários motivos. Um deles é a grande pressão que existe. Enquanto treinador, estou com os jogadores no campo, no máximo, 90 minutos. Durante todo o restante tempo, estão fora deste contexto, com os pais, os amigos, os empresários e tudo aquilo que isso implica em termos de expectativas.

Hoje em dia, os jovens vivem muito o amanhã, precisamente pela velocidade com que a informação circula. Sabem que determinado colega está noutro clube, quanto ganha, que contrato tem e, naturalmente, querem chegar ao mesmo patamar. O nosso desafio é trazê-los um pouco à terra. Dizer-lhes que vivam o presente, porque o amanhã será uma consequência do trabalho que fizerem hoje. O nosso foco passa por direcioná-los para aquilo que conseguem controlar: o treino, o trabalho de ginásio, a nutrição e o descanso.

Claro que isto é muito bonito de dizer, mas depois é preciso colocar em prática. Há jogadores que têm equilíbrio emocional suficiente para perceber que aquele é o caminho que devem seguir. Outros são mais influenciados pela informação que chega do exterior.

Já tivemos situações de jogadores que, pelo seu potencial e rendimento, foram chamados à equipa principal, passaram algum tempo a treinar com a equipa A e depois regressaram à equipa B. É precisamente aí que surge outro desafio. Toda a estrutura, particularmente o treinador, tem de estar muito atenta para perceber qual foi o jogador que saiu e qual é o jogador que regressou.

Há jogadores que regressam exatamente da mesma forma que saíram. Outros voltam com um sentimento diferente, porque interpretam o regresso à equipa B como um sinal de que não aproveitaram a oportunidade. E, por vezes, essa interpretação está errada. Podem ter correspondido muito bem, mas isso não significa que devam permanecer imediatamente na equipa principal. Por vezes, o contexto mais adequado continua a ser a equipa B.

Ajustar as expectativas dos jogadores é um desafio para toda a estrutura e para mim, enquanto treinador. Procuramos que pensem no presente e naquilo que conseguem controlar, para que o futuro possa acontecer da forma que todos desejamos: que tenham sucesso e façam carreira a um elevado nível competitivo.

- Os jogadores que chegam à equipa B do Benfica já têm um desenvolvimento técnico e tático considerável, mas a componente mental também exige uma atenção especial. Essa gestão das expectativas e das frustrações é uma das partes mais difíceis do seu trabalho? 

Acho que isso é transversal a todas as equipas. Cada jogador tem as suas expectativas e a gestão dessas expectativas é um dos grandes desafios do treinador. 

Cada vez mais, o treinador é também um gestor das diferentes sensibilidades. Há uns anos, o meu foco estava muito direcionado para aquilo que acontecia dentro das quatro linhas e para a preparação do treino. Agora, existe toda uma gestão das expectativas das pessoas que fazem parte da equipa. No final do dia, temos de garantir que, independentemente dessas expectativas individuais, todos estão orientados no mesmo sentido.

É natural que todos queiram jogar, mas a ideia que tem de prevalecer é que, acima de tudo, está a equipa. Existem valores dos quais não abdico: a capacidade de trabalho, o espírito de grupo e uma mentalidade competitiva forte. Depois, naturalmente, existe a ideia de jogo.

Quanto à gestão emocional, não podemos passar essa responsabilidade exclusivamente para a área da psicologia. A sensibilidade do treinador também conta muito. Cada jogador é diferente. Há jogadores que conseguem reagir sem uma intervenção direta, outros precisam de uma palavra do treinador principal e, noutros casos, pode ser um treinador-adjunto a fazê-lo, porque tem uma relação de maior proximidade.

Por vezes, temos de pensar um pouco fora da caixa, analisar cada situação individualmente e, no final, tentar que todos estejam envolvidos no mesmo espírito.

- Sabemos que o contexto da equipa B é particularmente diferente do das restantes equipas. É importante vencer e cultivar uma mentalidade vencedora, mas também existe a responsabilidade de formar jogadores. Por isso, deixo-lhe uma pergunta um pouco provocadora: o que lhe dá mais satisfação enquanto treinador, ganhar um jogo importante ou receber a notícia de que um jogador seu foi chamado à equipa principal?

