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Aos 30 anos, Rafael Barbosa olha para a carreira sem arrependimentos, mas também sem esconder as perguntas que ainda o acompanham. Formado no Sporting, onde foi capitão em todos os escalões de formação e chegou a assinar um contrato profissional com uma cláusula de 60 milhões de euros, o médio - acha um "crime" jogar a extremo - reconhece que nem tudo correu como imaginou quando deixou Amarante para perseguir o sonho de ser futebolista.
Numa conversa de coração aberto com o Flashscore, recorda a influência decisiva de Aurélio Pereira, a mágoa de nunca se ter estreado pela equipa principal dos leões, os momentos mais difíceis da carreira e as escolhas que poderiam ter mudado o seu percurso. Pelo meio, fala ainda da paternidade e da vontade de continuar a sonhar alto.

"O senhor Aurélio Pereira fez-me acreditar que podia chegar longe"
- Rafael, vamos começar pelo início. Gostava de perguntar-lhe o que é que ainda reside no Rafael de hoje daquele menino de oito/nove anos que começou na Associação Cultural e Desportiva da Madalena, em Amarante?
Aquilo que continua desse menino são os sonhos. Muitos deles já os concretizei, como estrear-me profissionalmente e jogar na Liga, que eram os meus maiores objetivos. Outros não consegui concretizar, como chegar a um clube grande ou estrear-me pela equipa principal do Sporting. Mas continuo a ser o mesmo miúdo sonhador, com objetivos e sonhos por cumprir. Apesar dos meus 30 anos, acho que ainda há coisas possíveis no futebol. Já vimos acontecer muita coisa e acredito que ainda posso concretizar alguns desses sonhos daquele menino.
- Esse menino cresce em Amarante, passa pelo Boavista e depois acaba disputado entre Benfica e Sporting. Como é que uma criança lida com isso?
Sim, é verdade. Na altura cheguei mesmo a assinar pelo Benfica. Quem tratava do meu processo era o Bruno Maruta, que ainda hoje está no clube. Eu jogava no Boavista e fazia muitos torneios também pelo Benfica. Num desses torneios, já depois de ter assinado pelo Benfica, apareceu o senhor Aurélio Pereira. Passados uns dias foi a Amarante falar comigo e convenceu-me a ir para o Sporting.
- E como é que o Aurélio Pereira convence um miúdo benfiquista a trocar o Benfica pelo Sporting?
Toda a minha família era benfiquista. Acho que ainda é (risos). Eu é que entretanto mudei. Mas o senhor Aurélio fez-me sentir importante. Fez-me acreditar que podia chegar longe. E eu senti isso logo nas palavras dele. Marcou-me muito. Acabei por ir viver para a Academia sem sequer ter idade para isso. Treinava logo com os mais velhos e só ao fim de semana jogava com os miúdos da minha geração.

- Com 12 ou 13 anos sai de Amarante para Lisboa. Como foi lidar com isso?
Foi muito difícil. Nos primeiros dois anos chorava sempre que os meus pais iam embora. Dos 12 aos 19 anos nunca falharam um jogo meu. Nunca. Mesmo com dificuldades, faziam sempre esse esforço. Hoje, sendo pai, percebo ainda mais aquilo que eles passaram. A minha mãe dormia agarrada à minha roupa para sentir o meu cheiro. Foi duro para todos.
- O que é que o segurou nesses momentos?
O sonho. E o apoio dos meus pais. Fiz a mala muitas vezes para ir embora. Adormeci muitas vezes no chão da casa de banho a falar com eles ao telefone. Foi muito duro. Mas tinha um objetivo muito claro e isso manteve-me sempre focado. Olhando hoje para trás, não sei se valeu tanto a pena, mas foi o meu caminho e estou feliz por isso.
- Como é que foi alimentando esse sonho de ser futebolista profissional?
O meu pai incutiu-me muito isso. Desde os sete ou oito anos que treinava comigo nas férias, nos períodos em que regressava do Sporting. Sempre fui muito focado. E acho que isso se nota no percurso que tive. Entrei no Sporting aos 12 anos e, até sair, praticamente não houve nenhum jogador da minha geração que me acompanhasse durante todo o caminho.
- Crescer numa Academia também o obrigou a amadurecer mais cedo?
Muito. Cresci muito como pessoa. Fiquei autónomo muito cedo. Com 12 anos tive de aprender a resolver os meus problemas sozinho, a gerir escola, futebol, tudo. Quando tinha 16 ou 17 anos já sentia que tinha uma maturidade diferente da maioria das pessoas da minha idade.