É uma pergunta difícil. Sei que aquilo que seria esperado dizer é que a estreia de um jogador na equipa principal proporciona maior satisfação, mas acho que as duas coisas são importantes. Temos um pé na formação e outro no futebol profissional e precisamos de preparar os jogadores da melhor forma para que possam chegar à equipa principal e dar uma resposta positiva. E dar essa resposta significa também ganhar.

O meu discurso enquanto treinador está focado no desenvolvimento dos jogadores. Essa é a nossa base, mas também estou a trabalhar com homens. Eles esperam que consigamos preparar a equipa da melhor forma para chegar ao fim de semana, ser competitiva e fazer tudo para ganhar.

Por isso, conseguir vencer e, ao mesmo tempo, colocar um jogador pela primeira vez na equipa principal também acaba por representar uma vitória. É difícil colocar as duas situações numa balança e determinar qual tem maior peso. Agora, indiscutivelmente, cada vez que um jogador se estreia pela equipa principal, é uma grande vitória. É algo que tem um impacto muito positivo.

Equipa B do Benfica compete na Liga 2
Equipa B do Benfica compete na Liga 2SL Benfica

"Liga 2 é o contexto ideal para potenciarmos e desenvolvermos os nossos jogadores"

- No último jogo, frente à Académica, a equipa B do Benfica apresentou uma média de idades de 19,36 anos, enquanto o adversário tinha uma média de 27,18. Como é que se prepara uma equipa tão jovem para a exigência da Segunda Liga, tendo em conta a necessidade de conciliar a formação dos jogadores com a obtenção de resultados?

E pontuar! Competir, pontuar e somar pontos. Acreditamos que a Segunda Liga é o contexto ideal para potenciarmos e desenvolvermos os nossos jogadores e a nossa equipa. É um grande desafio, porque, ao longo da formação, estes jogadores passam a maior parte do tempo com bola e não estão muito expostos ao momento defensivo. Além disso, competem habitualmente contra jogadores de idades próximas das suas.

Na equipa B, as diferenças podem ser muito grandes. Ainda recentemente, frente à Académica, defrontámos jogadores que tinham idade para ser pais de alguns dos nossos futebolistas. Há dois anos, jogámos contra o AFS e lembro-me perfeitamente do Nenê (41 anos). Perdemos esse jogo por 1-0 e, no final, fui dar-lhe os parabéns pela vontade e pela competitividade que demonstrou.

A forma que encontramos para os preparar passa por colocá-los, desde o início da época, em situações que lhes provoquem desconforto. Precisamos de criar um contexto de treino que lhes permita adaptar-se o mais rapidamente possível à realidade da Segunda Liga. Ainda assim, é difícil, porque representa um choque. Defrontam jogadores com mais maturidade, maior conhecimento do jogo e experiência suficiente para, por vezes, tentar entrar na cabeça dos nossos jogadores e provocar algum desequilíbrio emocional.

- E isso reflete-se nos resultados...

Na época passada, provavelmente aquela em que terminámos com menos pontos e numa posição mais baixa na classificação, conseguimos a primeira vitória apenas à oitava jornada. Tínhamos a equipa com a média de idades mais baixa e, em 32 das 34 jornadas, apresentámos a equipa mais jovem. Sabíamos que íamos passar por dificuldades, mas os jogadores tiveram capacidade para se adaptar, aprender e acreditar no trabalho que estávamos a desenvolver.

À oitava jornada, quando fomos jogar a Santa Maria da Feira, passámos de um 4x2x3x1 para uma estrutura em 5x4x1. Procurámos ganhar maior consistência defensiva, libertar os jogadores da frente e reduzir a nossa exposição às transições defensivas. Foi um dos ajustes que fizemos e que teve sucesso, sempre em articulação com a direção técnica e com o treinador da equipa principal, que, na altura, era José Mourinho.

Claro que houve quem considerasse que essa alteração contrariava a estrutura habitual das equipas de formação do Benfica e da própria equipa principal, mas estas decisões acontecem porque acreditamos que podem ajudar os jogadores individualmente, melhorar a equipa coletivamente e contribuir para aquilo que também é muito importante: conquistar pontos. Provavelmente, as pessoas não valorizam suficientemente aquilo que aconteceu na época passada, mas foi um ano muito difícil. No final, conseguimos alcançar o nosso principal objetivo, apesar de todas as dificuldades.