- O Rafael foi capitão em todos os escalões da formação do Sporting. Sentiu desde cedo a responsabilidade que o Sporting depositava em si?
Sim. Desde o primeiro dia. O senhor Aurélio disse-me logo que eu era uma aposta muito forte do clube e que acreditava muito em mim. Isso trouxe responsabilidade. Fui capitão praticamente em todos os escalões e aprendi a amar o Sporting. Não nasci sportinguista, mas aprendi a gostar verdadeiramente do clube.
- O senhor Aurélio era uma pessoa muito especial.
Era. Posso partilhar uma história que pouca gente conhece. Estava na transição dos sub-18 para os sub-19 do Sporting. Não joguei muito nesse ano, mas nos anos anteriores era a grande estrela da equipa. No final da época estava de férias quando recebo uma chamada da Academia. Era o Virgílio, braço-direito do Bruno de Carvalho, a dizer-me que estava dispensado e que podia procurar clube. Lembro-me de ligar ao meu pai a chorar compulsivamente.
Passados uns dias assinei pelo Vitória SC. Entretanto, a minha mãe ligou ao senhor Aurélio Pereira para agradecer tudo o que ele tinha feito por mim, e ele respondeu: ‘Ele não vai embora, esqueça isso.’ E a verdade é que acabei por voltar ao Sporting, sou grande destaque e acabo por assinar contrato profissional por cinco anos, com cláusula de 60 milhões de euros.
Tinha uma ligação muito especial com o senhor Aurélio. Até há bem pouco tempo, antes de falecer, sempre que eu marcava um golo recebia uma mensagem dele: ‘Meu menino, grande golo.’

"Hoje em dia, com esses números, era vendido por milhões"
- Ainda foi ao banco em jogos da Liga Europa, mas a estreia pela equipa principal nunca aconteceu. Continua a ser a maior mágoa?
Sim, é a minha maior mágoa. Hoje olho para trás e custa-me perceber algumas coisas. Eu fazia números muito bons na equipa B: oito golos, nove assistências, era muitas vezes o melhor jogador do mês. Hoje em dia, com esses números, provavelmente era vendido por milhões. E é difícil gerir isso emocionalmente.
- Nessa altura o treinador da equipa principal era o Jorge Jesus...
Gostei muito de trabalhar com o mister Jorge Jesus, tratava-me com muito carinho, e senti-me privilegiado por estar naquele contexto, mas ficou esse vazio.
- Sentiu que carregou durante muito tempo o peso de ser uma promessa?
Sinto que carreguei esse peso durante muito tempo, mas hoje já não. Mesmo quando não era titular, ia muito abaixo. Talvez transmitisse alguma azia ao treinador, mas, na verdade, era tristeza. Pensava demasiado no futuro e não desfrutava do presente. Isso acabou por influenciar um pouco a minha carreira, mas também tive de aprender a lidar com isso.
A minha cabeça estava sempre a mil e a pensar no futuro. Se não jogava, pensava logo: 'Como é que vou chegar ali?' Se jogava e não fazia golo: 'Como é que vou chegar ali assim?' Se fazia golo: 'Como é que ainda estou aqui?' Nunca conseguia desfrutar verdadeiramente do presente. E isso prejudicou-me um pouco. Eu pensava demasiado em tudo aquilo que podia acontecer e isso tirava-me tranquilidade dentro de campo. Hoje olho para trás e percebo que devia ter desfrutado mais.
- Depois fecha o capítulo Sporting e vai para o Portimonense. Como foi esse choque?
Foi muito complicado. Eu renovo com o Sporting depois de uma grande época na equipa B, internacional sub-21, e vou para um Portimonense onde o principal ativo era o Nakajima, precisamente na minha posição. Logo no primeiro dia pensei: 'Como é que vou jogar aqui?' Se fosse hoje teria dito que não. Logo depois da primeira reunião, em que me disseram que ia ser uma boa luta entre mim e o Nakajima, cheguei a pegar no carro e ir embora pela A2. Disse ao meu empresário: 'Esquece, eu não vou jogar aqui...' Depois acabaram por convencer-me a voltar atrás, mas a verdade é que senti logo que as coisas dificilmente iam correr bem.
- E depois surge o Paços de Ferreira. O que representou esse passo?
O Paços devolveu-me alegria. Apanhei o mister Vítor Oliveira, que foi incrível comigo. Aprendi muito com ele, principalmente a jogar mais entre linhas. Foi um treinador muito importante na minha carreira.