Benfica B segue na 5.ª posição da tabela classificativa da Liga 2
Benfica B segue na 5.ª posição da tabela classificativa da Liga 2Flashscore

- Portanto, há liberdade para adaptar o sistema às características do plantel, sem existir um modelo tático mais rígido que deve ser seguido...

Temos de ter a capacidade de olhar para a individualidade dos jogadores. Existem grandes princípios que têm de estar presentes. Queremos que uma equipa do Benfica seja uma equipa com bola, que tenha capacidade para ter bola. Queremos ser uma equipa pressionante. Esse é o ADN, é a matriz do jogo. Depois, estamos num contexto difícil, que é a Segunda Liga, e às vezes não conseguimos. Mas o ponto de partida é esse.

A nossa missão enquanto treinadores é conhecer o jogador individualmente e perceber quais são os comportamentos que lhe permitem ter um rendimento mais alto. A partir daí, ajustamos a equipa. Foi isso que fomos fazendo ao longo destes anos.

Na primeira época em que regressei, em 2023/24, estávamos a jogar num 4-3-3 tradicional, mas, na oitava jornada, mudámos para um 4-2-3-1, pela capacidade dos nossos médios para pegar no jogo e construir de frente. Na época seguinte, atendendo às características dos jogadores, montámos um quadrado no meio-campo, com Prioste e Veloso mais atrás e João Rêgo e Hugo Félix mais à frente. Era uma forma de colocar os jogadores em posições em que se sentissem mais confortáveis e conseguissem maximizar o seu potencial.

No ano passado, montámos uma linha de cinco por uma questão de maior segurança defensiva, mas também para libertarmos os jogadores mais adiantados e dar-lhes maior liberdade para jogar. Estas nuances estratégicas têm um porquê. Têm a ver com a individualidade dos jogadores.

Essa alteração foi partilhada e validada pela direção técnica e, na altura, pelo mister Mourinho. Ou seja, há uma matriz e existem grandes princípios que queremos respeitar, mas temos de ter capacidade para olhar para a individualidade dos jogadores e, a partir daí, construir e ajustar o coletivo

- Na equipa B, os jogadores estão constantemente a subir, a descer ou a ser chamados à equipa principal. Como é que consegue trabalhar uma ideia de jogo e criar dinâmicas coletivas perante tantas alterações?

A nossa lógica de intervenção, dentro da estrutura do futebol de formação do Benfica, passa muito pelo desenvolvimento individual do jogador. A equipa B tem um pé na formação e outro no futebol profissional. Olhamos muito para o desenvolvimento de cada jogador, embora acreditemos igualmente na importância da equipa. Um jogador pode resolver determinados jogos através da sua qualidade individual, mas não consegue resolver todos os jogos sozinho.

Há momentos em que temos mais jogadores disponíveis e outros em que temos menos. Por exemplo, podemos entender que determinado jogador, por não estar a competir regularmente na equipa B, beneficiaria de regressar temporariamente aos sub-23 para recuperar ritmo competitivo. Vamos treinando com os jogadores que temos disponíveis. Quando não dispomos de jogadores suficientes para trabalhar situações mais globais e coletivas, apostamos em exercícios setoriais. Se o número for ainda mais reduzido, trabalhamos situações mais individuais e procuramos perceber aquilo que cada um precisa de melhorar.

Na minha perspetiva, neste patamar, devemos potenciar muito as principais qualidades de cada jogador, mas também identificar os aspetos em que apresenta maiores dificuldades. E não estamos a falar apenas da componente técnica. Falamos também da capacidade de decisão, da avaliação individual que fazemos e da análise do jogo.

Normalmente, um ou dois dias antes do encontro, procuramos reunir o maior número possível de jogadores. É nessa altura que trabalhamos as questões mais estratégicas. Naturalmente, temos de considerar os pontos fortes e as fragilidades do adversário, mas olhamos sobretudo para as características dos nossos jogadores. Procuramos perceber como podemos articulá-los para que a equipa apresente rendimento, consiga resultados e, simultaneamente, proporcione condições para o crescimento e a evolução individual.

Prestianni tenta fugir da marcação de Borja Sainz e Alberto Costa
Prestianni tenta fugir da marcação de Borja Sainz e Alberto CostaREUTERS/Pedro Nunes

De Banjaqui e Anísio a Prestianni: "Não estou surpreendido"

- Quando olha para um jogador de 18 ou 19 anos, consegue perceber rapidamente se tem condições para chegar ao mais alto nível ou o futebol já lhe mostrou que esse percurso não é assim tão linear?

Não, não é assim tão linear. Há jogadores que causam uma boa primeira impressão quando chegam à equipa B e que, posteriormente, acabam por confirmar essa avaliação. Mas também existem outros que, numa primeira fase, podemos pensar que dificilmente chegarão a determinado patamar e, afinal, conseguem lá chegar.

Lembro-me, por exemplo, do João Carvalho, que está atualmente no Estoril. Quando chegou à equipa B, foi daqueles jogadores que nos fizeram pensar: 'Que jogador é este?' Era um jogador diferenciado, com facilidade no drible, qualidade de passe e remate e uma grande capacidade de decisão em espaços reduzidos e sob pressão. O João Neves também apareceu neste contexto e provocou essa boa primeira impressão. Mas a verdade é que a prática é o critério da verdade.

Também existem jogadores que passam um pouco despercebidos e que, posteriormente, conseguem construir uma carreira diferenciada, como o Alexandre Penetra. Estas questões não são uma ciência exata. Cada jogador tem o seu tempo e o seu momento, e as circunstâncias também acabam por influenciar muito.

Lembro-me, por exemplo, do Renato Sanches. Estreou-se pela equipa B em Santa Maria da Feira e foi o pior jogo que lhe vi fazer. Recebia a bola e perdia-a, falhava passes e receções. Mas o que é que o diferenciou naquele momento? Nunca se escondeu da bola. Perdia a bola e voltava a pedi-la. Assumia sempre a responsabilidade. Isso também são indicadores importantes, porque mostram a forma como o jogador reage ao erro e responde perante a adversidade.

Também me lembro do Rúben Dias. Se olharmos para o seu percurso de formação, provavelmente houve momentos em que nos perguntámos se conseguiria chegar ao nível em que está hoje. Por isso, não podemos considerar que a evolução de um jogador seja um processo linear.

Os números de Prestianni na Liga 2026/27
Os números de Prestianni na Liga 2026/27Flashscore

- Nos últimos tempos, tivemos exemplos como Daniel Banjaqui, José Neto e Anísio, três jogadores muito jovens que também têm apresentado um percurso interessante nas seleções nacionais. De que forma estes casos podem servir de inspiração para os restantes jovens que aguardam uma oportunidade na equipa principal?

Acima de tudo, servem de inspiração porque demonstram que o caminho é possível. Temos exemplos como Samuel Soares e Tomás Araújo, jogadores que passaram pela formação e que estão atualmente integrados na equipa principal. Isso demonstra que a porta está aberta, embora não signifique que o caminho seja fácil.

No caso do Banjaqui, na época anterior à sua integração na equipa B, ainda era sub-17. Optámos por integrá-lo diretamente neste contexto. O José Neto foi integrado nos sub-23 e o Anísio fez praticamente toda a época nos sub-19, antes de dar o salto. Acabaram os três por jogar na equipa principal, embora com percursos diferentes.

São exemplos que demonstram aos restantes jogadores que é possível fazer esse percurso. Mas é um caminho exigente, que requer foco, mentalidade e capacidade para lidar com a adversidade. Jogar no Estádio da Luz, perante 60 mil pessoas, é completamente diferente de jogar no campo número um do Adidas Benfica Campus, perante mil espectadores.

Acima de tudo, estes exemplos transmitem uma mensagem positiva aos restantes jovens, que também têm o objetivo de receber uma oportunidade e, um dia, integrar a equipa principal do Benfica.

- Outro caso interessante é o de Gianluca Prestianni, que chegou do estrangeiro e disputou os primeiros jogos em Portugal precisamente na equipa B, sob a sua orientação. Tendo em conta o rendimento que apresenta atualmente, está surpreendido com a sua evolução?

Não. Acho que quem conhece o Prestianni não está surpreendido. Quando começou a falar-se da possibilidade de ser contratado pelo Benfica, procurei conhecer melhor as suas características e senti que estávamos perante um jogador diferenciado.

Naturalmente, era um jogador muito jovem, que vinha de outro clube e de um contexto completamente diferente. Precisava de tempo e espaço para se adaptar, crescer e evoluir. Nos jogos que foi realizando pela equipa B, começou a dar sinais muito positivos, embora numa primeira fase fossem mais intermitentes. Tinha ações que demonstravam claramente a sua qualidade, mas também momentos em que passava um pouco ao lado do jogo.