- Depois surge o Tondela e, de certa forma, a sua afirmação definitiva na Liga. O que significou esse clube para si?
Devo tudo ao Tondela. O presidente e o diretor desportivo acreditaram muito em mim. Os meus primeiros meses na Liga foram muito bons. Houve até rumores de interesse do FC Porto. Depois tive uma lesão complicada, apanhei Covid e foi uma fase difícil, em que estive um mês e meio em casa... Tratei a lesão em casa. Depois esses rumores desapareceram e o ano seguinte foi muito conturbado, em que acabámos por descer de divisão. Mas o Tondela marcou-me muito.
- E aquela final da Taça de Portugal?
Foi o momento mais lindo da minha carreira. Na primeira parte do jogo estava quase anestesiado. Nem conseguia desfrutar verdadeiramente do momento. Tínhamos acabado de descer de divisão e, no dia seguinte, já estávamos a treinar para a final. Foi um misto de emoções muito grande. Apesar de não me terem deixado sair na época seguinte, sou muito grato (risos).
- A época seguinte também foi muito complicada para o Tondela, por causa da impossibilidade de inscrever jogadores. Como foi viver isso por dentro?
Foi uma situação difícil de gerir. Estava numa fase ascendente da minha carreira, aos 26 anos, e o presidente dizia-me que existiam propostas do Vitória SC, do Rio Ave e até do estrangeiro, como do Pafos, de Chipre, mas acabou por não me deixar sair. Foi muito complicado e as pessoas talvez não tenham verdadeira noção da dificuldade que isso representou para mim.
A sorte do Tondela foi que a base da equipa do ano anterior se manteve praticamente intacta. Muitas vezes treinávamos com miúdos muito jovens e a competitividade no treino já não era a mesma, mas conseguimos criar uma ligação muito forte dentro do grupo. O Tondela merece muito mais do que aquilo que acabou por acontecer.
- Apesar de tudo, a sua capacidade de resiliência parece ter sido sempre uma constante.
Sim. Posso ir abaixo, mas volto sempre. Já fui muito mais abaixo psicologicamente, principalmente por pensar demasiado no futuro. Hoje tento viver mais o presente. Mas a resiliência sempre fez parte de mim.