Na parte final da sua passagem pela equipa B, já percebíamos que estava num patamar diferente. Era um jogador que fazia a diferença. A forma como se está a apresentar nesta época é uma consequência natural da sua qualidade e capacidade, mas também do trabalho que os treinadores têm desenvolvido com ele. Tem demonstrado que pode ser uma mais-valia importante e atravessa um momento muito bom, tanto com bola como sem bola.

Nélson Veríssimo é o responsável pela equipa B do Benfica
Nélson Veríssimo é o responsável pela equipa B do BenficaSL Benfica

A relação com Marco Silva: "Existe um interesse genuíno"

- Falando agora da ligação entre a equipa B e a equipa principal, como é a sua relação com Marco Silva? Existe um contacto regular entre os dois?

Tem corrido muito bem. Não nos podemos esquecer de que o mister Marco começou a época praticamente logo em competição, o que tornou a tarefa mais difícil. Ainda assim, demonstrou muito interesse em conhecer os jogadores e as dinâmicas da equipa B. Acabou por decorrer de uma forma natural, até porque conhece o futebol português e já conhecia esta dinâmica de relação entre a equipa B e a equipa A.

Da nossa parte, existe também o interesse normal, porque somos uma equipa de suporte à equipa principal. Temos de perceber as suas rotinas e dinâmicas para conseguirmos responder às necessidades da equipa principal em cada momento.

Existe uma ligação direta com o mister Marco Silva, nomeadamente através do telefone, mas também outras vias de comunicação, como o Ricardo Rocha e o Simão Sabrosa. Existe a preocupação e o cuidado de acompanhar a forma como os jogadores trabalham e treinam. Já tivemos a oportunidade de ver o mister Marco Silva a assistir, ao vivo, a um jogo da equipa B e, noutros momentos, está o Ricardo Rocha. Acima de tudo, sentimos que existe um interesse genuíno pela forma como os jogadores estão a ser desenvolvidos.

- O Adidas Benfica Campus celebrou recentemente 20 anos de existência. Tendo acompanhado grande parte deste percurso, como olha para aquilo em que se transformou e para o futuro da formação do Benfica?

Para já, uma grande vontade de toda a gente em dar continuidade ao trabalho que foi desenvolvido nos últimos 20 anos. O Adidas Benfica Campus cresceu muito em termos de dimensão, infraestruturas e recursos humanos. O Benfica acaba por dar todas as condições necessárias para que não falte nada no desenvolvimento individual dos jogadores.

Mas, para além das infraestruturas, acho que são as pessoas que verdadeiramente fazem a diferença, pela paixão, pelo compromisso e pelo conhecimento que colocam naquilo que fazem.

Há muito potencial, há muita qualidade e seria bom que os próximos 20 anos, pelo menos, igualassem aquilo que conseguimos fazer até aqui em termos de crescimento e de produção de jogadores. Esse tem de ser o nosso compromisso: uma boa mentalidade e paixão naquilo que fazemos.

Os próximos jogos do Benfica B
Os próximos jogos do Benfica BFlashscore

- Falou anteriormente no 'ADN Benfica'. O que significa?

Acima de tudo, é saber e sentir que representar o Benfica é representar um clube com uma história enorme, com um passado que fala por si e com tudo aquilo que isso implica ao nível dos comportamentos. Representar o Benfica também significa olhar para as equipas e perceber que têm uma forma de jogar à Benfica.

Com bola, queremos ser uma equipa agressiva, com os olhos virados para a baliza adversária. Ter um futebol apaixonante, que gere entusiasmo nas pessoas e que dê liberdade aos jogadores para terem criatividade. Hoje em dia, sentimos que os jogadores acabam por estar num futebol um pouco formatado. Olhar para as equipas do Benfica é sentir que os jogadores também têm liberdade para criar, para chegar ao último terço e tomar as suas decisões.

Sem bola, queremos que, no momento da perda, sejamos agressivos, que exista uma reação rápida e que tentemos recuperar a bola o mais depressa possível. Queremos ter uma equipa em bloco médio-alto, que condicione o tempo e o espaço de decisão do adversário e consiga recuperar a bola perto da baliza contrária.

Tive um treinador que dizia que o sonho dele era estar a ver um jogo em que uma equipa do Benfica não tivesse a camisola vestida e, apenas pela forma como jogava, conseguir identificá-la como sendo uma equipa do Benfica. É essa identificação com o jogo que procuramos implementar nos nossos jogadores e com a qual também me identifico enquanto treinador.

Nélson Veríssimo a dar indicações num treino da equipa B do Benfica
Nélson Veríssimo a dar indicações num treino da equipa B do BenficaSL Benfica

"Fui dar o primeiro treino no Benfica no dia em que soube que a minha mãe tinha falecido"

- Está quase a chegar aos 50 anos. Que Nélson Veríssimo encontramos hoje e como se sente nesta fase da vida e da carreira?

Sinto-me bem comigo próprio. Os 50 anos dão-me alguma tranquilidade e também são sinónimo do tempo a passar. Há uns anos, quando jogava no Alverca e via os diretores a fazerem 50 anos, achava que já eram velhos. Hoje, estou a chegar aos 50 e sinto-me com muita energia.

Quando olho para mim enquanto treinador, é gratificante perceber que as experiências que fui tendo como jogador e como treinador principal, na equipa B, nas duas vezes em que estive na equipa principal e também no Estoril, me fizeram crescer. Sou hoje um treinador diferente. Gosto de estar aqui e estou muito empenhado neste contexto da equipa B.

Naturalmente, olhando para o futuro, qualquer treinador quer continuar a crescer e a evoluir. Isso poderá passar por outro tipo de projetos, mas não vivo obcecado com isso. Estou muito focado naquilo que é a minha função como treinador principal da equipa B.

Gosto muito daquilo que faço. Quando digo que os jogadores devem olhar para o hoje e não para o amanhã, é também aquilo que faço. Olho muito para o dia a dia, jogo a jogo, treino após treino. Quanto ao futuro, logo veremos o que dirá.

- O que pensa hoje sobre as passagens pela equipa principal do Benfica?

Quando penso nas experiências que tive na equipa A, foram contextos muito específicos. Na segunda passagem, acabou por existir um espírito de missão num ano difícil para o clube. Tentei garantir alguma estabilidade e preparar aquilo que vinha a seguir. Foi também um momento muito difícil para mim, porque fui dar o primeiro treino na equipa principal no dia em que soube que a minha mãe tinha falecido. Foi um momento em que coloquei uma pedra no coração e me concentrei na missão que tinha.

Obviamente, não posso olhar para estas duas passagens como positivas, porque treinar a equipa principal do Benfica é conquistar títulos. Quando não se conquistam títulos, não se pode dizer que a passagem foi positiva. Ainda assim, chegámos a uma final da Taça da Liga e aos quartos de final da Liga dos Campeões, depois de eliminarmos o Ajax. Fomos eliminados pelo Liverpool, mas demos uma grande resposta em Anfield e também aqui, no Estádio da Luz. Portanto, acho que fica um sentimento positivo relativamente à participação na Liga dos Campeões.

Também demos continuidade à aposta no Gonçalo Ramos e proporcionámos a estreia a outros jovens. Demos oportunidade ao (Tiago) Gouveia para se estrear, ao Sandro (Cruz), ao Martim Neto e também ao Diego Moreira. O próprio Darwin faz uma reta final muito boa e acaba transferido para o Liverpool. Portanto, dentro daquele espírito de missão, acho que fizemos coisas positivas e que isso também tem de ser valorizado.

Nélson Veríssimo recorda passagem pela equipa principal do Benfica
Nélson Veríssimo recorda passagem pela equipa principal do BenficaOpta by Stats Perform, SL Benfica

- E pelo Estoril?

Depois, houve a passagem pelo Estoril, num ano de reformulação, com muitos jogadores a entrar e a sair. Iniciámos bem o campeonato, tivemos uma quebra e o reinício da competição não foi ao encontro das expectativas. E aconteceu o futebol. O presidente e o treinador juntaram-se, conversaram, discutiram o futuro e tomaram uma decisão. Essa decisão acabou por ser a minha saída. Deixei lá muita gente amiga e fiquei com uma grande relação com o presidente e com todos os elementos da estrutura diretiva.

Depois, acabei por regressar à equipa B. Às vezes, as pessoas perguntam: 'Mas porquê?' E eu digo: por que não? Não considero que existam treinadores de Primeira Liga, de Segunda Liga ou de Terceira Liga. Existem treinadores. O desafio foi-me colocado e acabei por aceitar, porque também senti que as pessoas queriam muito que regressasse.