"Acho um crime meterem-me a jogar a extremo"
- Como olha para as suas últimas experiências, no Farense, Polónia, AFS e Leixões?
O primeiro ano no Farense foi positivo. Mesmo sem jogar tanto numa fase inicial, senti que consegui ajudar bastante a equipa na segunda metade da época. No final dessa temporada surgiram possibilidades para sair para contextos mais atrativos, mas o Farense transmitiu-me que seria uma peça importante no ano seguinte. Comecei a época como aposta, mas deixei de jogar após a chegada do Tozé Marreco. E aí entrei em desespero.
Entretanto surgiu uma oportunidade na Polónia, para jogar a extremo - uma posição de que nunca gostei particularmente -, mas acabei por aceitar. Era um futebol muito físico e sentia que não encaixava bem nas minhas características. No final da época comecei a pensar seriamente em regressar. Ao mesmo tempo, vivi um momento muito complicado a nível pessoal. A minha mulher estava grávida de gémeos, mas acabámos por perder um dos bebés às 13 semanas. Nem sabíamos se a outra bebé ia sobreviver… Foi uma fase marcada por muita ansiedade e enorme angústia. E eu quis regressar para Portugal.
- O regresso a Portugal também teve muito a ver com esse lado pessoal?
Completamente. Queria estar perto da minha mulher e da minha filha depois de tudo aquilo que aconteceu. Nem pensei muito na escolha do clube. Só queria regressar.
- E esta última época? Como a analisa?
Foi uma época emocionalmente muito difícil. No AFS comecei novamente a jogar a extremo e senti alguma desconfiança em relação ao meu valor. Para jogar nessa posição, acredito que tenha de ser num contexto de posse e numa equipa dominante. Numa equipa que luta para não descer, acho sinceramente que é um crime. Logo no segundo jogo falhei um penálti e senti que o ambiente à minha volta mudou. Fiquei com a sensação de que não foram totalmente corretos comigo. Em novembro perguntei se podia sair e, a partir desse momento, praticamente deixei de jogar.
Passei dois meses sem competir e isso acabou por afetar muito o mercado. As propostas que existiam em novembro acabaram por esfriar. Depois, no último dia de mercado, surgiu o Leixões. Fui analisar o plantel e senti que havia qualidade suficiente para lutar pelo terceiro lugar. A verdade é que, a partir daí, as coisas começaram a estabilizar. A equipa melhorou bastante e eu voltei a sentir prazer em jogar futebol, sobretudo quando comecei finalmente a atuar na minha posição.
- Já percebemos que jogar a extremo não é propriamente o seu sonho…
(Risos) Acho mesmo um crime meterem-me a jogar a extremo. Fiz praticamente toda a minha formação como médio interior, número oito. Foi aí que fiz os melhores números da minha carreira. Acho sinceramente que isso acabou por prejudicar um pouco o meu percurso.

"Percebi rapidamente a dimensão do Leixões"
- Aos 30 anos, como olha para o futuro?
Neste momento tenho contrato com o Leixões e tudo indica que vou continuar. Quero ajudar o clube a dar alegrias aos adeptos, porque percebi rapidamente a dimensão do Leixões e da sua massa associativa. Não tinha noção do quão enorme é o clube. E acima de tudo quero viver mais o presente, desfrutar mais do futebol e também da minha filha.
- O que é que a paternidade mudou em si?
Mudou muita coisa. Estou ainda mais sensível. Este ano foi complicado porque houve momentos em que vinha do treino muito angustiado e depois chegava a casa, olhava para a Júlia, e tudo mudava. Os problemas desaparecem.
- Que objetivos ainda gostava de cumprir na carreira?
Quero voltar a jogar numa Primeira Liga. Esse é um objetivo muito claro. E continuo a sonhar. Não há impossíveis. Enquanto houver pernas, vou continuar a acreditar.
- Hoje está mais em paz com a sua carreira?
Penso muitas vezes no que podia ter sido diferente, claro. Mas não me vejo como um coitadinho. O futebol é feito de detalhes. Há jogadores com mais qualidade que nunca chegaram e outros com menos que chegaram mais longe. É preciso estar no sítio certo, à hora certa. E acredito que ainda podem acontecer coisas boas.

- O que diria hoje àquele menino que começou em Amarante?
Para nunca desistir. A vida vai colocar muitas pedras no caminho, mas a resiliência acaba sempre por compensar. O futebol dá muitas voltas.
- E se o futebol fosse uma pessoa e a encontrasse na rua?
Nem sempre foste justo comigo, mas obrigado por tudo aquilo que me ensinaste.
- Quando um dia perguntarem 'quem foi o Rafael Barbosa?', o que gostava que respondessem?
Gostava que falassem não só do jogador, mas também da pessoa. Quem me conhece sabe o amigo que eu sou. E, como jogador, que me recordem como alguém com muita qualidade e irreverência.
- E o que espera que a sua filha responda a essa pergunta?
Espero que tenha muito orgulho no pai. E que diga que o pai foi sempre muito resiliente e lutou muito na vida.