Sinto-me bem neste contexto, gosto de estar aqui e estou focado nesta missão que tenho na equipa B. Mas, naturalmente, como qualquer treinador, quero continuar o meu processo de evolução e crescimento e, um dia, provavelmente acabarei por dar esse passo. Se será na Primeira Liga portuguesa ou no estrangeiro, não vou dizer que sim nem que não. É perceber qual será o melhor passo, tanto para mim enquanto treinador como para os projetos seguintes.

- Falou em Gonçalo Ramos, um jogador que está hoje na alta roda do futebol. Ver jogadores com quem trabalhou crescerem e brilharem noutros patamares são também 'pequenas grandes medalhas' da sua carreira?

Tive um pequeno contributo. Às vezes, as pessoas dizem que o Nélson Veríssimo lançou o Gonçalo Ramos, o Diego ou o Gouveia na Primeira Liga. Mas não posso esquecer todo o trabalho que foi feito, porque eu dou a cara, mas, para trás, está o trabalho de muita gente.

Desde as pessoas que descobriram o jogador e o colocaram no centro de formação até todo o trabalho que foi desenvolvido pela nutrição, pela psicologia e pelas restantes áreas. Depois, o treinador, fruto da qualidade do jogador, do seu rendimento e dos seus hábitos de treino e de trabalho, toma a decisão de o colocar ou não.

Obviamente, quando olho para um Gonçalo Ramos, para um Tiago Santos ou para um João Marques, jogadores com quem também trabalhámos no Estoril e que depois seguiram os seus percursos, sentimos alegria. Sentimos que tivemos um pequeno contributo para a evolução e o crescimento desses jogadores. E, quando os vemos nesta alta roda competitiva, claro que nos enche de orgulho e de satisfação e nos dá motivação para continuar o nosso trabalho.

Nélson Veríssimo é o treinador da equipa B do Benfica
Nélson Veríssimo é o treinador da equipa B do BenficaSL Benfica

"O futebol, mais do que ciência, é arte"

- Últimas perguntas. Daqui a dez anos, quando olhar para este período no Adidas Benfica Campus, o que gostaria que os jogadores que passaram pelas suas mãos dissessem sobre Nélson Veríssimo?

É uma pergunta difícil. Acho que, hoje em dia, os jogadores valorizam o treinador que têm à sua frente, mas também as suas ações. Tento ser coerente nas minhas decisões, embora, aos olhos dos jogadores, essa coerência seja sempre questionável.

Acima de tudo, gostava que olhassem para mim como alguém que contribuiu para o seu crescimento e desenvolvimento, não só na componente desportiva, mas também na componente pessoal. Porque o treinador, para além de formar o jogador, também forma o homem, também forma a pessoa.

Gostava que olhassem para mim como alguém que, através da partilha de experiências e das conversas sobre a vida, contribuiu para que tomassem boas decisões, não apenas do ponto de vista desportivo, mas também ao longo da sua vida pessoal.

- O futebol deu-lhe muito e também lhe terá tirado algumas coisas ao longo da vida. Se o futebol fosse uma pessoa e pudesse falar diretamente com ele, o que lhe diria?

Deu mais. O futebol dá sempre mais do que aquilo que tira. Dir-lhe-ia que continue a espalhar magia. Acho que o futebol, mais do que ciência, é arte. E a essência do futebol é o jogo em si e os jogadores. Que continuem a espalhar a sua magia.

O futebol tem a capacidade de chegar a sítios a que outras atividades ou entidades não conseguem chegar. Tem um papel social muito grande, não apenas dentro das quatro linhas, mas também pela capacidade de gerar opiniões e de alertar para situações que se passam no contexto mundial. Quando essa exposição é utilizada de uma forma positiva, a humanidade tem a ganhar.

É o prazer de ver uma criança no estádio a admirar um jogo, um jogador ou um passe. É admirar aquela multidão que se concentra num estádio para aplaudir a equipa ou para puxar por ela nas alturas de maior dificuldade. O futebol é um jogo de emoções, de sensações, e acaba por ser um espetáculo que chega a muita gente. Isto é tudo magia. É a magia do futebol. E temos de utilizar essa magia de uma forma positiva.

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